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O Duelo dos Reis

O Duelo dos Reis

mai 28, 2015

E eis que finalmente chegamos à última resenha desta que é, sem dúvida, minha série de fantasia contemporânea favorita até agora! Estou falando de A Primeira Lei (Arqueiro), trilogia escrita pelo autor inglês Joe Abercrombie, sendo este Duelo de Reis o terceiro e derradeiro título publicado. Para quem não acompanhou nossas resenhas anteriores, de O Poder da Espada e Antes da Forca, vale demais uma lida, antes de acompanhar esse desfecho épico e surpreendente. Porém, se você já leu os livros, ou pelo menos ouviu falar deles, confira a análise a seguir – e as anteriores -, e saiba por que essa história vem marcando presença entre as listas de favoritos de milhares de leitores mundo afora. No entanto, antes de tratar de elementos mais profundos do texto, é importante dar uma pequena sinopse do enredo até aqui. Bom, então vamos à ele…

A União está em guerra. Ao norte, o coronel West e suas tropas recuperaram a fortaleza de Dubrec, mas a batalha pode se arrastar por anos, porque o rei dos nórdicos não irá se render. É hora de Nove Dedos voltar e enfrentar seu pior inimigo. O problema é que, no calor da batalha, nunca se sabe quando o Nove Sangrento surgirá de dentro dele – e estando assim, não escolhe lados, só quer matar! Na Terra do Meio, uma revolução camponesa por direitos igualitários e participação política desestabiliza os governos locais. Caberá a Jezal dan Luthar negociar a paz e, se preciso, combater o próprio povo. Na capital, com o rei doente e sem herdeiros, os membros do Conselho Fechado começam a comprar apoio dos nobres, numa corrida oculta ao trono. Depois de ter escapado por pouco de Dagoska, Sand dan Glokta precisa sobreviver ao jogo político. Para isso, vai usar os recursos em que é mestre, chantagem, ameaça e tortura. Além disso, tropas gurkenses se movem no sul em direção a Adua, dispostas a travar uma guerra santa e levar Bayaz a julgamento. Para salvar o mundo, o Primeiro dos Magos precisa salvar a si mesmo, porém, há riscos enormes quando se mexe com magia. E nada pode ser mais arriscado do que quebrar a Primeira Lei.

Jezal dan Luthar e a capa do livro, seguindo as edições estrangeiras da trilogia!

Jezal dan Luthar e a capa do livro, seguindo as edições estrangeiras da trilogia!

Seguindo o estilo adotado nas obras anteriores, o autor divide sua trama em capítulos que retratam, em terceira pessoa, as ações de diferentes personagens do cenário, centrando mais o foco em Logen Nove Dedos, Jezal dan Luthar, Glokta, Ferro Maljin, Cachorrão e West. Algo bem comum à fluidez da fantasia contemporânea. No entanto, devo dizer logo que, embora a sinopse seja bem empolgante e denuncie um clima de guerra capaz de render cenas empolgantes, o enredo do livro é arrastado demais em sua primeira metade – cerca das trezentas primeiras páginas -, para minha imensa tristeza. Em grande parte, pois a trama política que impera nesta parte inicial é muito lenta, sem grandes reviravoltas, e praticamente elimina o melhor personagem da série: Sand dan Glokta, que brilhou nos dois primeiros livros. Claro, a habilidade de escrita e composição de Abercrombie continua intacta, como fica evidente nos capítulos em que trata do norte, onde Logen e seus companheiros unem forças com West para derrotar de uma vez por todas Bethod, autoproclamado rei dos nórdicos. Todavia, quando a narração se passa em Adua (Capital da Terra do Meio), mais precisamente na luta interna pelo trono real, o enredo enfraquece muito, perdendo em essência a qualidade demonstrada em outros momentos da série, em especial nos livros anteriores. Óbvio, existem pontos de maior imersão, mas em sua maioria as primeiras páginas de O Duelo dos Reis (Arqueiro), passou longe da atração emocional dos dois antecessores.

Que as edições são bonitas ninguém pode negar!

Que as edições são bonitas ninguém pode negar!

Porém, estamos falando da trilogia A Primeira Lei, e de um dos autores mais festejados da atual fantasia. Dessa forma, o último livro de sua mais famosa série não poderia se render tão facilmente ao ostracismo. Assim, em dado momento o enredo ganha força, e marcha forte e confiante da mesma força que as forças de Gurkhul avançando com sua magia sombria sobre a capital Adua. A entrada no enredo do combate secular dos magos do Sul – Khalul e seu discípulo Mamon, contra Bayaz – na segunda parte da obra -, concede à trama um poder épico, e finalmente a história decola com um jorro frenético de sangue e magia! Além disso, os ecos do passado, que voltam à assombrar o velho mago, revelam-se como um ponto culminante na guerra instalada no cenário ali apresentado. Em minha opinião de leitor, é como o ritmo lento das primeiras páginas servisse de elemento estilístico para enaltecer os acontecimentos finais da trama. Quanto aos outros personagens, da mesma forma que nos livros anteriores, eles seguem em suas evoluções coerentes, e revelando seus passados não tão orgulhosos. Por isso, nos aprofundamos no passado de Logen e Jezal, e percebemos certa redenção, ou não, de arquétipos cinzentos do enredo, como Glokta e o próprio Bayaz. E, por fim, temos guerras, o que mais épico para acabar uma trilogia tão incrível quanto esta!

Um excelente romance com uma ótima edição, o que vocês querem mais?!

Um excelente romance com uma ótima edição, o que vocês querem mais?!

A Primeira Lei é constantemente apontada como uma das séries de fantasia mais significativas da fase contemporânea do gênero, e não à toa. Ao longo dos três livros, Joe Abercrombie construiu uma trama complexa, recheada com personagens profundos e interessantes, em um cenário coeso e firme em suas designações. Por fim, acho difícil passar todas as qualidades desta obra, ela exige a leitura e vivência do enredo ali apresentado. Os sentimentos, surpresas e decepções contidas no texto exigem uma imersão pouco confiável em uma descrição superficial. Visto isso, leia os livros e conheça, sem dúvida, um dos pontos altos da fantasia mundial atual.

4 Comentários

  1. Luiz Andrade /

    Li os três livros, e claro gostei muito, só que o final ficou “aberto”, fiquei na esperança de vir uma continuação. Vocês têm alguma informação quanto a isso? Está previsto algum lançamento que dê continuidade?

    • Infelizmente não Luiz, pois adoro a série! Também achei o final aberto mas, em suma, acabou ocorrendo tudo o que o Bayaz queria. Mas, quanto ao personagem supostamente morto no fim, acho que ele sobrevive, pois a cena repete a do primeiro capítulo de O Poder da Espada, e ele sobrevive, então…

      Abraço

  2. Vinícius Magima /

    Luiz, eu também achei que o final ficou “aberto”, mas acredito que seja para instigar a imaginação do leitor, e como o Sérgio disse, a cena repete o que ocorre no primeiro capítulo, e levando em consideração o que é falado no livro, que a história anda em círculos, podemos imaginar que ele continua vivo…
    Mas ai está uma ótima trilogia, gostei demais!

    • Sim Vinícius, e digo mais, quanto mais livros de fantasia eu leio, mais me convenço da qualidade do Abercrombie. Louco pra reler essa trilogia, e ler outras coisas dele.

      Abraço

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