Literatura e opinião em um só lugar

Sombra do Paraíso

Sombra do Paraíso

ago 19, 2016

Confesso que este “Sombra do Paraíso” (Editora Aleph, 2016) era uma obra da qual não sabia absolutamente nada sobre o enredo até folhear suas primeiras páginas. Agora, o que poderia despertar o interesse leitor desta forma, ainda mais em alguém com uma pilha de livros ainda para ser lida? Respondo, o nome David S. Goyer. Para quem não sabe, este autor é também conhecido por roteiros que mudaram os paradigmas do cinema – do gênero ligados aos super heróis, especialmente -, por seus trabalhos em películas como “Blade: O Caçador de Vampiros” (1998), e “Batman: O Cavaleiro das Trevas” (2008), considerado por boa parte da crítica o melhor filme do estilo até hoje! Pois bem, sua estréia em literatura certamente atrairia uma grande gama de curiosos (eu dentre eles) que fez desta obra um rápido sucesso no mercado americano. Vale destacar que a parceria com Michael Cassoutt, também roteirista de televisão e cinema, e autor de livros de ficção científica como Missing Man e Red Moon, deu uma apimentada na curiosidade dos leitores sobre o resultado desta empreitada literária de Goyer. 

Segundo a sinopse oficial “Com um enredo misterioso, envolvente e inquietante, Sombra do Paraíso é o primeiro volume da saga de Keanu, escrita a quatro mãos por dois grandes nome do cinema e da televisão. Uma obra surpreendente fica em detalhes sobre viagens espaciais e indispensável para todos os amantes das ciências e das aventuras no espaço.” Bom, embora apresente com um forte e determinante entusiasmo a obra, o trecho não foge muito da verdade, pelo menos em relação a maior parte do enredo. Pensando sobre os adjetivos usados nele, diria que misterioso e inquietante se destacam bem mais nesse contexto do que envolvente, mas trataremos disso melhor a seguir. Antes disso, se faz necessária uma breve sinopse da trama:  

Além de um bom enredo uma edição que chama a atenção na livraria...

Além de um bom enredo uma edição que chama a atenção na livraria…

No ano de 2016, cientistas descobrem um astro de natureza desconhecida se aproximando da Terra. Batizado de Keanu, ele logo se torna o destinado de uma corrida espacial em pleno século 21. A NASA e a coalizão Rússia-Índia-Brasil passam a concorrer entre si, em uma missão de descobrimento científico temperada com intrigas políticas. Em meio a conflitos pessoais e familiares, o comandante norte americano Zack Stewart e sua tripulação enfrentam uma perturbação na já complicada rotina do espaço. Keanu é muito mais do que aparenta, e logo os cosmonautas da Destiny-7 e da Bhrama veem sua importante missão se transformar em uma aventura perigosa, sem precedentes na história da humanidade. 

Como evidencia a sinopse acima, o centro do conflito está na exploração da ameaça a Terra, disputada por duas potências mundiais. Todavia, o tempero deste aspecto do texto se dá através dos conflitos familiares e sociais dos tripulantes das duas naves entre si, e com pessoas que permaneceram no planeta. Aliado a isso, temos os mistérios relacionados ao cenário apresentado, Keanu, que inquietam o leitor deste o primeiro contato dos astronautas com aquele ambiente, e que vão crescendo de maneira intrigante quanto mais se intensificam, chegando ao ponto de se chocaram ambos os viesses expostos acima. Goyer e Cassoutt souberam, em primeiro lugar, criar uma atmosfera bastante verossímil em relação a rotina da exploração espacial. Trazendo para dentro do conflito os problemas e costumes tão próprios dessa atividade, eles convencem o leitor de que a viagem ao objeto constituí um perigo presente, real, e iminente, aumentando muito a tensão em torno de cada passo dado pelos personagens que estão em Keanu, e por aqueles que os auxiliam da Terra.

Dois nomes de peso no cinema podem fazer um livro que qualidade?! Leia e descubra...

Dois nomes de peso no cinema podem fazer um livro que qualidade?! Leia e descubra…

Falando isso, o enredo se divide de maneira propícia entre os exploradores em Keanu e o suporte a missão na NASA. E mais, temos a visão de diversos personagens expostas na narração, em terceira pessoa, potencializando o dinamismo do texto, e ampliando a problemática ali construída. Desta forma, os conflitos e angústias dos vários tipos trabalhados no texto se entrelaçam ao mesmo tempo individualizando e ampliando o tom de inquietude construída pelos autores desde as primeiras páginas. Embora o centro da trama esteja sobre a figura do astronauta Zack Stewart e de sua família, os demais personagens vão compondo um todo bem interessante sobre as questões debatidas pela narrativa. Em complemento a isso, temos um cenário totalmente estranho, surpreendente e que revela seu verdadeiro potencial somente nas últimas páginas do romance.

Tanto em literatura quanto no cinema – onde atuam com grande competência dos dois autores -, existem inúmeros trabalhados relacionados a exploração espacial e perigo iminente ao planeta Terra. No entanto, finalizada a leitura da obra considero “Sombra do Paraíso” uma contribuição bastante pertinente ao tema, capaz de suscitar debates incomuns no estilo. Tendo como destaque a verossimilhança dos termos e ações dos programas espaciais ali descritos, Goyer e Cassutt mesclaram bem conflitos pessoais com um ambiente estranho e misterioso, trabalhando os dramas humanos justamente quando confrontados com um elemento alienígena. Se posso levantar um defeito do livro, certamente ele é direcionado a uma desnecessária extensão da obra em termos de páginas. Em determinado momento, para ser mais preciso no meio do enredo, há uma estagnação dos problemas e a trama parece parar, circulando dentro dos mesmos assuntos sem avançar da maneira significativa. Em minha modesta opinião, o enredo teria ganhado ainda mais ritmo se fosse bem menor e com um andamento mais cadenciado. 

Um livro que rendeu uma série de elogios de nomes de peso da literatura e do cinema

Um livro que rendeu uma série de elogios de nomes de peso da literatura e do cinema

Todavia, o livro é muito inquietante, especialmente, a medida que os astronautas desvendam os segredos de Keanu. Por isso, não tenha medo de surpresas ao avançar na leitura dele. Em suma, é uma obra bem gostosa de ler, diferente do habitual e que tem um potencial bem grande para ganhar uma versão cinematográfica. Se não foi essa a intenção inicial dos autores, ele levaram muita da “pegada” como roteiristas para o desenvolvimento literário da trama. Pra mim, foi algo inesperado e agradável, embora não representa o ápice do estilo em literatura. No entanto, nem todo livro precisa ser um potencial clássico para ser bom, não é?

Comente

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *