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Steampunk Ladies: Vingança à Vapor

Steampunk Ladies: Vingança à Vapor

jun 23, 2015

Em mais de uma oportunidade já compartilhei com vocês minha recorrente predisposição a leitura de títulos que fogem do conceito relacionado à super heróis na nona arte. Claro, não tenho como negar que adoro os clássicos da Marvel/DC, leio sempre que posso. Porém, a limitação dos temas tratados em determinados momentos desta linha editorial, pede um algo a mais em relação aos enredos abordados nos roteiros desse tipo de quadrinhos. E como se nas páginas de O Homem Aranha, ou do Batman, estivéssemos seguros em casa, confortáveis, e soubéssemos exatamente o que esperar dessas histórias. Por outro lado, a leitura de títulos fora desse escopo nos levam para longe, em ambientes desconhecidos, e nos apresentam novos cenários, personagens e sentimentos. Óbvio, como uma leitura de risco, algumas vezes a surpresa é positiva, outras nem tanto; cabe à você como leitor correr o risco, ou não. Felizmente, na grande maioria das vezes essa descoberta tem sido muito boa para mim.

E foi durante uma dessas “viagens”, que conheci Quem Matou João Ninguém (Editora Draco), com roteiro assinado por Zé Wellington, e que me surpreendeu desde as primeiras páginas pela imprevisibilidade do enredo. Desde então, procurei conhecer outros trabalhos desse conterrâneo de muito talento, e eis que tenho a oportunidade de ler sua nova produção: Steampunk Ladies: Vingança a Vapor, novamente publicado pela Editora Draco, e com arte de Di Amorim e Wilton Santos. Se na primeira citada o mote era o papel de um super herói inserido na realidade de uma favela – trabalhando conceitos como amizade e violência -, agora o roteiro de Wellington nos leva à um velho oeste visceral, onde a tecnologia a vapor avançou ao surpreendente nível steampunk, e o papel da mulher naquela sociedade machista é reavaliado de maneira bastante sutil, porém incisiva.

Capa irada da edição, que é tão boa quanto o enredo e arte que tem dentro!

Capa irada da edição, que é tão boa quanto o enredo e arte que tem dentro!

A história começa em uma pequena cidade nos moldes daquelas conhecidas do Velho Oeste americano. Nela, três temidos bandidos da região, os Irmãos Bolton, assaltam o banco local e demonstram a posse de um armamento fora do comum, impulsionado por tecnologia à vapor. Enquanto isso, a jovem Sue viaja com seu marido e sogro para testemunhar a partida de uma locomotiva tida como impenetrável, que levará a riqueza do pai de seu consorte. Durante o caminho a carruagem é atacada pelos mesmos Bolton e por Lady Delillah, que também usa estranhos aparatos “steampunk” para subjugar seus tripulantes, e roubar uma chave que estava em posse do Sr. Morgan (sogro de Sue). única sobrevivente do atentado, a garota é encontrada por Rabiosa, uma aventureira que viaja em busca de vingança contra os mesmos criminosos responsáveis pela tragédia que se abateu sobre a família de Sue. Recuperada de seus ferimentos, a jovem não tarda a unir forças com sua nova companheira para trazer justiça aos bandidos que destruíram a vida de ambas, e que pretendem usar sua tecnologia inovadora para roubar a tão famosa comitiva!

Lendo em boa companhia, hehe :P

Lendo em boa companhia, hehe 😛

Steampunk Ladies: Vingança a Vapor (2015) já traz no título o principal conceito abordado no quadrinho: a vingança. Sue e Rabiosa (as protagonistas) compartilham de um inimigo em comum, e põe tudo de lado para sentenciar seus destinos ao encontro do inevitável confronto com os Irmãos Bolton, e com a impiedosa Lady Delillah. No entanto, a riqueza do enredo está não apenas na abordagem desse mote – aliás muito bem amarrado na história como um todo -, mas sim, na inclusão de sub-conceitos que permeiam esse maior, e constroem um panorama mais amplo, empático, e crível para a narração. Um dos mais evidentes desses é a abordagem em relação ao papel da mulher no cenário apresentado (o Velho Oeste); inclusive, uma discussão bem pertinente à nossa atual sociedade. Durante a trama, as protagonistas levantam o tema em diversos momentos, questionando o caráter submisso feminino imposto por essa sociedade, rompendo a barreira social vigente e estabelecendo-se como principais responsáveis por seu destino. Isso, de uma maneira bastante fluida, e sem forçar uma propaganda exagerada e sem embasamento.

