Literatura e opinião em um só lugar

Orgulho e Preconceito

Orgulho e Preconceito

jan 19, 2015

Existem livros que já tem em si arraigado o título de clássico. Claro, que pensando no termo não como algo ultrapassado, incompreensível, ou distante do leitor moderno, pelo contrário. Clássico, a definição em si, remete á uma série de adjetivos e objetivos intrínsecos que, em nada, assemelham-se as grafias citadas acima. Disse isso, pois certamente Orgulho e Preconceito, da autora inglesa Jane Austen, se encaixa em essência entre os grandes clássicos da literatura, comportando em seu enredo as melhores qualidades que poderiam ser direcionadas ao termo em questão. A classificação de uma obra como clássica deve ser coerente a presença nela de uma série de fatores que, juntos, formam um texto memorável, e atemporal, mesmo tendo como um dos pontos destacáveis a boa descrição de sua época. Além disso, um clássico deve, em primeiro lugar, resistir ao desafio do tempo, permanecendo uma obra crível, e capaz de tocar os sentimentos do leitor em qualquer período de tempo a qual seja lida, expressando com sutileza e complexidade os sentimentos universais humanos.

Assim, analisando a criação da jovem Austen, escrita entre os anos de 1796 e 1797, percebemos logo a presença dos diversos fatores que compõe um verdadeiro clássico da literatura universal, lembrando, sem o direcionamento ao incompressível, pelo contrário, mas ao esclarecedor, sincero, humano. Antes de prosseguir em nossa análise, se faz necessária a leitura de um resumo da obra, para que os apontamentos seguintes ganhem contexto, e possam convencê-lo, amigo leitor, a folhear em breve o livro citado.

Na Inglaterra do final do século XVIII, as possibilidades de ascensão social eram limitadas para uma mulher sem dote. Elizabeth Bennet, de vinte anos, uma das cinco filhas de um espirituoso, mas imprudente senhor, no entanto, é um novo tipo de heroína, que não precisará de estereótipos femininos para conquistar o nobre Fitzwilliam Darcy e defender suas posições com perfeita lucidez de uma filósofa liberal da província. Lizzy é uma espécie de Cinderela esclarecida, iluminista, protofeminista. Neste livro, Jane Austen faz também uma crítica à futilidade das mulheres na voz dessa admirável heroína — recompensada, ao final, com uma felicidade que não lhe parecia possível na classe em que nasceu.

Um clássico universal e sentimental de nossa literatura...

Um clássico universal e sentimental de nossa literatura…

A quem, vislumbrando bem superficialmente a obra, logo a classifique como um romance romântico em essência. Embora não esteja inteiramente errado, o termo por si não seria, nem de longe, é suficiente para definir a trama publicada em 1813, e que retrata com sutil ironia a bela Inglaterra rural, e os tipos e comportamentos da sociedade de sua à época. Tendo como plano central o relacionamento entre a jovem Elizabeth “Lizzy” Bennet e Fritzwillian Darcy, um rico e aparentemente esnobe herdeiro, o enredo se constitui desde suas primeiras páginas em uma verdadeira rede de relacionamentos que, em suas desventuras, apresentam uma rica descrição de tipos, dos mais variados comportamentos e emoções, e constitui em linguagem fluida e bela, uma análise social daquele período, com toda a sua futilidade e jogo de interesses.

O que logo chama atenção no enredo, e que sem dúvida é uma das maiores riquezas do texto, é a descrição dos personagens – não somente física, mas comportamental também. As personalidades apresentadas ao longo da narração são tão críveis e verdadeiros, que logo associam ao leitor tipos conhecidos em sua própria vida. Assim, o sarcástico e indulgente Mr. Bennet, e a mesquinha e superficial Mrs. Bennet, pai e mãe da protagonista, são aceitos por sua coerência com tipos do período, e pelo comportamento essencialmente humano que apresentam, em suas qualidades e virtudes. Da mesma forma, a benevolente Jane, a frívola Lydia, o bajulador Mr. Collins, dentre vários outros personagens apresentados, demonstram em suas atitudes comportamentos que encerram em si a complexidade dos sentimentos humanos, sendo construídos de forma esférica, assim fugindo da superficial descrição. Isso, aliado á tantos outros aspectos positivos da obra, tornam a estória aceitável, imersiva, e logo enredam quem lê no período, reconhecendo nele, e em seus personagens, um reflexo de sua própria sociedade atual.

As mulheres marcantes da família Bennet.

As mulheres marcantes da família Bennet.

