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Rio: Zona de Guerra

Rio: Zona de  Guerra

jul 5, 2017

Curioso como algumas vezes a competência, tanta na escrita, quanto na descrição e composição de certo cenários, podem renovar e surpreender mesmo leitores já experimentados no terreno de determinados estilos consagrados e amplamente consumidos pelo público  leitor. Enalteço isso, pois foi justamente meu pensamento após finalizar esse Rio: Zona de Guerra (2014), do autor  carioca Leo  Lopes, e publicado pela Avec Editora. Em cerne, a obra é futurista, resguardando fortes traços do  estilo cyberpunk  em diversos momentos,  todavia, a verdadeira natureza – e charme -, do livro está em sua estrutura de romance policial, com pitadas providenciais de noir em sua elaboração de enredo, personagens, e locais.

Conforme  enaltece sinopse da editora  “em  um futuro próximo, as desigualdades sociais e econômicas chegaram a níveis tão alarmantes que  o  Estado  não tem condições de manter a ordem e garantir a  segurança pública. Todo o poder é concentrado nas mãos de  megacorporações multinacionais que criam e impõem as leis por meio de suas milícias particulares, chamadas Polícias Corporativas.” Pois é, o âmbito social e econômico é fundamental no livro. A separação entre ricos (ou corporativos) e pobres demarca o viés principal da obra.

Ainda sobre o cenário do livro, ele revela que “no  Rio  de Janeiro, a  Fronteira, uma muralha intransponível que cerca a  Barra da Tijuca e o  Recreio dos  Bandeirantes, protege o interesse  das megacorporações,  relegando  os habitantes dos demais bairros a uma vida sem lei, em um  território  dominado  pelas gangues. Tudo  pode  acontecer quando o assassinato de uma prostituta no edifício de uma megacorporação leva um detetive particular a voltar para a Barra da Tijuca, após anos de exílio no que todos se acostumaram a chamar de Zona de Guerra.”

Cyberpunk e Romance Policial com pitadas de Noir nesse livro fantástico da Avec

Cyberpunk e Romance Policial com pitadas de Noir nesse livro fantástico da Avec

Nesse sentido, o aspecto cyberpunk do cenário se mescla em uma sintonia perfeita com o romance policial retratado do enredo, e conflito, e na nuance noir de seus  personagens, especialmente, na figura marcante e emblemática do detetive  Carlos  Freitas, protagonista da história. Aliás, tudo  na figura do gordo, desleixado, porém perspicaz e letal, ex-policial corporativo, lembra os icônicos investigadores  dos anos 20, tão comuns a literatura americana da época, e posterior. O  carisma do personagem, seus novos e velhos romances, além do jeito despojado e idealista, ganham imediatamente o  leitor, e nos instiga acompanhar com afinco as aventuras daquele destemido tipo em sua tentativa inglória de enfrentar as megacorporações da Fronteira.

Assim, por meio das  ações do detetive Freitas vamos acompanhando o desenrolar da trama – em terceira pessoa  -, iniciada pelo misterioso assassinato de uma  prostituta  em um dos prédios do centro da zona protegida pelas corporações. A dicotomia entre a vida,  estrutura, e  tecnologia entre a  Zona de Guerra e a Fronteira, vista pelos olhos do protagonista, revelam em profundidade como aquela separação social  é  prejudicial, mesmo ressaltando  com mais evidencia certas exclusões presentes já  em nossa  sociedade contemporânea. A forte presença da violência nas regiões mais probres, em sintonia com a hipocrisia das zonas ricas, demarcam  um sentimento social bem estabelecido desde sempre no Brasil, e no mundo, dando credibilidade  ao  cenário  desenvolvido por  Leo  Lopes, mesmo  que adornado por gêneros literários não apegados a verossimilhança em sua esfera mais superficial.

Um cenário nacional futurista mas com problemáticas bem contemporâneas

Um cenário nacional futurista mas com problemáticas bem atuais

Ainda sobre o enredo  e ritmo, a escrida rápida e direta do autor impõe uma velocidade  interessante a trama, apimentada pela   relação conflitante do detetive  Freitas  com Renata (sua ex-amante, advogada de corporativos corruptos dentro da Fronteira) e Vivian (a belíssima e sensual prostituta que o  contrata para investigar o assassinato de sua amiga). A mudança de perspectiva de Renata, antes contrária ao regime implementado pelas megacorporações, aliado ao interesse amoroso destinado a Vivian, que começa a entender a respulsa  sentida por Freitas  em relação à aquela sociedade resguardada por imensas muralhas, faz o drama do protagonista tornar-se mais profunda, e  convida o leitor a uma reflexão sincera sobre certos aspectos de nosso próprio meio social.

Claro que um livro com as premissas acima reveladas, não poderia deixar de lado doses marcantes de ação e mistério.  A medida que a investigação de Freitas se  desenrola, os enigmas impregnados na morte da prostituta vão se  unindo e expondo a  tecnologia do período,  principalmente, por meio de cenas recheadas de suspense e perigo, muito bem descritas por Leo Lopes. Outro ponto marcante do romance diz respeito a  presença dos aliados do  detetive,  dentro e fora da Fronteira. O  simpático fora da lei “Branquinho” (um negro  alto e corpulento) e Rato (o jovem e genial hacker ajudado por Freitas há vários anos), dão um charme todo especial não apenas ao cenário,  mas a saga vivida pelo protagonista.

Um dos primeiros livros da Avec Editora já com uma edição de qualidade

Um dos primeiros livros da Avec Editora já com uma edição de qualidade

Vendo o  livro de seus aspectos mais gerais,  é impossível não notar uma união bem dosada, promovida pelo autor, dos mais diversos  elementos presentes na obra. Seus personagens são tipos, além de carismáticos, coerentes com o cenário desenvolvido com  muita competência por Leo Lopes. Da mesma forma, o enredo encontra nas nuances reveladas um terreno fértil, e interessante, para se desenvolver por meio de uma ótima escrita e ritmo, tornando o processo de leitura algo prazeroso e imersivo em grande conta.

Portanto, não posso deixar de ressaltar minha ótima surpresa ao ler esse “Rio: Zona de Guerra”. Ora, não conhecendo nada do autor antes da leitura desse livro, não pude deixar de apreciar o desenvolvimento da obra como um todo, tendo em mãos um  texto interessante, fluido, e cativante. Devo confessar que seu término me deixou com certa “ressaca literária”, ou melhor, saudade de seus personagens e cenário. Algo que, fora da  competência estilística, revela uma essencial riqueza artística e ligação intrínseca com entre texto e leitor. Algo maravilhoso dentro do prazer da leitura.

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