Pelo contrário, esse e os demais temas tratados na revista são parte de um todo criativo, e agem dentro de suas próprias esferas como uma engrenagem única, em que tudo tem sua importância única, mas devendo agir como um todo para funcionar; ponto positivo para Zé Wellington, que a cada nova publicação, demonstra uma habilidade maior em desenvolver enredos de fácil compreensão, e ao mesmo tempo complexos por entrelaçarem com competência temas pertinentes. Outro destaque, sem dúvida, é a estrutura não linear da trama, especialmente, na história de Rabiosa. Os acontecimentos passados da vida dessa personagem, são fundamentais para a base do cenário apresentado, e aparecem em momentos propícios durante o enredo, amarrando a narração em uma estrutura fluida e atraente ao gosto do leitor. Tudo num ritmo de aventura em um universo muito perigoso e imersivo.

Se você ainda não tem, está perdendo uma das coisas mais bacanas que vai ler nesse ano, e nos próximos!

Se você ainda não tem, está perdendo uma das coisas mais bacanas que vai ler nesse ano, e nos próximos!

Confesso que não conhecia nada do Di Amorin até então, e fiquei bastante surpreso com a qualidade da arte dele e com sua habilidade narrativa como quadrinista. O ritmo fluente do roteiro de Zé Wellington é muito bem retratado pelo ilustrador, e a disposição de seus quadros não cansa quem lê, e surpreende à cada virada de página. O clima da arte retrata bem o clima western, e as cores de Ellis Carlos concedem um sentimento bacana de nostalgia ao leitor, em especial, se este já leu edições antigas do Tex, Jonah Hex, ou qualquer outra raridade icônica do estilo. Aliás, em se tratando do sub-gênero steampunk, a fuga da tradicional abordagem vitoriana em favor do Velho Oeste foi uma sacada incrível, de encher os olhos e surpreender quem gosta da temática. E para fechar as qualidades do título, devo destacar o primor com que a Draco publicou essa edição. Nossa, desde a capa ao miolo inteiro colorido e em papel couché, o quadrinho não deve em nada à qualquer outro seja no Brasil ou no exterior, falo sério. Ou seja, um roteiro incrível, arte fantástica, um cenário de tirar o fôlego e tudo isso em uma publicação de excelente qualidade! O que você está esperando então para adquirir essa HQ?!

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CAPA_2

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4 Comentários

  1. Fernando Couto /

    Que temática incrivel rapaz. Você falou algo que é verdade, quase sempre o steampunk é ligado á época vitoriana, e nunca a outros periodos. Legal demais a proposta do quadrinho tambem por isso. Vou comprar na primeira oportunidade.

    • Sérgio Magalhães /

      Pois não é, já tinha visto em filmes essa mescla e achado muito boa, embora o filme fosse bem ruim. Agora, no quadrinho ficou excelente! Me deu até vontade de rolar uma partida de RPG dentro desse cenário.

      Abraço e obrigado pelos comentários sempre.

  2. Ariel Lannister /

    Irado meu, difícil achar revistas diferentes assim em geral. O mercado independente e de editoras menores tinha que ter mais divulgação e presença nas livrarias. Não curto comprar na internet, e fica difícil pegar algumas coisas boas como essa.

    • Sérgio Magalhães /

      Concordo! Uma das maiores dificuldades para o mercado, sem dúvida, é o tamanho continental do Brasil, que atrapalha a boa distribuição, agravada pela imensa falta de estrutura. Os próprios editores enaltecem isso. Quanto aos livros da Draco, estão em algumas livrarias, como a Cultura. Se tiver uma na sua cidade, dá uma olhada, certo? Se mora no interior, ai fica bem mais difícil, tem que ser on-line de qualquer jeito.

      Abraço 🙂

Citações

  1. Le Chevalier e a Exposição Universal - […] de Anatomia do Temível Dr. Louison (Fantasy – Casa da Palavra, 2014), em literatura, e Steampunk Ladies: Vingança à Vapor (Editora Draco,…

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