Literatura e opinião em um só lugar

Peter Pan

Peter Pan

out 12, 2015

Peter Pan faz parte de um reduzidíssimo cânone literário conhecido de maneira universal, mas pouco lido em sua manifestação primária, no caso a literária. É assim também com Alice no País das Maravilhas (1865) de Lewis Carrol, O Mágico de Oz (1900) de L. Frank Baum, e uma infinidade de outros exemplos, produzidos ao longo dos séculos. Citei as duas obras acima, especialmente, pois existe entre elas e a criação de James Matthew Barrie (1860-1937) uma aproximação intrínseca, em termos de estilo, aceitação do público e crítica, e formação de um novo imaginário para a literatura infantil, até então alimentada basicamente pelos contos de fadas tradicionais, transcritos ou criados pelos Irmãos Grimm, Charles Perrault e Hans Christian Andersen. Sim, segunda metade do século XIX foi uma época de grande fertilidade artística em letras não apenas em outros gêneros, como a fantasia (também redefinida na época) e o romance romântico.

A escrita dedicada à criança ganhou novos e modernos ares, em muito, pela sensibilidade e amor pelos pequenos, despendido principalmente por estes três: Carrol, Baum e Barrie. E não seria à toa esta aproximação tão arraigada, os três livros resguardam uma série de similaridades, responsáveis por torná-las conhecidas, e amadas, até hoje por leitores das mais variadas partes do mundo. Bom, mas hoje nossa análise é sobre Peter Pan – embora muitos dos aspectos tratados abaixo se apliquem uma hora ou outra à escrita dos outros dois -, portanto, desviemos nossa trilha da generalização, e vamos embarcar em uma viagem mais apurada sobre a Terra do Nunca e as diversas peculiaridades que a compõe…

Arte da belíssima edição da Editora Zahar

Arte da belíssima edição da Editora Zahar

Fato é que o enredo já surgiu com uma proximidade íntima à outras manifestações artísticas. Na verdade, a história surgiu primeiro como um pequeno conto escrito para entreter os filhos do casal Llewelyn Davies, amigos de J.M. Barrie e esposa, que eles conheceram durante passeios pelo parque Kensington Gardens – que ganharia espaço no posterior cenário do livro. Intitulado “Os Meninos Náufragos da Ilha do Lago Negro” (1901), trazia em suas modestas, mas encantadoras, linhas vários elementos mais tarde adotados como parte da mágica Terra do Nunca, como a presença de piratas, índios e sereias. No ano seguinte, 1902, o autor viajaria novamente àquele universo, escrevendo “O Pequeno Pássaro Branco”, em que surgiria enfim seu protagonista, Peter Pan. Inspirado nos filhos do casal de amigos (que mais tarde ele viria à tornar-se tutor), ele aprimorou a história e lançou com grande sucesso uma peça teatral ambientada nas aventuras de Pan, e sediada na famosa Terra do Nunca. O sucesso da peça transformou a mitologia no menino que não queria crescer em uma nova paixão entre as crianças da época, que receberam com grande entusiasmo o posterior romance, publicado apenas em 1911. Não tardou para que a natureza empática do enredo singrasse diferentes linguagens, ganhando diversas adaptações teatrais, mais tarde os cinemas, as revistas em quadrinhos e a televisão.

A trama é clássica e, mesmo não tendo lido o original, é de conhecimento comum à qualquer pessoa. Em uma noite fria de Londres, Peter Pan invade o quarto de Wendy e seus irmãos João e Miguel, curioso pelas história que ouve saindo da janela. Porém, ele acaba atacado pela cachorra/babá das crianças e perde sua sombra. Ao tentar emendá-la no corpo, tem a ajuda de Wendy e agradecido, ou não, decide levar ela e os irmãos para conhecer a Terra do Nunca, onde vive na companhia dos garotos perdidos e da fada Sininho, sendo perseguido pelo temível Capitão Gancho e seus odiosos piratas! Quem lê o romance percebe, além das várias similaridades com diversas outras manifestações do enredo em outras mídias, algumas diferenças pequenas, mas que tornam a narração no livro bem mais densa e cativante, e ainda mais fantástica em termos de estranheza e inclusão de um viés sobrenatural. Começando por Peter Pan, aqui, uma ponte clara entre Wendy e o maravilhoso, ou seja, um cenário embasado no elemento fantasioso; assim como o Coelho em Alice. Mas, o menino encerra em si uma liberdade tentadora à crianças, mas cercada por desvantagens por vezes terríveis aos pequenos, como a falta de uma mãe (família) e de memórias longas, sendo ele fruto do efêmero, do agora sem responsabilidades com o passado ou futuro.

