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O Lobo do Mar

O Lobo do Mar

jan 7, 2015

Romance publicado em 1904 por um já consagrado autor americano, Jack London, O Lobo do Mar nasceu sob uma gama de influências tão ricas e enraizadas no estilo proposto, que foi um sucesso imediato de público e crítica, conquistando opiniões favoráveis até mesmo de conhecidos desafetos do escritor, como a do crítico e autor Ambrose Bierce – que possui uma respeitada obra dentro da literatura fantástica. Fruto tardio do romance de aventura consagrado ao longo do século XIX, como A Ilha do Tesouro (1883), de Robert Louis Stevenson – uma claras influências de London, o livro representou bem mais em termos analíticos e líricos que a prosa rápida e empolgante do estilo sobre o qual se embasou. Isso, pois em meio à uma trama repleta de aventura e suspense, o autor soube incutir muito bem seus pensamentos filosóficos, em voga na época, sendo estes bem divididos entre seus personagens principais, e encaixados entre momentos de pausa do enredo profundo e trágico de O Lobo do Mar. Assim, o livro se aproxima mais de uma das bases de influência desta narrativa que é Moby Dick, de Herman Melville, em que aventura e filosofia se mesclam durante as desventuras de um arquétipo poderoso, e capaz de encantar mesmo demonstrando contraditórias ações.

Diante disso, é comum que as convicções de Darwin, Spencer e Nietzsche apareçam nas falas dos personagens, aprofundando o tom da trama, e embasando o enredo em conhecimentos plurais e capazes de conflitar-se intimamente se expostas às intempéries do mundo conhecido e civilizado. Outra influência intrínseca à obra foi a própria experiência de vida de London, que baseou O Lobo do Mar em uma viagem sua à costa do Japão, em 1983 (mesmo ano em que se passa do romance), para caçar focas a bordo do navio Sophie Sutherland. Na verdade a personalidade e impetuosidade do autor se fazem presentes de forma duo entre os dois personagens mais evidenciados da obra, sendo uma divisão brutal, porém precisa, de seus próprios conceitos e reflexões, como  o bem podemos ver no resumo abaixo do cerne do livro:

Sobre o enredo, vislumbramos aqui uma pequena, porém significativa, parte da vida de Humphrey Van Weiden, um mimado cavalheiro americano que vive de rendas do pai, e passou grande parte da vida entre livros, se distanciando assim das desventuras físicas e amorosas. Certa tarde, ao voltar da casa de um amigo, naufraga enquanto volta à sua casa em São Francisco e acaba resgatado pelo veleiro Ghost, indo à costa japonesa caçar focas. Tão logo percebe-se salvo, vê que não é intenção do marcante capitão do navio, Wolf Larsen, deixá-lo no porto mais próximo, mas sim fazê-lo parte integrante de sua tripulação. O comportamento cruel e incisivo do capitão, logo direcionam o delicado protagonistas aos serviços mais pesados da embarcação, testando sua condição física e moral, em diversos momentos, em especial, quando do relacionamento com a tripulação, composta por tipos antagônicos à tudo o que já viu na vida. Porém, o destaque maior se dá pelo relacionamento conturbado entre o cavalheiro e o capitão, letrado de forma autodidata e portador de ideias profundas e sinceras sobre a teoria de Darwin, em que o forte deve subjugar o fraco, sempre. Assim, os dias no mar se dão entre provações físicas, sociais e filosóficas, e marca o conflito de conceitos relacionados à noção de civilidade, religião, ética e moral.

Edição de luxo que li desse eterno clássico da literatura universal

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Como já expomos no resumo da obra, de forma bastante superficial, a tônica do romance se dá pelo conflito entre Larsen e Van Weyden. Como bem cita o crítico Joca Reiners Terron, em introdução à versão publicada no Brasil pela editora Zahar “ A estranha ordem imposta à tripulação pelo cruel capitão Wolf Larsen, ganha ares de filosofia e conhecimento de mundo. No peculiar embate entre os dois homens – entre a concepção de mundo primitiva do capitão e a civilidade e moralismo de seu refém -, Jack London ultrapassa o romance de aventura, fazendo de O Lobo do Mar uma reflexão sobre o bem e o mal, sobre os determinismos darwinianos da vida e a condição humana”. Difícil fazer uma análise que exponha de maneira mais simples, e antagonicamente profunda, que a feita pelo citado crítico. A obra trata de um conflito físico, ideológico e moral, e isso faz dela um clássico instantâneo não só da literatura norte-americana, mas universal.