Claro que os enlaces amorosos são um ponto de grande importância no enredo, descritos com qualidade, em sua diversidade por conta das diferentes personalidades envolvidas. Intitulado inicialmente como Primeiras Impressões, a trama descreve como se desenrola o envolvimento entre Lizzy e Darcy, visto a personalidade forte da jovem, critica e distante do ideal da moça romântica, prendada e sonhadora de sua época, com o rapaz tímido, que passa por sua falta de trato espontâneo em ocasiões sociais, uma errônea imagem de arrogância. Da mesma forma, o romance entre a pura Jane como espirituoso Sr. Bingley, e da irresponsável Lidya como oportunista Wickham, dão aos enlaces amorosos uma complexidade tão diversa e intensa quanto ao temperamento dos envolvidos, se desenrolando ao longo de toda a trama em seus desencontros e superações sentimentais.

Na época o romance, que foi rejeitado inicialmente pelo editor e revisado pela autora – mudando assim de título -, foi publicado com excelente aceitação da crítica, embora demonstrasse uma apurada critica que se distanciava dos romances românticos da época, em especial se percebermos que foi escrito por uma jovem recém-considerada adulta. Como viram a ser recorrentes nas obras posteriores de Jane Austen, Orgulho e Preconceito leva muito em consideração o ambiente, no caso a zona rural da Inglaterra à época, e como por meio das relações sentimentais, se desenvolve o moral e o caráter dos jovens. Outro ponto que pode ser considerado corajoso no enredo é a ineficácia dos pais, em especial das jovens Bennet. Negligentes e/ou indulgentes demais, acabam prejudicando o comportamento das irmãs menores, causando uma quase tragédia na vida de Lidya, que foge para viver amasiada ao oportunista Wickham. Hoje temas comuns, ou mesmo ultrapassados, eram tabus no período, e demonstraram coragem da jovem escritora em trata-los de forma tão honesta e profunda.

Jane Austen, o amor não vivido transportados para as páginas dos livros.

Jane Austen, o amor não vivido transportados para as páginas dos livros.

A linguagem utilizada na narração em terceira pessoa foge, em muito, da falsa ideia de incompreensão que é, algumas vezes, dirigida aos clássicos especialmente nos dias de hoje. Embora não seja uma das primeiras indicações á um leitor iniciante, a construção do enredo demonstra uma fluidez competente, que envolve o leitor de forma sentimental, e enaltece nos diálogos toda a qualidade empregada ali pela autora. A tradução lida para a realização desta resenha, realizada por Roberto Leal Ferreira para a editora Martin Claret – atualizada de acordo com o Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa (1990) -, permaneceu bem fiel ao estilo de Austen, e é especialmente indicada por mim.

Orgulho e Preconceito foi meu primeiro contato com a produção da jovem escritora inglesa, falha literária que tentava corrigir há algum tempo, e que me suscitou uma vontade intrínseca por ler suas outras obras, especialmente Persuasão, considerada outro clássico da literatura universal. Como já mencionado no decorrer do texto, o livro encerra em si as melhores qualidades direcionadas ao termo clássico, e apaixona o leitor logo em suas primeiras páginas, justamente por sua similaridade com o sentimento de quem lê, mesmo estando distantes por décadas e quilômetros, no tempo e espaço. A leitura nesse caso revela em sua profundidade uma auto reflexão sobre si mesmo, e os tipos que o cercam, em suas qualidades e defeitos. É certo que quem aprecia o enredo, não sairá da mesma forma ao finalizar suas páginas, é isso é uma das magias da literatura, e que deve ser vislumbrada em sua competência maior aqui.

6 Comentários

  1. Gezilane Lima /

    O filme é muito lindo, imagino que o livro deva ser mais ainda. Com certeza está na minha fila de leitura para esse ano.

  2. Bela resenha, Orgulho e Preconceito é um livro fabuloso e você, com sua crítica, conseguiu esmiuçar e revelar muito bem a essência deste clássico mundial da literatura. Parabéns!
    Wesley
    http://wesleyescritosebesteiras.blogspot.com.br/

    • Sérgio Magalhães /

      Obrigado Wesley. Confesso que fiquei com certo medo de resenhar o livro, tamanho seu grau de detalhes para análise. Mas acho que ficou algo bacana no fim. Obrigado pelo comentário.

  3. Adorei a análise de clássico, e como voce situou o livro no contexto! Estou, assim como você, com esse buraco na minha lista de leitura, algo que pretendo resolver ainda esse ano. E depois dessa resenha, sem sombra de duvidas, esse livro estará nas prioridades! =D

    • Sérgio Magalhães /

      Legal Ligia, vamos adequando aos poucos que as leituras vão se organizando, rsrs. Abraço e obrigado por comentar por aqui 🙂

Comente

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *