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Por Que Criamos Mundos Fantásticos?!

Por Que Criamos Mundos Fantásticos?!

set 25, 2017

Vendo de perto os detalhes relacionados a história da literatura universal, é inegável a presença forte, e marcante, da fantasia – e gêneros relacionados a ele -, como um fator preponderante para entender o momento social, cultural e histórico pela qual passa a humanidade na época. Isso, mesmo antes de existir a escrita, como veremos a seguir. Ora, se pensarmos em clássicos da mitologia antiga, como “A Epopéia de Gilgamesh”, “Beowulf”, ou as famigeradas “Ilíada” e “Odisséia”, é impossível separar os aspectos sociológicos daquele tempo as reverberações fantásticas intrínsecas a criação daquele cenário que mescla com maestria verossimilhança a o fantástico. Relevante citar, que essa mistura própria do período é fruto de uma crença legítima, que levava os homens a explicarem muitos dos elementos desconhecidos que o cercavam como manifestações de entidades ou ações sobrenaturais. Somente esse fato, já seria suficiente para afirmar que, assim como contar e ouvir histórias é algo essencial ao ser humano, ligar esses contos ao sobrenatural também o é, mesmo em fases mais “racionais” da humanidade. 

Isso também se justifica pela grande relevância que livros desse gênero ganharam ao longo dos anos, sendo reforçada essa fama na atualidade, época onde o apego ao tecnológico e científico atingiu o seu auge em todos os tempos. Desde a fundamentação da fantasia moderna por Tolkien no começo século XX, ao fenômeno literário instaurado por Harry Potter nos anos finais desse mesmo período, o fantástico sempre orbitou como um dos mais lidos e queridos pelos leitores, e sobreviveu ao ataque de inúmeras acusações que variaram desde a pecha de “literatura menor” ou “apenas para crianças”, até ao escopo de uma suposta produção sem valor agregado evidente, não podendo elevar em nada a interpretação e crítica de quem lê. Uma inverdade sem medida, diga-se de passagem. No entanto, cenários como a Terra-Média, Nárnia, Hogwarts, dentre tantos outros, continuam permeando as lembranças de inúmeros leitores mundo afora, de maneira tão (ou mais) forte do que lembranças reais de viagens a locais verdadeiros. Por isso, cabem os seguintes questionamentos: por que esses cenários fantásticos sobrevivem tanto tempo, e ganham tanta relevância no gosto dos leitores? Por que eles são criados e qual o seu verdadeiro valor e importância para quem os lê?

A Terra-Média até hoje é destino turístico de milhões de leitores ansiosos por aventuras

A Terra-Média até hoje é destino turístico de milhões de leitores ansiosos por aventuras

Antes de tudo é preciso dizer que dentro da fantasia um dos aspectos mais importantes e reveladores (se não o mais) é o cenário. Em suma, os personagens que tanto amamos são apenas reflexos do mundo onde fora criados, e nos quais tiveram suas personalidades moldadas. Assim, o ambiente ligado a fantasia é algo essencial ao estilo. Segundo Turttle em seu ensaio “Escrevendo Fantasia e Ficção Científica” (tradução livre), “talvez o que mais difere a fantasia e a ficção científica de outros gêneros seja a construção de mundos”. Da mesma forma, Michael Moorcock, uma das referências do subgênero capa e espada, afirma que “uma parte intrínseca de uma fantasia épica são as paisagens exóticas”. Portanto, para entender a atração do leitor por esses cenários que, supostamente, se distanciam tanto de nossa realidade, é preciso entender que eles representam o que há de mais valioso nesse tipo de criação literária.

Ainda sobre a criação desses mundos, Todorov afirma que a fantasia estaria situada entre dois outros gêneros, o maravilhoso e o estranho, representando este último uma reação do leitor ao medo, e o primeiro a presença intrínseca do sobrenatural. Ligando as duas reações aos gêneros que permeiam a fantasia, ela poderia ser descrita como algo capaz de suscitar uma reação emocional a presença de elementos fantásticos, do medo a euforia e inspiração. Talvez por isso, ler sobre as façanhas e vitórias de Ulisses (Odisseu) sobre os conflitos proporcionados pelo ambiente e criaturas sobrenaturais que o desafiaram, construa uma imagem mais forte, temor mais legítimo, e apego mais empático a figura do destemido herói grego. O mesmo com Conan da Ciméria. Apesar de sua perícia em combate e astúcia evidente, é sua ação em relação ao mundo fantástico da Era Hiboriana que molda a sua lenda e causa admiração em seus milhões de leitores através dos séculos.