Narrado em primeira pessoa, a trama densa é exposta ao curioso leitor por meio dos olhos e percepções de Humphrey Van Weyden, ou Hump como fica conhecido no veleiro – uma espécie de personalidade nova, e diferente, daquela vista no começo da narrativa. A transformação do civilizado protagonista diante da semi-barbárie vivenciada nas relação à bordo do Ghost vai incutindo no leitor todos os aspectos sombrios e melancólicos daquele micro-ambiente, regido por uma estrutura própria e impiedosa àqueles não adaptados à ela. Wolf Larsen, um dos antagonistas mais marcantes da literatura clássica, serve de professor e algoz de Van Weyden, e aos leitores semelhantes à ele ao longo dos séculos, que distantes do trabalho duro pela sobrevivência, tem grande dificuldade em aceitar uma realidade a qual não entendem. Talvez seja esta relação tão próxima entre realidade e ficção que façam de O Lobo do Mar, desde sua publicação, um enorme sucesso. Mas, como dissemos bem no inicio dessa análise, os fatores que fazem do livro algo marcante e imortal são muitos, sendo a escrita envolvente, o trato crítico das questões humanas, e a distinção clara entre aventura e filosofia, as principais.

A bordo do veleiro Gost, os tripulantes vão descobrir que algumas coisas podem ainda mais perigosas que o mar bravio durante a tempestade!

Minha experiência pessoal em relação a leitura de O Lobo do Mar foi, no minimo, surpreendente em termos positivos. Primeiro, pois foi minha leitura inicial desse autor que conhecia à tempos, mas que por ser um leitor deveras tardio, somente agora pude contemplar em uma de suas obras mais marcantes. A saga antagônica entre Van Weyden e Wolf Larsen deixou em mim algo intrínseco pelo menos pra mim -, às obras de cunho clássico, digo uma saudade do enredo capaz de me acompanhar de maneira forte e pessoal por vários dias após terminada a leitura. Na verdade este livro faz parte de uma resolução de ano novo, que me direcionou esse ano aos clássicos, e não poderia ter escolhido uma “porta de entrada” mais receptiva e capaz de fundamentar a decisão previamente tomada. O Lobo do Mar, desde suas primeiras páginas, me conquistou de modo tal que cheguei à dormir tarde por dois dias seguidos, tão envolvido estava com o destino trágico de Humphrey. São 364 páginas (na edição que li, da Zahar) de pura imersão e envolvimento emocional com os sentimentos dos arquétipos ali apresentados. Por isso, não poderia deixar de recomendar, e muito, certamente.

6 Comentários

  1. Essa coleção da Zahar, é demais!
    muita coisa boa mesmo, e o acabamento é sempre show.
    Tenho alguns, mas espero ler os demais em breve =D.

    • Sérgio Magalhães /

      Nem me fala, “morreu” uma boa grana minha nestas edições durante a Bienal do Ceará, mas são lindas demais, impossível resistir se você tem amor pelos livros. Ansioso pela leitura dos próximos, só coisa boa :)

  2. Fernando Couto /

    Quando você disse que ia falar mais de clássicos não imaginei que ia começar logo com um ótimo como esse, poxa, muito feliz a escolha. Adoro London, Kerouac, Melville, autores que tratam de jornadas e aprendizado do ser humano. Ansioso pelos próximos, mas indico os citados, excelentes todos.

  3. Ariel Lannister /

    Poxa, nunca dei importância aos livros desse autor, conhecia mais o Caninos Brancos. Fiquei interessado em ler primeira oportunidade vou comprar e conhecer a estória, excelente.

    Parabéns

    • Sérgio Magalhães /

      Quero muito ler Caninos Brancos, a qualidade certamente é evidente, tomando por exemplo esse. Mas leia mesmo o Lobo do Mar, uma grande e inesquecível obra.

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