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Uma Viagem pela Ficção Lírico-Histórica de Ana Miranda

Uma Viagem pela Ficção Lírico-Histórica de Ana Miranda

mar 26, 2017

O escritor é um amálgama de diversas vivências, sentimentos vontades, expressões, pensamentos. E, por mais parecidos que possam ser em determinadas ocasiões, cada um deles é singularmente comum em sua diferença. Dos temas de seus livros, à forma como escolhe grafar sua linguagem, o escritor é, antes de tudo, um poço profundo de múltiplas vozes que, assim como o movimento das marés, não pode permanecer estático, ou calado, mas sim, insiste em ser belo, inspirador, simplesmente por ser algo que lhe é natural e comum. Evidencio de forma tão lírica, e metafórica, o aspecto próprio que resguarda cada autor em relação a sua obra literária, pois seria no mínimo indelicado tratar da singularidade tão rica e poética, mesmo em prosa, de Ana Miranda com letras mais brandas, ou pobres, para ser mais enfático em meus argumentos. Leitor ha muitos anos da escritora cearense, que ao longo da vida se tornou brasileira, acima de tudo, sempre admirei especialmente dentre os vários itens encantadores de seu cânone literário, sua predileção pela aliança sempre atraente e enriquecedora, da ficção com a história; enaltecida ainda mais pelo uso recorrente de vultos de nossas letras como personagens de suas narrativas.

Sim, ao longo de sua vida literária, Ana Miranda percorreu diversos momentos de nossa história nacional, pintando com múltiplas – mas sempre competentes -, letras, os citados períodos por meio dos olhos aguçados de alguns dos mais significativos nomes da literatura brasileira. Se já não fosse a escolha pelo tema do passado algo digno de grandes louvores, sendo eles sempre cantados de forma crível e envolvente ao leitor, usar a vida pessoal, e a percepção de autores do período, torna a obra de Ana Miranda uma das mais singulares de nossas letras, inquestionavelmente, e deveras convidativa á um passeio por seus livros, cada um mais apaixonante que o outro. Duvida, vamos, pois, tratar de maneira mais incisiva cada um deles abaixo demonstrar na prática como se dá essa ligação “litero-ficcional” com a história brasileira.

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A autora rindo de você que gosta de uma boa leitura mas que desconhece a obra dela…

A primeira, dentre a vasta obra da autora cearense, que se encaixa neste perfil de sua criação literária é “Boca do Inferno” (Companhia das Letras), justamente sua estreia em prosa, publicada em 1989. Ganhador do Prêmio Jabuti (um dos mais significativos de nossa literatura) como melhor romance daquele ano, o livro trata da conturbada Bahia, mais precisamente da cidade de Salvador, do final do século XVII. A narração evidencia, se entrelaçando com fatos da vida do poeta Gregório de Matos, o turbulento cotidiano da capital baiana naquele período. Entre desmandos e devassidão, é abordado no romance o conflito de poder que opôs o governador Antonio de Souza Menezes, o temível Braço de Prata, à facção liderada por Bernardo Vieira Ravasco, da qual faziam parte o padre Antonio Vieira e o poeta Gregório de Matos, criou ferrenha oposição ao líder da província, causando muito sofrimento e mudanças na vida de nosso poeta-protagonista. O livro alavancou o nome da autora cearense por sua grande qualidade de enredo e escrita, demonstrando uma prematura maturidade e fluidez de composição literária. Além disso, foi o primeiro dos romances de Ana Miranda que usaria como pontos de contato a ficção e a história, usando sempre que possível, a vida de um escritor da época em sua trama central. Porém, este primeiro, e elogiado, romance, somente prenunciava uma brilhante carreira, e uma qualidade que só cresceria com o tempo. 

Após o grande sucesso de Boca do Inferno – que ficou mais de cinquenta semanas na lista dos mais vendidos, e teve seus direitos adquiridos por treze países -, criou-se uma considerável expectativa sobre o próximo livro da autora, e ela não decepcionou. “O Retrato do Rei” (Companhia das Letras), lançado em 1991, trouxe ao público, ansioso, uma nova visão apurada do passado. Desta vez o enredo descreve com precisão notável a Guerra dos Emboabas, na qual paulistas e portugueses se defrontaram, no início do século XVIII, pelo controle da região do ouro nas Minas Gerais. Como pano de fundo para o violento conflito, surge o mistério acerca do desaparecimento do retrato de D. João V, sendo o quadro o único item que pudesse evitar o anunciado derramamento de sangue. No novo romance, Ana Miranda volta a apresentar sua linguagem simples, fluida, e envolvente, que prende o leitor em uma imersão quase impossível de fugir á cada virada de página. Ademais, são explorados temas que, embora bem colocados em determinada época temporal, tornam o enredo atemporal em essência, sendo bem tratados aspectos como violência, arrogância e corrupção – demonstrando que estes são nuances não restritos á uma época em específico.

Dias e Dias é uma das obras fundamentais para conhecer a produção de Ana Miranda

Dias e Dias é uma das obras fundamentais para conhecer a produção de Ana Miranda

Em seu terceiro romance dentro da premissa abordada, a aliança entre ficção e história, temos o livro “A Última Quimera” (Companhia das Letras) de 1995. Neste novo trabalho, Ana Miranda debruça-se sobre a vida e a obra de Augusto dos Anjos (1884-1914), o poeta que surpreendeu nosso mundo literário ao misturar a objetividade do cientificismo com os mais profundos sentimentos do ser humano. Embasado por uma minuciosa pesquisa histórica, a autora não só dá corpo poético às inquietações metafísicas que consumiam o jovem poeta, como traça um quadro impecável dos costumes e principais acontecimentos da época: os descaminhos da República, as disputas políticas, a Revolta da Chibata, a modernização do Rio de Janeiro, o duelo entre Olavo Bilac e Raul Pompéia, a onipresente influência francesa, etc. O resultado é um panorama vivo de um dos momentos mais fascinantes de nossa história recente, numa obra literária instigante e memorável. Ainda sobre o romance, é percebida uma manutenção da linguagem ao mesmo tempo fluida, mas bem construída que segue o estilo da autora desde sua estreia em prosa. Seu estilo de escrita só passaria por uma sensível mudança em sua publicação seguinte.

