Literatura e opinião em um só lugar

Resenhar ou não um Livro Ruim?!

Resenhar ou não um Livro Ruim?!

ago 5, 2015

Acredito que todo blogueiro literário já tenha passado por esse questionamento, em algum momento de sua trajetória relacionada a análise literária, principalmente, se este recebe muitos livros em parceria com editoras, ou autores de obras independentes. O caso fica ainda mais grave, se essa análise possui pelo menos um teor superficial de teoria literária. Isso pois, a resenha de um livro deveria levar em consideração uma série de elementos necessários à composição de uma boa obra em letras, e não ser relacionada em especial à aspectos editoriais ou, em suma, de gosto pessoal do leitor. Claro, a afinidade do enredo é fundamental quando se avalia a qualidade de um livro, ocorre que sentenciar sua competência real passa por uma visão bem mais crítica e profunda (pelo menos um pouco) que a simples leitura de fruição, como é conhecido o primeiro contato com a obra literária. Confuso? explico melhor: sabe quando você lê um romance quando adolescente e simplesmente AMA, e quando o visita na idade adulta – já com mais experiência e carga literária -, acha ele uma monumental porcaria? É porque o livro é ruim, você só não tinha competência para avaliar isso na época, e foi motivado apenas pela empatia pessoal pelo enredo.

Em termos de avaliação da literatura como uma arte, podemos sim afirmar que existem livros melhores que outros. Isso ocorre, justamente, porque escrever uma história requer muito mais que vontade, exige do pretendente a autor uma série de conhecimentos que, mesmo distorcidos em seu texto, são necessários para adequar o conjunto final à um todo coerente e artístico, e não ser apenas uma sombra distorcida de uma verdadeira obra literária. Por tudo isso, ao se propor criar um canal de divulgação literária, é importante que se avalie o livro de uma maneira além da simples afeição ao enredo, simplesmente, pois a empatia com o texto não é o único ponto à compor uma obra literária. Entenda, não quero com isso afirmar que todo resenhista – mesmo amador – paute sua avaliação em um esquema acadêmico e mega elaborado, longe disso. Minha pretensão é evocar a relevância para aspectos além do caráter emocional relacionado ao livro, que são importantes e irão evoluir não apenas seu trabalho em análise, mas também seu aproveitamento como leitor. Agora, porque quis evidenciar isso? Ora, como avaliar um livro como bom ou ruim, se quem avalia não tem competência para isso, não é?

Leitora chega à um questionamento no meio do enredo!

Leitora chega à um questionamento no meio do enredo!

A prova maior do que estou falando está em nosso próprio mercado. A lista de livros mais vendidos de diversos veículos no país estão povoados de obras extremamente pobres em termos de composição literária! E antes que se perguntem, eu entendo sim o valor de algumas delas para a propagação da leitura, especialmente, em um quadro tão pessimista quanto o nosso em termos de adotar a leitura como prazer cotidiano. Mas pense? Se o nível fosse maior, mais exigente, estes livros que são responsáveis pela inclusão de milhares de novos leitores no hábito não seriam melhores, pelo menos em termos de enredo, descrição, criação de personagens e escrita? Acredito que sim. Falo isso, pois estes mesmos livros horríveis em termos retóricos e estilísticos recebem avaliações maravilhosas blogs afora, sendo alçados à posição de clássicos contemporâneos, simplesmente pelo não conhecimento de termos rasos de análise, ou mesmo de um cuidado maior ao estabelecer um paralelo com outras obras de maior qualidade.

Agora vamos voltar a questão central, ou seja, resenhar ou não um livro ruim? Como tudo na vida depende muito do critério utilizado em sua linha editorial. Eu, pessoalmente, não gosto de trazer para minhas análises obras com um nível literário muito ralo, apenas para massacrar a péssima qualidade dele em vários aspectos. Prefiro ignorar, e nem divulgar. Existe tanta coisa boa nas livrarias, pra quê perder tempo com coisa ruim? Agora, quando o livro é de parceria – como disse no começo do texto, é enviado pela editora e autor, e deve ser analisado -, ai a situação fica um pouco mais tensa. Mas o próprio blogueiro deve ter cuidado. Na maioria dos casos, é ele que faz a requisição dos livros, por isso, e bacana se informar antes de pedir se aquela obra se encaixa á proposta editorial de seu blog/site/canal. Mas, se o livro chegou, é ruim, e deve ser resenhado, o que fazer?

