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Quem Matou João Ninguém?

Quem Matou João Ninguém?

jan 26, 2015

Não existe algo mais louvável à um país, povo, ou região, que a produção de manifestações artísticas capazes de revelar de maneira sensível e verdadeira sua real natureza, da face mais bela às mazelas crônicas. Nesse contexto o Brasil não pode se queixar, em termos de cinema, televisão e literatura. Os mais diversos cantos do país possuem obras em diferentes mídias eficientes em termos de revelação de suas qualidades e defeitos, isso levando em consideração uma criação secular nestas artes. Agora lhe pergunto, será que em quadrinhos essa representação é forte e relevante? Existe em nosso mercado, em sua maioria ainda desconhecida da grande massa, obras que mostrem a cara do Brasil de um ângulo sincero? Claro, dentro desse questionamento excluo as produções que apenas reproduzem na nona arte livros de caráter regional, por exemplo. Bom, pra mim, que apenas engatinho no mundo dos quadrinhos, posso afirmar que tenho visto pouquíssimas obras encaixadas nesse quesito, infelizmente. Se elas existem, ainda sofrem de uma divulgação e distribuição carente de investimentos, algo que torço por uma mudança mais rápida possível. Porém, mesmo poucas elas existem, e não perdem em qualidade para qualquer produção calcada em estilos de metrópoles incentivadoras à nosso mercado, como o europeu e o americano. Dentro do cerne tratado, sem dúvida, um dos destaques é o quadrinho hoje resenhado por nós, Quem Matou João Ninguém? (Editora Draco), roteirizado por Zé Wellington e Wagner Nogueira, e desenhado à oito mãos por Alex Lei, Ed Silva, Cloves Rodrigues e Wagner de Souza.

Em termos gerais, existe em Quem Matou João Ninguém? uma representação de influências externas com um tempero muito nacional, exposto por um roteiro com conhecimento de causa, facilitando a identificação do leitor brasileiro, e demonstrando com riqueza de detalhes de cenário e trama uma parte bem interessante de nosso país ao gringo que se aventurar pelas páginas da HQ. O enredo expõe a vida de João, um garoto apaixonado por histórias em quadrinhos que cresce junto aos amigos nas vielas perigosas do Morro de Santa Edvirges, uma favela típica, que poderia estar em qualquer capital do Brasil. A trama começa quando o garoto sabe da morte de um companheiro de infancia, morto por seu envolvimento com coisas perigosas do local. O falecimento do amigo faz João ter contato com os antigos conhecidos, bastante mudados pelo tempo em que se mantiveram afastados um do outro. Porém, as coisas ganham forma quando o protagonista é baleado e morto, e volta dos mortos para combater uma entidade sobrenatural que vem mudando as coisas na já conturbada situação do morro onde vive. Assim, surge o Sujeito-Homem, um herói inusitado, mas adaptado à realidade do cenário onde vive.

Quem Matou João (2)

Arte interna, e da capa, do quadrinho. Personalidade no roteiro e na ilustração para fazer um trabalho competente e preciso em suas referências.

Na verdade o enredo, muito bem construído pelos autores, segue em estrutura não linear, contando a estória pela ótica dos quatro amigos de infância, e de como a trajetória de sua vidas se mistura a do próprio morro onde vivem. João, Roberto, Sandro e Nina se afastam ainda quando crianças, e os caminhos que percorrem formam o clímax do quadrinho, fechando as pontas soltas expostas de maneira bastante interessante no decorrer da trama. E tudo isso se une em torno das ações do Sujeito-Homem, identidade heroica de João, que tem uma segunda chance dada pela própria morte, para combater uma entidade atuante na comunidade. Nesse contexto, são apresentados uma série de aspectos intrínsecos ao cenário adotado no enredo: a briga pelo comando extra-oficial do morro, a atuação de políticos na estrutura marginal ali inserida, a violência sem consequências, a prostituição, a presença de ONG´s estrangeiras que tentam ajudar os moradores, o silêncio os moradores diante da opressão dos bandidos,dentre uma série de outros fatores, expõe um cenário pautado na realidade, tornando crível e rico o enredo do quadrinho. Porém, mesmo diante de um quadro tão violento e desesperançoso, a HQ é, sem suma, uma estória de amizade. Os laços formados em um cenário tão adverso ganham contornos próprios, e se desenrolam mais em direção ao trágico que ao feliz, embora transpareçam tons de lealdade, esperança e amor, em pontos distintos do caminho. Fechando os aspectos que fazem do enredo da obra algo relevante, divertido e surpreendente, temos as reviravoltas constantes ao longo da trama, capazes de manter o ritmo rápido, interessante, e surpreendente até o último quadro da revista.

João, protagonista da HQ, tem que correr, e muito, pra dar conta das dificuldades de ser herói  na favela!

João, protagonista da HQ, tem que correr, e muito, pra dar conta das dificuldades de ser herói na favela!

Se o roteiro chama atenção pela construção competente, a arte não fica para trás em nuances positivas. No começo do projeto, ainda em 2006, Wagner Nogueira (roteiro) iria desenhar todo o quadrinho, porém, com a demora na liberação dos recursos disponibilizados pela Secretaria de Cultura do Ceará, surgiu a proposta de convidar um artistica de cada região do país para compor a Graphic Novel. Feitos os convites, três aceitaram prontamente: o brasiliense Cloves Rodrigues, o cearense Ed Silva, e o paulista Wagner de Souza. Diante de uma dificuldade de conseguir um desenhista do Norte, os já envolvidos acabaram assumindo mais demandas, e contando com apoio de outros artístas como Alex Lei em artes finais, além do próprio Wagner Nogueira, que fez layouts dos quadros. O resultado final, embora dotado de tons levemente diferentes nas artes, são competentes ao todo e não prejudicam em nada a imersão no enredo. Aliás, a vivência da estória ali contada é muito ajudada pela disposição excelente dos quadros ao longo de todo o volume. Isso ajuda demais as surpresas do roteiro, tornando a produção una e coerente em suma. No final do quadrinho, a inclusão de um “making of” da produção, ajuda a compreender o profissionalismo e trabalho que deu para produzir a HQ, o que amplia a valorização do leitor em relação a Graphic.

Zé Wellington agora trabalhando na divulgação da revista, talvez mais  demanda que a própria produção da mesma.

Zé Wellington agora trabalhando na divulgação da revista, talvez mais demanda que a própria produção da mesma.

Desde que adquiri o quadrinho, na Bienal Internacional do Livro do Ceará, em dezembro último, já o li umas três vezes, e com certeza lerei mais algumas vezes ao longo desse ano. Isso, pois a leitura da Graphic possui muitas surpresas na arte, como já evidenciei, e contém um roteiro com muitas camadas, sendo capaz de surpreender à cada nova degustação. Diante disso, fico muito orgulhoso da HQ ter sido produzida em grande parte por cearenses, e por ter conseguido manifestar tão bem uma parte cinza, mas real, de nossa realidade político-social. De verdade, leia Quem Matou João Ninguém? Mesmo para um leitor experiente de quadrinhos, vai ser surpreendente e uma grata aquisição, em qualquer idade ou região do país.

CAPA_2

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4 Comentários

  1. Fernando Couto /

    Agora tenho algo para ler que não sejam as mesmices da Marvel/DC. Vai ter roteiro fraco assim longe. Mas falando sério, parabéns aos envolvidos, parece um ótimo trabalho mesmo, e parabéns por mais um excelente texto! Acompanhando sempre. Abraços

    • Sergio Magalhães /

      Cara, muitas vezes sinto isso em relação a Marvel/DC, ou seja, fico meio de saco cheio e tenho que ler coisas diferentes, em estilo, enredo, arte. Esse quadrinho foi uma ótima saída pra isso, e me abriu a porta nesse 2015 pra muitas coisas bacanas! Espero que possa ler, e curta muito, como eu curti.

      Abraço

  2. Já li esta graphic novel, muito boa mesmo. Só não curtir muito o final.

    • Poxa Emerson, foi uma das coisas que mais curti! Mas respeito sua opinião claro, confesso que fiquei muito “cabreiro” com o último quadro, meio confuso mesmo, mas curti no fim o roteiro todo.

      Abraço

Citações

  1. O.R.L.A: Liberdade Aos Animais - […] – embora ainda seja bem menos recorrente do que deveria. Aqui no Ceará, meu estado, o quadrinho Quem Matou João …
  2. Steampunk Ladies: Vingança à Vapor - […] tem sido muito boa para mim. E foi durante uma dessas “viagens”, que conheci Quem Matou João Ninguém (Editora Draco), com …

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