“Desmundo” (Companhia das Letras), romance de 1996, marcou não só o aperfeiçoamento da linguagem grafada em suas páginas, como também evidenciou a evolução da autora em termos de construção do enredo, e de suas descrições de tipos e locais. Sobre este citado aprimoramento da linguagem exercida, percebeu-se um apego deveras coerente da escritora com o modo de falar da época, sendo fator preponderante na imersão do leitor na veracidade da narrativa contada. Falando do cerne da trama, ela é um relato de uma jovem que atravessou não apenas o oceano Atlântico, mas a linha imaginária que separa a realidade e o sonho, a liberdade e a escravidão, o amor e o ódio, a virtude e o pecado, o corpo e o espírito.

Desmundo flerta bem de perto com o romance histórico

Desmundo flerta bem de perto com o romance histórico

Numa noite do ano de 1555 chega ao Brasil uma caravela trazendo uma leva de órfãs mandadas pela rainha de Portugal para se casarem com os cristãos que aqui habitavam. Com a mente repleta de sonhos e fantasias, elas pisam pela primeira vez a terra distante, onde um mundo rude, belíssimo, violento as espera. A história dessas órfãs é contada por uma delas, Oribela, com sua visão mítica, espiritual, sensual – uma jovem que costuma ter visões noturnas, ímpetos de partir e muito medo da paixão que habita sua alma. Desmundo se destacou em nosso meio literário, e internacionalmente, não apenas por sua evidente qualidade intrínseca, mas por abordar um período histórico pouquíssimo explorado, com uma paixão e verdade até então inexistentes no cânone nacional.

Seguindo em nosso levantamento sobre esta rica face da criação de Ana Miranda, é inevitável citar a novela “Clarice” (Companhia das Letras), também de 1996. Nesta obra, a autora faz da escritora Clarice Lispector uma personagem literária e lhe dá uma verdade que só existe na ficção. Assim, ninguém questionará se “a montanha pesada e parada é apenas uma mancha verde e cinzenta dentro de Clarice”. A literatura, de certa forma, foi à realidade mais verdadeira para a Clarice do registro civil, e talvez por isso a protagonista deste livro seja um ser efetivamente feito de palavras. Ana Miranda foi buscá-lo em certas paisagens conhecidas como Coração selvagem, A hora da estrela, A paixão segundo G. H. etc. O livro evidencia ainda mais a precisão não só da pesquisa histórica realizada por Ana Miranda para compor suas narrativas, mas da pesquisa sentimental, demonstrando uma visão intrínseca, profunda, e sensível ao olhar artístico dos autores por ela romanceados.

Ana Miranda ao lado de suas leituras do mês

Ana Miranda ao lado de suas leituras do mês de Fevereiro

E finalmente chegamos ao livro que é apontado pelo público, e pela própria autora, como o melhor de sua escrita em prosa, “Dias & Dias” (Companhia das Letras), romance publicado em 2002. A história reúne três personagens centrais: Feliciana, uma jovem sonhadora e obstinada; o poeta romântico Antonio Gonçalves Dias, por quem ela nutre uma longa e intensa paixão, e o sabiá – não um sabiá específico, mas a espécie inteira, que na “Canção do exílio” simboliza a pátria distante.  A narrativa, como cerne desta face da produção da autora, combina história e ficção para contar uma trama sobre o amor, os costumes provincianos no interior do Brasil durante o século XIX, a descoberta da cultura indígena, a beleza da poesia e os mistérios da sensibilidade.

No romance, Feliciana toma conhecimento da vida íntima de Gonçalves Dias por meio das cartas enviadas pelo poeta a seu grande amigo Alexandre Teófilo de Carvalho Leal. Mostradas à jovem por Maria Luíza, esposa de Teófilo, as cartas registram muitas das questões existenciais do poeta. Feliciana descreve de forma emocionante a paixão que as cartas alimentam, e seu relato revela refinamentos da alma feminina. A trama tecida pela autora faz com que o leitor se identifique com ela, uma mulher que desvenda o que sente por meio da escrita e da memória. Os personagens menores – o pai de Feliciana, colecionador de sabiás; Adelino, um tímido professor apaixonado pela jovem, e Natalícia, a doce, e severa, preceptora – conferem ao livro uma grande riqueza humana. Com o romance, Ana Miranda foi novamente premiada com o Jabuti, e recebeu prêmio da Academia Brasileira de Letras, por melhor romance do ano.

Uma boa lista para conhecer a produção literária da autora

Uma boa lista para conhecer a produção literária da autora

Bom, antes de finalizar o texto, é preciso salientar que as obras citadas constituem uma parte do cânone literária da autora. Não é nossa intenção também, com as afirmações acima, enaltecer esta face das publicações em detrimento das outras, mas sim, informar aos leitores sobre esta rica e pouco explorada temática relacionada essencialmente à ficção histórica nacional. Espero que o artigo os instigue a buscar estas leituras, pois são ricas experiências que acrescentam e muito ao acervo literário de qualquer amante das letras

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