Literatura e opinião em um só lugar

Por Menos Leituras e Mais Interpretação!

Por Menos Leituras e Mais Interpretação!

nov 19, 2015

Pode parecer estranho o fato de um site que batalhe tanto por um país mais leitor clamar em um título de artigo justamente por menos leituras! E é mesmo, pelo menos até termos uma versão mais aprofundada deste enunciado tão controverso. Na verdade, já existe nele mesmo uma explicação bastante plausível sobre nosso objetivo aqui, ou seja, não desejamos de maneira alguma que menos pessoas leiam, ou que as leitoras diminuam a quantidade de obras lidas – muito pelo contrário -, nosso pedido é que haja uma maior qualidade destas leituras! Pois é, este fato se explica em muito pelo atual panorama de nosso mercado literário, marcado por uma juventude que lê demasiado, mas pouco concentrada no que a leitura tem de melhor para oferecer, a formação de um pensamento interpretativo e crítico apurado acerca das mensagens transmitidas por meio dos enredos ali descritos. Um pouco confuso? Sem problemas, explico melhor.

Onde pude constatar primeiro que existe uma séria deficiência no sentido da decodificação de textos literários foi em meus anos como professor de Português/Literatura em escolas do setor público e privado de Fortaleza. Trabalhando com obras que exigiam mais ou menos aptidão e técnica para a interpretação das mensagens do entretexto – conhecido como hermenêutica -, percebi que mesmo alunos leitores não conseguiam captar a grande maioria dos aspectos contidos ali que fugiam do enredo mais superficial do enredo, ou seja, a história em si. No ensino, este caráter pouco interpretativo vem sendo reforçado por décadas graças as famosas fichas de leitura, que concentram a análise dos livros apenas em acontecimentos da trama, e em justificativas pessoais que passam distante de uma análise pelo menos básica do texto. Agora pense, se quem lê possui esta dificuldade, imagine quem acha a leitura algo chato e sem propósito? A pouca interpretação destes jovens em provas país afora apenas reflete esta deficiência cognitiva enraizada durante os anos de escola, e na leitura de teor literário dentro e fora dela.

Dois jovens de famílias inimigas se apaixonam e vivem um amor clandestino?! Não entendi...

Dois jovens de famílias inimigas se apaixonam e vivem um amor clandestino?! Não entendi…

Mesmo estando distante da educação há algum tempo, venho percebendo o mesmo problema hoje como criador de conteúdo relacionado a literatura. É recorrente vislumbrar jovens ou adultos que leem de maneira constante com sérios problemas de interpretação de texto, captando apenas as mensagens mais superficiais de artigos e análises, deixando de lado os argumentos mais profundos contidos na ideia central do autor as substituindo por conceitos e ideologias pré-definidas por sua vivência ou ideologia arraigada. Voltando ao aspecto contemporâneo de nosso mercado, citado mais acima, acredito que ele – da maneira como se configura atualmente -, apenas contribui para esta ignorância em termos de uma leitura com mais qualidade e absorção de conteúdo. Por quê? Pense o seguinte, as duas características mais marcantes ligadas ao hábito de ler no momento são relacionadas à dinâmica das obras publicadas (visando uma absorção rápida e sem maiores complicações do texto), e a obrigatoriedade de um ritmo de leitura constante e plural, justificado pela publicação massiva de séries intermináveis de histórias que, já em sua concepção, não apresentam elementos suficientes para mais do que um único livro. Desta forma, criou-se a imagem de uma geração que lê muito, mas sem a formação eficiente de um pensamento interpretativo/crítico, bastante improvável diante da maneira como se lê e das obras lidas por esse público.

Imagine a seguinte situação: se a publicação de livros mais fáceis em termos de leitura e interpretação vendem mais por seu caráter superficial quanto a linguagem e exposição da mensagem intrínseca – mesmo que sejam eles pouco eficientes para a formação de um leitor mais crítico e interpretativo -, será reforçada a ideia de que ler muito é algo positivo, por mais que estas leituras sejam fracas e pouco produtivas para o objetivo de formar pessoas mais esclarecidas na decodificação de informações não apenas literárias, mas em geral. Portanto, ler muito não necessariamente o torna mais inteligente, sagaz ou crítico em relação à vivência social. Isso é muito determinado pelos livros lidos e pela forma de se ler. Na imensa maioria dos casos quem lê permanece no terreno da leitura elementar (segundo teoria de Mortiner J. Adler e Charles Von Doren), ou seja, aquela onde somente 20% do conteúdo do livro é aborsivo, no geral a história mais básica e os personagens. Já os outros 80%, contendo as mensagens, questionamentos e valores do texto são relegados à segundo (ou terceiro) plano, sendo preenchidos por conceitos pré-formulados na mente do leitor, muitas vezes, também absorvidos sem nenhuma análise ou interpretação. Nesse sentido, a leitura de inspeção – segundo estágio da prática de leitura citada acima -, quase sempre é apenas tocada  brevemente, mas nunca entendia em plenitude por este leitor voraz e pouco analítico.

Ler não é o suficiente, é preciso vivenciar os significados repassados pelo autor em suas páginas.

