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Pedra no Céu

Pedra no Céu

mar 10, 2017

“Pedra no Céu” (Editora Aleph, 2016) surgiu, inicialmente, como um dos inúmeros contos do incansável Isaac Asimov (1920-1992). Um pouco depois adaptado para o formato de romance, por meio de acréscimos de enredo no texto original, constituiu o primeiro livro nesse âmbito do Bom Doutor. O interessante em relação a obra diz respeito a sua exposição primária daquele que seria o universo mais aclamado do autor dentre sua extensa produção literária, o cenário apresentado na série Fundação, que teria seu primeiro livro publicado somente um ano depois deste avaliado aqui. O romance abordado foi publicado, originalmente, em 1950, e receberia alterações do próprio Asimov em anos posteriores. Como parte de um cânone imenso e de natureza deveras coesa e imaginativa, em termos científicos e textuais, “Pedra no Céu” como estréia em maior proporção da literatura de Asimov, já trabalha em cima de conceitos que seriam recorrentes em suas tramas, tais como: poderes psíquicos, viagem no tempo, conflitos políticos, além dos estudos de física, química e biologia, que adentram de maneira coerentes no enredo da Ficção Cientifica desenvolvida pelo autor. No entanto, os conflitos e riqueza do romance vão além disso. 

“A Terra é um planeta periférico. Milhares de anos no futuro os terráqueos vivem em um mundo ignorado, e todo o Império Galático ridiculariza a ideia de que esse planeta, agora radioativo e quase inabitável, teria sido o berço da humanidade. É para esse tempo que Joseph Schwartz viaja involuntariamente. Sem compreender o idioma da época, o sexagenário se torna um estorvo para os cidadãos desavisados que o encontram, principalmente graças a uma rigorosa lei que condena à morte todos aqueles que completam sessenta anos. Para não serem punidos por abrigar o idoso, seus anfitriões o entregam como cobaia para o controverso cientista Alfred Shekt, que o submete sem seu consentimento a experimentos científicos que vão mudar seu corpo e o destino da Terra.”

Essa imagem da capa faz bem mais sentido após lido o livro inteiro

Essa imagem da capa faz bem mais sentido após lido o livro inteiro

Embora tenha como cenário geral o Império Galático em toda a sua magnitude, o ambiente proeminente do romance é a Terra, tal qual a vislumbramos neste futuro nada promissor. O contexto social, cultural, e político, percebidos pelo protagonista – o idoso alfaiate de Chicago Joseph Schwatz -, ao chegar na época retratada, denominam os conflitos abordados e movimenta as tramas e soluções do enredo dentro de sua própria linha especulativa, algo comum na obra de Asimov, diga-se de passagem. Interessante notar as modificações ocorridas na estrutura do planeta, e como elas afetam a empatia dos estrangeiros, como no caso do arqueólogo Bel Arvardan, e de Schwartz, um alienígena em sua própria Terra, devido a viagem no tempo da qual foi vítima involuntária. Talvez as principais estranhezas em relação a este novo mundo, sejam direcionados ao Sexagenário – a impiedosa lei que condena a morte os seres humanos com mais de sessenta anos -, e as zonas radioativas – que reduziram de maneira drástica a possibilidade de vida no planeta, e contribuíram sobremaneira para o preconceito do resto do Império para com os terráqueos.

Aliás, o tratamento do preconceito no romance leva o leitor a refletir muito sobre esse comportamento odioso. No livro, a maneira como esse sentimento é entranhado na mente dos cidadãos do restante do Império afeta até mesmo aqueles que não desejam cultivar esse sentimento. Um exemplo claro disso aparece na atuação de Bel Arvardan, arqueólogo que chega na Terra com o propósito de provar que o planeta foi o primeiro a ter vida humana na galáxia conhecida. Em diversos momentos, mesmo curioso e nutrindo certa empatia pelos terráqueos, o personagem revela um preconceito entranhado em sua mente desde a infância, demonstrando o poder da sugestão de algo tão negativo, mesmo em pessoas de boa índole. Óbvio que assim como outras questões levantadas no enredo, Asimov usa a problemática como uma metáfora de acontecimentos de nosso próprio mundo, afinal, a diferença entre regiões mais poderosas em termos econômicos, geralmente, apresenta uma forma de tratamento semelhante.

Como sempre uma edição muito bem cuidada pela Aleph em todos os sentidos

Como sempre uma edição muito bem cuidada pela Aleph em todos os sentidos

Interessante citar que o texto é trabalhado de maneira fragmentada, ou seja, o enredo é dividido entre a visão (em terceira pessoa) de diversos personagens. Essa abordagem amplia a percepção do leitor sobre o cenário abordado, e tece o conflito central do enredo, e os secundários, de forma bem mais grave e imediata. Além disso, torna mais plural a abordagem dos temas propostos pelo autor. Sentimentos como traição, ressentimento, medo, angústia, e amor, surgem de maneira arraigada ao enredo, e exploram de forma intensa a mistura causada por reações tão fortes em um ambiente já marcado pela tensão e preconceito. Tanto que a dificuldade dos personagens externos em se adaptarem ao relacionamento com os terráqueos marca grande parte da narrativa, e estabelece uma estrutura linear que culmina num problema de proporções galácticas. 

Porém, existem problemas no livro, especialmente, quanto a estrutura do enredo e delimitação de alguns personagens. Acredito, que pelo acréscimo posterior de texto, algumas partes da trama sejam diferentes em termos de tom e ritmo, em relação a outras partes da mesma obra. Mesmo quem acompanha a leitura sem maiores pretensões que o simples entretenimento, nota algumas atitudes estranhas dos personagens surgem da maneira forçada, inesperada, e sem justificativa prévia. Um dos exemplos mais claros está no romance abrupto de Arvardan com Pola Shekt, algo que surge inesperadamente, e é esquecido em igual proporção. Ainda falando do arqueólogo, suas variações de humor e atitude denotam uma estranheza que dificulta demais o entendimento do personagem em alguns momentos. E isso não se restringe aos tipos apresentados, como já salientamos, o enredo direciona a história para um lado, depois esquecido pela trama, enquanto outros surgem de forma inesperada e ganham ares de fundamentais, mesmo sem uma preparação ou aviso prévio.

Até mesmo quando "viaja" Asimov usa de suas metáforas para nos ensinar algo bom

Até mesmo quando “viaja” Asimov usa de suas metáforas para nos ensinar algo bom

Todavia, não entenda errado a real experiência de leitura desse “Pedra no Céu” em relação aos aspectos tratados nele. Embora não seja o auge da produção de Asimov, principalmente em termos de romance (e nem poderia ser), existem inúmeros conceitos interessantes abordados na obra, e que agradam em cheio quem dá seus primeiros passos na Ficção Científica mais engajada do Bom Doutor. A maneia como ele apresenta os conceitos científicos que abalizam as experiências contidas na trama, também elevam a importância da obra, e qualificam sua leitura tanto aos fãs do autor, quanto aqueles que desejam mergulhar no fascinante universo criado e desenvolvido por ele. Então, um bom conselho direcionado ao livro, é que o leitor seja como Joseph Schwartz, ou seja, deixe-se mergulhar nesse cenário enfrentando seus medos e preconceitos, e encontre um entendimento esclarecedor no fim da jornada.  

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