A Terra do Nunca, ou não, depende da visão de quem a visita!

A Terra do Nunca, ou não, depende da visão de quem a visita!

Outro ponto de aproximação intrínseco entre o estilo de Barrie, Baum e Carrol, é bem definido pela também autora infantil Flávia Lins e Silva em seu artigo “Uma viagem com Peter Pan pelas páginas, pelo tempo” em que ela discorre sobre a natureza do discurso destes escritores “Quase toda história voltada para os jovens leitores tem um enredo que propõe o esquema conhecido como home-away-home (casa-longe-casa). Como a maioria das histórias infanto-juvenis tem protagonistas crianças, e necessário que eles deixem seu lugar seguro e protegido (em geral a casa) e se afastem dos adultos para que possam viver uma aventura “desprotegida” e algo transformadora. É o que acontece com Wendy em Peter Pan, Alice em Alice no País das Maravilhas e Dorothy em O Mágico de Oz. Esse afastamento acontece para que os personagens possam enfrentar seus problemas sozinhos e voltar transformados”. Aqui é possível entender muito do apelo destes livros junto ao público infantil, pela inclusão de elementos fascinantes aos pequenos, vindos por meio da intertextualidade diretamente dos contos de fadas. Ora, que criança nunca desejou viajar sem as restrições impostas pelos pais, com os amigos, podendo descobrir o mundo se divertindo com outras crianças? Mesmo quis ficar sozinha em casa, podendo fazer o que quiser, na hora desejada? Talvez seja esse um dos anseios mais recorrentes ao público infantil, por isso, sendo deveras adotado em enredos infantis e juvenis na história da literatura.

Agora, de nada adiantaria uma trama bem construída, fascinante por seu viés empático à criança, sem um narrador competente, capaz de entender e fazer-se entendido pelos pequenos leitores/ouvintes. E nisso, Barrie é simplesmente fantástico! A escolha por um narrador que não apenas descreve os acontecimentos, mas sente e opina sobre eles, conversando com a audiência, remontam a mesma figura presente na peça teatral, surgida ocasionalmente em cena para localizar o público quanto ao enredo ali encenado. Sobre este aspecto, também discorre Lins e Silva “Este narrador que conversa aqui com o leitor – é bom deixar claro -, não é o autor. É um narrador-personagem, criado pelo autor para ajudar a contar a história. Trata-se de um narrador que comenta a história dialogando com o leitor, um narrador onisciente e onipresente, que está contando a história como se estivesse dentro dela mas sem ser um dos personagens – um narrador, enfim, que os especialistas chamariam de intradiegético-heterodiegético”. Entendendo-se que “diegese” faz referência em teoria literária ao enredo da história, sendo este narrador, portanto, inserido nele e plural em suas funções narrativas.

Gancho e Pan BEM diferentes dos idealizados por J.M. Barrie em seu livro...

Gancho e Pan BEM diferentes dos idealizados por J.M. Barrie em seu livro…

Em termos pessoais, a leitura de Peter Pan cumpre um papel básico, mas ainda fascinante, em literatura: promover um mergulho ainda mais profundo e encantador em uma história já conhecida por quem lê. A trama desconstrói vários estereótipos atribuídos ao enredo por manifestações posteriores ao livro como, por exemplo, um suposto romance entre Peter e Wendy. A menina demonstra interesse pelo garoto, mas a inocência dele o impede de perceber isso, tendo uma relação mais maternal quanto à companheira de aventuras. Por outro lado, fortalece conceitos trabalhados apenas superficialmente por outras mídias, como a memória (ou falta dela) em Peter, enaltecendo sua falta de apego pelas coisas, e destemor mesmo diante a morte. E mais, temos um vislumbre mais apurado sobre James Gancho, um dos vilões mais temidos da história da literatura. Aliás, as referências intertextuais entre Gancho e personagens de A Ilha do Tesouro (1883) – o maior clássico relacionado à piratas em todos os tempos -, de Robert Louis Stevenson (amigo de J.M. Barrie), ajuda na vivência do leitor quanto àquele mundo apresentado. Em suma, um livro que deve ser lido uma vez na vida, mesmo depois de adulto, pois nunca é tarde demais para se visitar a Terra do Nunca, e seus dias de infância.

2 Comentários

  1. Gezilane Lima /

    Tenho O Mágico de Oz e Alice no País das Maravilhas, só falta esse pra parte infantil da Zahar ficar completa. As edições são belíssimas.

    • Não tenho estes dois, mas já os vi e são lindos demais, assim como todas as edições dos clássicos da editora Zahar. Leia esse também, vai adorar, garanto :)

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