Nas entranhas mais obscuras dos mundos fantásticos se encontram os detalhes mais interessantes

Nas entranhas mais obscuras dos mundos fantásticos se encontram os detalhes mais interessantes

Agora, respondendo aos questionamentos feitos no texto, é possível afirmar que esses mundos fantásticos atraem tantos leitores, de forma tão apaixonada, por sua proximidade com os próprios sentimentos (sobretudo os medos e desejos) e conflitos de quem lê com o mundo real. Essa relação, que fique bem claro, é construída por meio de metáforas e/ou alegorias, mas trabalham sobretudo com emoções tipicamente humanas, e que causam grande empatia no leitor. Tendo, é claro, como fundamental aliado o entretenimento e curiosidade despertada em quem lê pelo uso de nuances pouco conhecidas pelo apreciador do texto. Fazendo uma comparação pertinente, seria como a percepção dos leitores europeus do século XIX, lendo sobre as matas recheadas de perigos do Brasil recém colonizado, ou das savanas exóticas da África com seus monstros e desafios.Óbvio, o ambiente dessas produções difere, sendo uma real e a outra fantástica, mas sua proximidade está no fato de trabalhar bem com o desconhecido, e atrair a empatia do leitor por meio de sentimentos próximos dele em um cenário fantástico. 

Assim, ao ler uma obra ambientada em um cenário de fantasia, o leitor não quer apenas viajar para um local alheio a sua realidade e que lhe traga entretenimento (nem sempre). No fundo, o seu maior desejo é compartilhar de emoções e conflitos que o ajudem a enfrentar os seus próprios, localizados bem na fria e cinzenta realidade do cotidiano onde vive. Ainda conforme Todorov, essa troca de experiências entre o texto e a leitura, no chamado “mundo da metáfora” ou “mundos secundários” (segundo Tolkien), promove uma exploração emocional, e criam conexões íntimas entre o leitor e os mitos ali trabalhados, em especial, pelos temas recorrentes que surgem nesses cenários. Reforçando esse argumento, cita Tolkien que “situados além dos sentidos e experiências vividas, nos relacionamos com nossas próprias sociedades e experiências.”

Ao ler fantasia o leitor busca descobrir os segredos de suas próprias emoções

Ao ler fantasia o leitor busca descobrir os segredos de suas próprias emoções

Ainda segundo Tolkien, a criação desses mundos deve estar relacionada a “consistência da realidade”, onde é importante haver a chamada plausalidade, capaz de criar um laço de crença e ligação sentimental com aquele cenário. Para o autor,  engendrar um mundo de Fantasia não é uma arte menor, ao contrário, é “uma das mais potentes, sem dúvida a forma que se aproxima da mais pura”. Fantasia criada pelo homem aspira à condição de Encantamento, que é uma característica das estórias contadas pelos elfos (…)”. Um outro aspecto é que ele relaciona sua “construção” de mundos a uma “necessidade primitiva”: “criamos à nossa medida e em nosso modo derivativo, porque somos criados: e não apenas criados, mas criados à imagem e semelhança de um Criador”. Ele quer alcançar, como uma forma de escapar ao tédio e às ansiedades da vida, um senso de “resgate”, que é uma noção que eu nunca havia associado ao seu trabalho.

Por isso, é desconstruída a ideia de que essa literatura seria voltada apenas ao entretenimento e ao público infantil, com a conotação de uma produção menor em relação a sua pretensa distância da realidade. Talvez esse argumento seja, e acredito nisso, fruto de um desconhecimento das obras, ou análise mais dedicada e menos preconceituosa dos textos. O cerne da vivência humana sempre esteve entranhado nessas narrativas, embora muito bem adornadas pela metáfora e sobrenatural. Assim, é impossível não pensar que o gosto de inúmeros leitores pelo gênero seja construído apenas pelo tom usado na narrativa, que usa do empático ligado ao fantástico para dialogar com o leitor, criando uma fruição que permite uma viagem sentimental ao mesmo tempo causando uma identificação e critica durante o ato da leitura.

3 Comentários

  1. Olá, boa tarde.
    Primeiramente, parabéns pelo blog.
    Segundo, adorei seu artigo. Criar (e ler!) sobre os mundos fantásticos é sempre uma experiência maravilhosa, seja para o entretenimento ou para a informação (melhor ainda!)
    Enfim, parabéns pelo excelente texto.
    Abraços.

    • Muito obrigado Isabelle, comentários como o seu dão bastante força para o trabalho continuar por aqui. Concordo contigo, esses mundos fantásticos nos tiram da rotina e encantam, ao mesmo tempo, que nos fazem pensar sobre nossos próprios sentimentos e vontades.

      Abraço

  2. Rafael Santos /

    Bom dia!

    Excelente artigo, tão bom que ao término da minha leitura me peguei escapando da realidade deprimente da política do nosso país, pensando em um mundo melhor, pensando em um candidato honesto que teria a confiança e aprovação de todos os brasileiros.. ou seja, uma situação fantástica, enfim, esse artigo foi muito bem fundamentado, ótimas referências. Parabéns pelo trabalho e muito sucesso!

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