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Star Wars: Marcas da Guerra

Star Wars: Marcas da Guerra

dez 14, 2015

Marcas da Guerra (Editora Aleph, 2015), sem dúvidas, é um livro muito importante para o cânone de Star Wars! Pode parecer superficial, e deveras tendenciosa esta afirmação, mas ao acabar a leitura desta obra, escrita por Chuck Wendig, qualquer fã da série sente aquele prazeroso desejo de estar de volta em casa. Isto pois, sendo uma nova porta de entrada para o reformulado Universo Expandido da franquia, o livro resguarda em si a enorme responsabilidade de compor novamente os acontecimentos do relevante período pós-Império e estabelecimento da Nova República. Sim, o enredo se passa algum tempo depois da vitória da Aliança Rebelde em Yavin – como vimos em O Retorno de Jedi (1983) -, tendo como cerne o estabelecimento de um novo governo, e a resistência do anterior, buscando impedir à mudança com os resquícios de seu antigo poderio militar. Aqui, existe uma satisfatória união entre novos e fascinantes personagens com nomes clássicos em Star Wars, facilitando a imersão dos fãs/leitores e tornando este livro um ponto de partida bem escrito e competente em sua função de iniciar uma nova legião de admiradores da criação de George Lucas, além de embasar a trama ocorrida em O Despertar da Força (2015), sétimo filme da série.

Como afirma muito bem a sinopse oficial do livro “A guerra ainda não chegou ao fim, e um novo panorama galáctico se desenha. Capitão Wedge Antilles, almirante Ackbar, almirante Rae Sloane, a caçadora de recompensas Jas Emari, o antigo agente imperial Sinjir, o garoto Temmin e sua mãe, a piloto rebelde Norra Wexley: novos personagens e velhos conhecidos dos amantes da saga, que sempre estiveram envolvidos na luta, agora devem escolher o lado ao qual jurar sua lealdade. Deverão  colocar-se ao lado da Nova República ou juntar-se às fileiras imperiais?”

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Marcas da Guerra – Editora Aleph -, é bem mais que uma capinha bonita!

Lido isso, percebe-se que a trama possui um mote inicial simples à primeira vista, porém, tornada complexa a medida que avança e novos personagens e fatos vão sendo inseridos na narração. Tudo começa com o piloto rebelde (agora pertencente a Nova República) sobrevoando a órbita do planeta Akiva, na Orla Exterior. Sua missão é procurar resquícios da frota imperial, e comunicar ao comando do novo governo instituído. Aparentemente inofensivo e pouco importante, o local revela uma surpreendente presença do inimigo, que acaba capturando Antilles e dando início à um conflito inevitável. Enquanto isso, Rae Sloane, almirante imperial, veio ao mesmo periférico planeta com o intuito de reunir-se à uma cúpula de importantes figuras imperais com o propósito de definir um novo rumo ao antigo poder, perdido desde a destruição da Estrela da Morte, e queda do Imperador Palpatine. No mesmo instante, Norra Wexley – uma piloto da Aliança -, retorna à Akiva para resgatar o filho, abandonado desde seu ingresso no conflito contra o Império Galáctico, anos antes. No entanto, a reunião imperial afetará mais que o pretendido a rotina do planeta, mais precisamente de sua capital, Myrra. Devido ao encontro, a caçadora de recompensas Jas Emeri chega ao local com o intuito de capturar algumas cabeças imperiais, enquanto o desertor Sinjir, busca se esconder ainda mais de seus antigos companheiros. Alheio à tudo isso, o jovem sucateiro Temmin quer apenas fugir da perseguição do líder criminal local.

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O começo de uma jornada longa, perigosa e surpreendente… Pode acreditar!

Ou seja, o enredo se divide entre diversos personagens – cada um com seu propósito -, mas que acabam tendo seus destinos entrelaçados, sendo direcionados à um mesmo objetivo, deter o império ou restaurá-lo, dependendo do lado escolhido no conflito. Fora os descritos acima, o livro ainda apresenta uma série de outros personagens que tornam a ação descrita bastante dinâmica, fluida e envolvente. Em muito, devido a habilidade evidente de Wendig em entrelaçar diferentes tramas e fragmentar o enredo em partes distintas de uma mesma estória. Assim, embora cada fragmento do texto detenha o olhar sobre um tipo específico – inclusive personagens coadjuvantes -, existe um todo narrativo capaz de avançar com o conflito principal, influenciando as ações de um no propósito do outro, seja ele rebelde, imperial ou independente.

Ademais, sendo um ponto culminante da Queda do império e estabelecimento da Nova República, o autor teve o cuidado de incluir na trama interlúdios passados em várias partes da galáxia, em que são apresentadas consequências da guerra e como suas consequências podem partir do conflito galáctico para o âmbito pessoal, detendo assim a atenção não para o todo, mas ao particular, demonstrando em cada indivíduo, casa ou localidade, como o conflito influenciou a vida das pessoas, independente de seu posicionamento político, condição social ou atitude, em relação à guerra corrente entre rebeldes e imperiais.

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Se eu fosse você, leria a obra antes de assistir O Despertar da Força. Só uma sugestão, tá?!

Fora a trama muito bem construída, a escrita de Wendig facilita, além da leitura, o vislumbre dos cenários e cenas narradas, e o apelo ao teor humano dentro deste cenário tão caótico e indefinido de um pós guerra. O amor de Norra por seu filho, e o sentimento de abandono deste em relação à mãe, talvez sejam o cerne desse aspecto na obra. Todavia, não são os únicos; a lealdade da almirante Sloane, a prepotência de Moff Valco Pandion, a dedicação do dróide Ossudo, o desapego de Sinjir, a pressão do almirante Ackbar, demonstram bem como, apesar de personagens marcantes neste cenário, estes arquétipos não perdem sua humanidade e verossimilhança com a empatia do leitor; desconstruindo, de forma coerente e crível, a figura do herói inteiramente destemido e do vilão essencialmente mal.

Na verdade, a separação entre rebeldes e imperiais – na maioria dos casos -, é definida apenas por uma tendência ideológica e não moral, embora existam sim pessoas boas e más em ambos os lados do conflito. Outro ponto bastante figurativo da obra está no cenário escolhido para ambientar a trama. Akiva é um planeta sem importância na Orla Exterior, sem maiores pretensões, o que simboliza o estado do conflito entre os lados desta guerra. A distância do planeta em relação ao centro da galáxia representa a situação subjugada do Império, enquanto a chegada da Nova República simboliza sua crescente influência e atuação, mesmo em locais aparentemente sem relevância, como Akiva. Ademais, as ruas intrincadas, sujas e estreitas da capital do planeta, Myrra, servem bem de metáfora não apenas as consequência do conflito, mas ao estado sufocante pelo qual passa a população, simbolizado pelos personagens principais, protagonistas ou antagonistas.

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Pois é, e isso tudo é apenas o primeiro livro de uma trilogia! Haja ansiedade…

Por estas e outras razões – só lendo para perceber todas as nuances -, Marcas da Guerra apresenta uma promissora continuidade à este novo cânone proposto pela Disney (desde que os direitos de Star Wars foram adquiridos pela empresa). A presença e menção à personagens de outros livros/quadrinhos já deste Universo Expandido renovado denotam uma preocupação com a coerência e ligação entre as diversas mídias abrangidas pela franquia; algo excelente, principalmente, em uma saga tão ampla e cheia de possibilidades de produção fora do cinema. Óbvio, traçando um paralelo desta com outras obras da saga, existe uma diferença conceitual nela, um trato mais humanos e amplo, a adoção de conceitos contemporâneos que só engrandecem o conteúdo e esclarecem o leitor para a vida. Confesso que fui um dos descontentes quando do estabelecimento deste novo cânone, mas livros como este, Um Novo Amanhecer (Editora Aleph, 2015) e Tarkin (Idem), me fizeram repensar o temor inicial, aceitando com mais boa vontade e encanto todas as possibilidades possíveis nesta nova proposta.

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