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Pátria

Pátria

set 30, 2017

Talvez quem folheie esse livro de maneira mais despretensiosa, e conheça a instigante e dramática vida de Drizzt Do’Urden, seu protagonista, não tenha ideia da riqueza dessa obra, nem do significado dela para a história da fantasia, sobretudo, em relação aos livros que tomaram um percurso criativo diverso a cronologia literária, ou seja, que vieram dos cenários de RPG para as páginas da literatura. Sim, “Pátria” e seu autor, o norte-americano R.A. Salvatore, constituem marcos desse subgênero da literatura fantástica, e são considerados clássicos do estilo em diversos países, inclusive no Brasil. Para quem não sabe, o cenário descrito na produção de Salvatore são os Reinos Esquecidos, um dos cenários de campanha mais tradicionais da fantasia medieval relacionada aos jogos de interpretação de personagens, criados pelo genial Ed Greenwood. Assim, torna-se claro que o autor desenvolveu a sua maneira – de maneira pra lá de competente -, uma série de criaturas, locais, e costumes já clássicos nesse universo, porém, sem perder a riqueza e fluidez de sua narrativa, um dos pontos evidentes de qualidade em sua produção literária.

Em suma, a obra trata dos primeiros anos da vida de Drizzit, um elfo negro nascido na cidade subterrânea de Menzoberranzan (lar dos Drows, como é conhecida sua raça), e de como ele vence dos costumes malignos de seu povo para ascender como um dos heróis mais corajosos e honrados dos Reinos Esquecidos, onde viria a se aventurar anos depois. O interessante da obra, mais do que a evolução do personagem enquanto ser dispare em relação aos demais, é a construção social, estrutural, e cultura, dos elfos negros como povo devotado a uma deusa maligna – uma entidade aracnídea conhecida como Lolth -, e que vive em função da conquista de status, poder, e dos favores de sua divindade infame.

Finalmente uma edição definitiva desse clássico da fantasia ligada ao RPG

Finalmente uma edição definitiva desse clássico da fantasia ligada ao RPG

O enredo começa no dia do nascimento do protagonista, o filho mais novo da casa Do’Urden, em um momento que já representa muito bem a essência da sociedade drow para os leitores. Mais acostumados a referências aos elfos e sua grandeza e lealdade, é estranho e surpreendente, de início, perceber como se estrutura uma sociedade maligna, onde a traição e a busca por poder e influência, são vistos como algo normal e aceitável, mesmo dentro da própria família, desde que conquistados com eficiência e descrição. Nos capítulos seguintes, a medida que Drizzit cresce, vemos como é aceito um elfo negro na estrutura de uma casa – que é como se organiza a nobreza na cidade drow -, e, o mais interessante, como sua posição como macho é aceita e tratada dentro de uma unidade social baseada no matriarcado. Pois é, as famílias dos elfos negros tem como figura maior sua matriarca, seguida das sacerdotisas de Lolth (filhas), tendo os filhos como subservientes nesse esquema social.

A medida que cresce, Drizzit apresenta ao leitor, por meio de sua percepção, toda a crueldade e vilania de sua família e povo, muito embora sua grande habilidade em combate consiga compensar os sofrimentos impostos a ele durante sua formação como um guerreiro drow. Tendo honra e princípios mais nobres, algo raríssimo em sua sociedade, ele vence a desconfiança de todos e vai conquistando o seu espaço, mesmo abismado com os hábitos e influências profanas de sua própria gente. Em paralelo ao enredo principal, vemos o drama de Alton Devir, um jovem que teve a família destruída e que pretende se vingar daqueles que tiraram tudo dele, a casa Do’Urden, e, sobretudo, seu jovem e talentoso príncipe, Drizzit. 

Somente o começo de uma jornada que revela os costumes e ambições de uma raça maligna

Somente o começo de uma jornada que revela os costumes e ambições de uma raça maligna

Como já mencionado, um dos grandes méritos da obra diz respeito a competência de R.A. Salvatore em desenvolver um cenário tão diferente e particular em fantasia, por meio de uma escrita fluída e constante, incapaz de cansar o leitor, mantendo sempre sua atenção e curiosidade em alerta. O modo como se desenrola a trama, embora dê pistas sobre como irá se concluir o drama do jovem elfo negro, surpreende e fascina pelo tom utilizado em seu desenvolvimento, e forma como se encaixam a peças apresentadas no inicio da trama pelo autor. Interessante que os capítulos são abertos por notas de um Drizzit já no futuro, opinando de um canto distante de suas aventuras posteriores sobre aquele período específico de sua vida, que será conhecida ali pelo leitor, como se a obra fosse uma biografia de sua vida em seus primeiros anos. 

Outro dos grandes méritos do livro está na maneira fluida e envolvente com que Salvatore desenvolve o seu enredo. Embora dê preferência ao andamento da história de Drizzit, enquanto personagem atormentado pela vilania de seu povo e falta de perspectiva sobre a exposição de seus sentimentos e ações honradas naquele cenário nefasto, o autor mergulha de maneira recorrente em mensagens bastante significativas sobre essa disparidade entre o jovem principe drow e o mundo que o cerca. A relação com os país e demais familiares, sua formação enquanto membro de uma sociedade maligna e egoísta, a submissão a uma deusa infame, são elementos que dão certa profundidade e senso de crítica a narrativa ágil e precisa empregada no livro.

Uma cidade imersa nas trevas mas capaz de despertar a atenção do leitor de maneira perigosa

Uma cidade imersa nas trevas mas capaz de despertar a atenção do leitor de maneira perigosa

Como primeiro livro de uma trilogia, “Pátria” apresenta de uma maneira surpreendente esse drama que pretende ganhar ares ainda mais épicos e perigosos nos próximos volumes. Finalizando com um momento denso e marcante para a vida do protagonista, a obra se encerra deixando para trás um leitor ligado aos sentimentos conflitantes de Drizzit, mas ansioso por acompanhá-lo em suas novas aventuras e descobertas. Não a toa, um livro que vem inserindo no gênero milhares de leitores décadas afora em diversos países, e que pretende fazer o mesmo por aqui. De resto, apenas ansioso pelos próximos, e torcendo para que eles sejam tão, ou mais, instigantes quanto esse.

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