O tema pode ser atraente, mas se for mau escrito não vale nada.

O tema pode ser atraente, mas se for mau escrito não vale nada.

Bom, ai entra toda a importância do que disse nas primeiras linhas desse artigo: resenha, mas leve em consideração aspectos que vão além de sua empatia, e dê coerência às suas críticas, mesmo que negativas! Dizer que um livro é ruim porque não gostei do enredo é um dos maiores equívocos cometidos por ai. Por exemplo, eu não gosto de romances eróticos, ou açucarados demais. Porém, minha repulsa em termos de gosto não diminui uma suposta competência de alguns autores do estilo em termos de escrita. Por isso, avaliação baseada simplesmente na identificação com a obra é tão prejudicial, deu pra entender?

Repito, não é necessário para quem pretende resenhar livros ser acadêmico ou pedante demais, apenas, que procure sempre evoluir em seu conhecimento sobre a própria leitura e análise, melhorando assim, inclusive, sua opinião empática sobre os livros. Por isso, ao resenhar uma obra de qualidade baixa, tenha certeza de apontar suas falhas sem denegrir o texto ou o autor, concentre sua opinião no critério literário, e busque dosar estes erros com as qualidades do livro, nem que seja apenas à de trazer mais leitores para o hábito ou cultivar um gênero pouco produzido no país. Falando novamente em termos pessoais, eu nunca passei por isso – ainda bem. Recebo poucos livros de apoio, mais de autores independentes que de editoras -, mas até hoje o nível nunca caiu mais que o mediano, sendo em sua maioria bons livros.

10 Comentários

  1. Fabio Mourájh /

    Me identifico heheheh.

  2. Difícil situação! Eu sempre tento vincular o que sei com o que sinto… E muitas vezes ja resenhei livros q n me agradaram em tematica, mas se mostraram coerentes (o minimo), e por isso avaliei para o publico alvo, nao para mim. Mas, quando o livro é ruim de abandonar, ou de desacreditar o leitor, prefiro tb nao resenhar… Adorei ao texto, so pra variar hahaha! Espero que as pessoas entendam que a resenha é mais que a opiniao pessoal, mesmo que tenhamos aqueles que são puro sentimento ahhaha

    • Bem isso mesmo Lígia. Pessoalmente, não critico quem analisa apenas baseado na emoção, mas com isso corre-se um risco grande de criar uma ideia errada sobre o livro, e isso sim é prejudicial ao público que consome aquele conteúdo. O importante é ter-se consciência do papal de divulgar literário, e procurar evoluir nas análises sempre, mas sem ser chato ou acadêmico demais, pra isso existem espaços adequados de divulgação.

      Abraço :)

  3. Questão complicada. Já li muito livro ruim, mas ruim mesmo, e acho que seria difícil escrever sobre ele se fosse obrigada. Pra mim, é melhor falar sobre bons livros, e deixar os ruins para a moda passageira onde estão inseridos. E tem muito hoje em dia.

    Parabéns por mais esse texto, ótimo como sempre :)

  4. Jordana Martins /

    não tá sendo fácil realmente. Quando é um livro que não condiz com o seu pensamento então,fica pior ainda.Já dizia um amigo meu “A vida é muito curta para ler livro ruim”,por isso ele deixa os ruins para que eu leia e resenhe,pois sou daquelas que ainda dá uma chance,mesmo que detone na resenha depois.

    • Sérgio Magalhães /

      Pois é Jordana. Pra mim é sempre importante ser sincero e enaltecer tanto as coisas boas quanto as ruins, por exemplo, se o autor não escreve tão bem, pode ser ressaltada sua falta de habilidade na escrita, mas enaltecida sua boa criatividade na composição da estória, algo desse tipo. Sempre havendo um apego mais à técnica e menos a razão, pelo menos eu faço assim.

      Abraço :)

  5. Sempre a sinceridade! Acho certo resenhar e esclarecer os pontos! O meio editorial é cruel e é preciso que seja dita a verdade, pois tem muita gente ansiosa por lançar livros e poucas interessadas em ler, pesquisar ou burilar o seu trabalho. No mais, parabéns pelo excelente trabalho!

    • Bem isso mesmo amigo Márcio, nem tenho o que acrescentar! Obrigado pelo elogio :)

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