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O Homem Invisível

O Homem Invisível

set 17, 2015

Enredos ligados a invisibilidade são antigos em literatura. Tratados por diversos autores, em diferentes épocas, permearam a imaginação de leitores mundo afora por sua natureza criativa e mística. No Brasil, O Horla (1887) de Guy de Maupassant, talvez seja um dos exemplos mais acessíveis à quem deseja conhecer melhor o viés clássico relacionado ao tema. No entanto, afora esta recorrência de tratamento, o tom com que a invisibilidade sempre foi abordada teve relação direta com o fantástico. Sua presença era ocasionada em sua maioria pela intervenção de algum fator mágico, sobrenatural. Isso mudaria, conceitualmente, em 1897 com a publicação de O Homem Invisível, do recém famoso – na época – autor H.G. Wells, conhecido pelo sucesso de seu livro de estréia, A Máquina do Tempo (1895). Pela primeira vez em literatura, o estado invisível era associado à ciência, embora dentro de uma coerência superficial, mas muito convincente ao leitor comum do período. Porém, antes de adentrar mais na análise dos aspectos que fazem deste um clássico do gênero ficção científica, vamos à sua sinopse…

“Em uma noite gelada de fevereiro, surge numa cidade isolada a Inglaterra um desconhecido à procura de abrigo. Com o rosto coberto de bandagens, enluvado e de óculos escuros, esse homem misterioso, de pouca conversa, parece estar se recuperando de um acidente que o desfigurou. Pede à dona da estalagem um quarto reservado, onde possa passar os dias sem ser incomodado. Mas a verdade está muito além da compreensão dos habitantes do vilarejo. Esse homem, ríspido, que desde o início se dispõe com os demais, criou um método para se tornar invisível, e caiu em sua própria armadilha: sem um antídoto não pode voltar ao estado original. Acossado pelos moradores, incapaz de lidar com o poder que a invisibilidade lhe confere, ele caminha gradualmente a um estado de violência e intolerância.”

Griffin, O Homem Invisivel, e capa da edição do livro pela editora Alfaguara.

Griffin, O Homem Invisivel, e capa da edição do livro pela editora Alfaguara.

Em termos de estilo a obra segue as premissas mais intrínsecas da criação literária do autor inglês, que fizeram dele um sucesso imediato entre os leitores e, posteriormente, relegou à seu cânone um caráter universal em literatura; a originalidade de ideia e abordagem, narrativa rápida e cheia de ação, e eventuais digressões teóricas que justificam o fantástico, de maneira aceitável à quem lê, formam a base estilística da obra mais representativa de H.G. Wells. A própria estrutura da trama já estimula a curiosidade arraigada do leitor. Ora, o protagonista chega à pequena cidade de Iping – interior da Inglaterra -, cercado de mistérios acerca de sua estranha condição; a curiosidade despertada nos moradores do pequeno vilarejo, são as mesmas do leitor acerca daquele homem tão peculiar e misterioso. E mais, narrado em terceira pessoa (narrador observador), o autor se vale de uma mudança de perspectiva sobre a trama para ampliar o horizonte da história ali contada, desta forma, mudando a visão do enredo dos olhos do protagonista para os de coadjuvantes que surgem ao longo da narrativa. E mais, no decorrer da leitura a quebra do tempo cronológico amplia a visão de quem lê, e aprofunda os conceitos que formam a base da história. Um bom exemplo disso, é o salto temporal dado pela trama para explicar como se deu o acidente causador da moléstia do personagem principal; denunciando nesse caso, especialmente, a natural habilidade do escritor em contar tramas criativas e fluidas em sua linguagem aplicada, como podemos constatar abaixo:

A dor tinha passado. Achei que ia morrer e não liguei para nada. Nunca esquecerei aquele amanhecer, e o horror de ver que minhas mãos pareciam feitas de um gás nebuloso, e de ver que iam se tornando mais claras e mais translúcidas com o passar das horas, até que fui capaz de enxergar através delas o meu quarto e desordem, mesmo fechando minhas pálpebras. Meus membros se tornaram vítreos, os ossos e as artérias se tornaram indistintos e desapareceram, e a última coisa a sumir foram os nervos esbranquiçados. Rangi os dentes e suportei aquilo até o fim, até que a única coisa visível em meu corpo fossem as pontas das unhas, pálidas e brancas, e a mancha marrom que um ácido deixara em meus dedos. 

Vale salientar que o afastamento do sobrenatural na obra se justifica pela elaboração de uma teoria aceitável acerca da invisibilidade do jovem cientista, que teria usado experimentos ligados à refração e reflexão óptica para conquistar seu intento. Óbvio, a teoria não é profunda, muito menos aceitável à quem entende um pouco mais sobre os conceitos ali vislumbrados, porém, sua inclusão no enredo convence perfeitamente o leitor comum, imergindo ainda mais quem lê

O personagem seria utilizado outras vezes, décadas depois, por vários autores, como Alan Moore, por exemplo.

O personagem seria utilizado outras vezes por Alan Moore e outros autores.

Evidente que existem pontos fracos no texto de Wells, afinal, seu ritmo frenético de escrita e publicação não permitia um trato mais adequado à linguagem e criação do enredo. A superficialidade de alguns enredos, e erros de continuidade são apontados como aspectos mais falhos em sua criação literária, fato reconhecido por ele mesmo. Porém, estas incongruências eram aceitas por ele, enquanto autor, em detrimento de uma maior inventividade e exposição de suas ideias. É como se a criação fosse mais rápida que o desenvolvimento, a mão mais ativa que o cérebro. Todavia, o trato de temas pouco usuais na época, adornam de qualidade estas falhas presentes, aproximando o leitor do texto, principalmente, pela representação precisa em suas ambientações de uma classe média inglesa tão conhecida por ele, e que formava a imensa maioria de seu público leitor.

Constata-se na obra um trato apurado de sentimentos relacionados ao horror, suspense, ambição, além do uso desmedido da ciência, causando mais danos que vantagens ao ser humano. Ao longo de toda a leitura, existe uma angústia intrínseca no leitor pela instabilidade emocional do protagonista, que se encontra perdido em sua jornada, e cada vez mais violento e propenso à violência. A vontade do protagonista, Griffin, em obter vantagens com sua condição acaba sendo frustrada pelas consequências de sua própria conquista, transformando-o de um jovem ambicioso em um louco desmedido, sem noção da consequência de seus atos hediondos. E mais, à medida que chega ao fim, o enredo transparece a instabilidade emocional do Homem Invisível, transmitindo ao leitor toda a angústia sentida pelos personagens que convivem com o monstro, decorrente de uma mau sucedida experiência, que se afasta da sua humanidade à cada página.

4 Comentários

  1. Vou logo polemizar:HG Wellsou Julio Verne? HAHA

    Abraço! Ótimo texto!

    • Sérgio Magalhães /

      Rapaz, bem nivelado, hein?! Por mim, difícil por um abaixo do outro em termos de literatura e importância. 🙂

      Valeu 🙂

  2. Gostei da sua resenha e fiquei com muita vontade de ler este livro. Mesmo com os pontos fracos que você apontou, parece valer a leitura.

    • Sérgio Magalhães /

      Vale demais, Ruh. Embora existam sim pontos negativos, eles são tão pequenos frente a qualidade geral do livro, que passam despercebidos.

      Abraço 🙂

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