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Rat Queens Vol. 1: Pancadaria & Feitiçaria

Rat Queens Vol. 1: Pancadaria & Feitiçaria

jul 8, 2016

É curioso pensar que a influência da literatura, mais precisamente da fantasia, em relação aos jogos de RPG (ou Jogo de Interpretação de Personagens, em bom português) acabou criando um novo e interessante estilo dentro do próprio gênero. Sendo assim, embora J.R.R. Tolkien – um dos pilares literários fundamentais para a criação de Dungeons & Dragons, o primeiro RPG do mundo – tenha uma obra que resguarde uma curiosa proximidade com Margareth Weiss e R.A. Salvatore, nomes clássicos dos romances baseados em cenários do jogo, existe uma diferença sutil, ou não, que marca não apenas a retórica destas obras, mas também seu ritmo, cenário, estrutura narrativa, personagens, dentre uma série de outras coisas. Embora varie no apego a esse estilo próprio vindo das mesas de jogo, e baseado nos conceitos bem trabalhados pela fantasia em literatura, fato é que hoje temos uma grande variedade de criações advindas deste campo tão fértil e criativo. E não apenas no mundo das letras, cinema, música e, sobretudo, quadrinhos, também beberam desta fonte mágica e ampla em termos de potencial lírico. 

Cito isso, pois nosso título analisado vem diretamente desta lavra de obras influenciadas pela fantasia, mas com todo um viés ligado ao RPG. Falo de Rat Queens, HQ publicada no mercado americano pela Image, e que chega ao Brasil em um belo encadernado pela Jambô Editora. Criadas por Kurtis J. Wiebe, e desenhadas por Roc Upchurch, o grupo de intrépidas e carismáticas aventureiras conquistou o competitivo cenário dos Estados Unidos, angariando um turbilhão de críticas pra lá de positivas, e chega ao Brasil para ocupar um nicho pouco explorado, ou seja, representar a figura feminina na nona arte em tramas ligadas ao RPG. Não pensem que esqueci de Niele e sua excelente Holy Avenger (Jambô Editora), porém, as Ratas Rainhas possuem um viés diferente e mais direto que sua parceira brasileira. 

Heroínas cheias de personalidade mas sem "forçar a barra".

Heroínas cheias de personalidade mas sem “forçar a barra” no Politicamente Correto

De acordo com o próprio autor “Elas são um grupo de aventureiras matadoras, beberronas e mercenárias, e seu negócio é trucidar todas as criaturas dos deuses em troca de grana. Conheça Hannah, a elfa maga rockabilly; Violet, a anã guerreira hipster; Dee, a humana clériga ateia; e Betty, a miúça ladra hippie. Suas aventuras são um épico de estilo moderno, dentro do gênero tradicional de matança violenta de monstros — como se Buffy encontrasse Tank Girl em um mundo de RPG… Mas pra lá de chapada!” 

Segundo o Comic Book Resources, um dos mais conceituados sites americanos relacionados a quadrinhos, o título “É um retrato de personagens femininas realistas. Diferentes tipos de corpos que as mulheres veem ao se olhar no espelho, não aquelas propagandas photoshapadas de revistas de moda. São roupas que parecem feitas de tecidos verdadeiros, não roupas coladas no corpo. A indústria dos quadrinhos está em expansão. Títulos mensais, graphic novels, quadrinhos digitais — as vendas estão aumentando e a agulha está se movendo. E nós, fãs mulheres, não somos uma parte nem um pouco pequena disso. Parece que a Image foi a primeira a reconhecer nossa importância, e está capitalizando com isso ao permitir mais mulheres na mistura; tanto do lado criativo, quanto como protagonistas de suas próprias histórias.” 

Neste primeiro volume, que corresponde as edições 1 a 5 da mensal regular americana, vemos as Rat Queens metidas em uma tremenda confusão, pra variar, graças a seus temperamentos pouco afeitos as normas da cidade onde estão, Paliçada. Enviadas em uma missão, elas acabam descobrindo que alguém está tentando eliminar os grupos de aventureiros locais e, por isso, decidem investigar por contra própria, enquanto resolvem seus dilemas pessoais. A primeira vista, marca a leitura o ritmo e violência da narrativa, algo bem típico de aventuras de RPG que, em grande parte, concentra sua atenção para aventureiros matando monstros! No entanto, a “interpretação” e background  - elementos intrínsecos do jogo -, estão muito bem representados na trama. Interessante notar que as protagonistas estão ali por vontade própria, mesmo contra forças opositoras que as puxam para o cumprimento de deveres familiares e/ou religiosos. Violet rompe com seus deveres para com a família e raça para aventurar-se ao lado das companheiras, enquanto Dee deixou seu passado religioso para trás em busca de uma identidade apenas sua. 

Elas não fogem de uma boa festa, nem briga!

Elas não fogem de uma boa festa, nem briga!

Algo bastante louvável no título foi já apresentar as protagonistas como donas de seu próprio espaço dentro do cenário visto no quadrinho. O tom escolhido pelo autor para apresentar a força e determinação de suas heroínas fugiu, e muito, de obras mais atuantes pelo direito de estar da figura feminina, mas que mergulham por vezes em um tom agressivo, pouco verossímil, ou caricatural demais. Em Rat Queens as personagens são fortes, carismáticas, e não buscam ser, elas são! E mais importante, de uma maneira natural e nada afetada, fugindo de recursos fracos e sem apelo narrativo, como a diminuição de personagens masculinos para privilegiar a presença da mulher como protagonista, por exemplo. Distintas em suas personalidades, e complementares como grupo de aventureiras, elas conquistam o leitor logo de cara, e arrancam boas risadas pela presença de um enredo marcante e cheio de tons próprios.

A maneira como o autor trabalha elementos como amor, vingança, amizade e obrigação, denotam uma experiência criativa muito bem vinda ao contexto geral da história, e dão ainda mais profundidade às personagens pra lá de cativantes nesta obra. Para quem curte RPG, fantasia, aventura, ou simplesmente uma boa história em quadrinhos, Rat Queens é uma excelente pedida. Tendo apenas a grande desvantagem, deixar um incômodo gosto de “quero mais”, ao finalizar o enredo. O ritmo rápido e fluido do quadrinho, torna sua leitura rápida, divertida e instigante. Se o motivo foi atrair leitores logo de cara para o título, conseguiu. Não vejo a hora de ler o próximo volume!

2 Comentários

  1. Gezilane Lima /

    Legal ver mais produções com mulheres como protagonistas! Gostei de ler sobre o tom adotado pelo quadrinho. Nem sou leitora regular mas esse vou querer conhecer.

    • Sim, também acho muito bacana. Achei a série bastante madura e com personagens bem definidos. Estou ansioso para ler os próximos volumes.

      Beijos :)

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