Ler não é o suficiente, é preciso vivenciar os significados repassados pelo autor em suas páginas.

Evidente que não é nossa intenção aqui pintar um quadro deveras negativo em relação ao panorama da leitura contemporânea, longe disso. Ler muito é o primeiro passo para mudar a situação alienada com que o povo trata muitas questões sócio-culturais em um país tão carente em vários sentidos como o Brasil. Porém, fechar os olhos para a formação critica e interpretativa direcionada à esta maior recorrência da leitura, apenas contribui para o estabelecimento de uma população igualmente alienada, porém medíocre graças à uma falsa sensação de conhecimento, construída por cima de conceitos errôneos e repassados à ela sem qualquer análise ou discernimento. Portanto, a falta de interpretação textual apenas reforça a falta de crítica embasada na vida, abstendo da literatura um de seus pontos mais fortes dela, a lapidação de vários aspectos cognitivos do ser humano como a formação do esclarecimento, perspectiva, empatia, interpretação e análise, obviamente.

Também é meu objetivo direcionar ao entretenimento encontrado na leitura um caráter inteiramente depreciativo. Ora, quem nunca buscou um livro apenas para se desligar do mundo enquanto vivenciava os dramas e alegrias dos personagens ali contidos? Agora, é impossível ignorar todos os benefícios que a leitura pode trazer à formação do indivíduo, valorizando apenas seu caráter mais superficial, e isso é algo ruim. Ressalto que existe certa importância em existirem livros mais voltados ao entretenimento, para o incentivo à leitura estas obras ocupam papel necessário tanto na educação quanto na apreciação mais voltada ao prazer. Porém, é preciso saber evoluir nesta maneira de compreender o texto, adentrando cada vez mais na decodificação das mensagens inseridas ali pelo autor. Evoluir nesta forma de entender a literatura é algo não direcionado apenas à arte, mas para vida em si. Assim, ser um bom leitor – na plenitude da palavra -, constitui ser um bom ser humano, embasado e participativo de maneira positiva socialmente.

Porém, ressalto a necessidade da formação do leitor interpretativo como modo de combater outra grave moléstia de nossos dias, a desinformação ou construção de conceitos errados em termos literários. Quando não se conhece nem a história, contexto ou entretexto de um livro, é bem comum que inverdades sejam ditas, e estabelecidas como padrões, muitas vezes embasadas por ideologias extra-texto e sem nenhuma ligação com a criação lírica contida num livro. Talvez, este seja o mais grave dos problemas relacionados à esta ausência de análise de certos leitores, aliada a falsa sensação de sapiência justificada por muitas leituras, mesmo sendo estas dignas de apenas frações bem pequenas na memória, e menores ainda do conhecimento. Por fim, volto apenas a afirmar o que disse desde o inicio: leia, leia muito. Mas, caso sinta que falta um evolvimento maior com os textos apreciados, leia menos, mas mergulhe mais profundamente nos significados impressos nestas páginas degustadas com maior dedicação.

4 Comentários

  1. Bela reflexão Sérgio. Também tenho notado isso nessa nova geração que lê muito, mas aprende pouco. Como fator positivo temos estes encontros literários que dão certa luz à compreensão das obras, mas que carecem de uma leitura mais aprofundada para melhorar a compreensão acerca delas.

    Beijos.

    • Sérgio Magalhães /

      Olha Laura, sobre essa questão tem um fato bastante curioso. Tanto aqui no site, quanto nos eventos que eu participava a galera mais nova busca muito esse algo mais na leitura, enquanto alguns blogueiros mais leitores (poucos, mas tem), viam essa profundidade a mais na análise como algo negativo, pedante até; mesmo eu sempre fazendo questão de não criar essa imagem de acadêmico. Acho que temos que popularizar esta relevância da análise como algo bacana, tanto quanto ler muito.

      Beijos 🙂

  2. realmente falta uma dedicação maior às leituras (e digo por mim também). Às vezes o prazer de terminar um livro e começar outro logo em seguida nos deixa “sem tempo” para refletir e analisar o que acabou de ser lido.
    eu tenho uma certa impaciência de ficar sem ler e acabo ‘emendando’ um livro no outro. Como consequência eu confundo as histórias e quando vou contar pra alguém “ah.. li no livro tal..” eu nem sei se a história que vou contar é do livro que eu estou pensando, entende?
    Tenho procurado ler com uma análise mais crítica, mas realmente é muito difícil quando não se tem isso desde mais jovem (tenho 22 anos e comecei a ser leitora assídua só depois dos 18)

    • Bacana Layana! Também me tornei um leitor mais assíduo depois dos 18 e, assim como você, a leitura rápida me faz confundir enredos de vez em quando, ou mesmo esquecer quase completamente a historia de um livro mais fraco. Atualmente, tenho dado um intervalo de pelo menos um dia entre as leituras, e procurado pensar mais antes de resenhar aqui pro site. Isso acaba dando mais relevância para o enredo na minha cabeça. Talvez seja uma boa dica 🙂

      Obrigado por dividir sua experiência de leitura conosco 🙂

Comente

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *