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O Conto do Mundo Perdido

O Conto do Mundo Perdido

dez 5, 2014

Um jovem tenente do exército americano é enviado ao Afeganistão durante a missão de invasão ao país, escolhido como chefe de um regimento, ele sai em uma patrulha de rotina com seus homens quando, de repente, são emboscados de maneira impiedosa pela resistência local. Acuados pelo poderio inimigo, os soldados se separam e morrem sem a menor chance. O jovem e um de seus homens se vê encurralado em uma caverna, enquanto observa a derrota iminente. Alvejado por bombas adversárias, percebe que está preso no local devido a queda das pedras em decorrência do bombardeio. O soldado que o acompanha está muito ferido e morre em instantes. Sem saída pela abertura pelo qual entrou, só resta explorar o lugar e achar uma nova forma de escapar. Poucos passos depois ele descobre uma série de letras misteriosas à sua compreensão, e nem lhe resta tempo para tentar decifrá-las, pois logo é atacado por uma criatura hedionda e extremamente mortal!

É desta forma que começa o enredo de O Conto do Mundo Perdido (Editora Kiron), do escritor carioca Jefferson Andrade. Recebido em mãos do próprio autor, o livro me chamou a atenção logo de primeira pelo ótimo trabalho editorial desenvolvido, da arte da capa à diagramação do texto e qualidade das folhas, tudo recepciona o leitor da melhor maneira possível antes mesmo de iniciada a leitura. Pra mim – e grande parte dos leitores que conheço, ponto positivo logo no começo! Porém, nem só de aparências se faz um livro. Restava com isso descobrir se todo esse apreço à editoração faria jus ao enredo ali contido. Quer saber? Então, vamos lá.

Tudo começa quando o protagonista da trama, Willian Gregory, e transportado de seu mundo para uma realidade alternativa conhecida como Asgard – isso mesmo, o universo mítico dos deuses nórdicos. E a inclusão deste cenário não é à toa, o enredo é baseado em seu cerne principal sobre a rica mitologia nórdica. Incluído inesperadamente nesse novo cenário, o jovem soldado logo percebe ser parte de uma antiga profecia que o indica como aquele que irá livrar aquele mundo da tirania de Gorvak, um mestiço (nascido da união de duas raça diferentes) que dominou pela força o trono daquele universo e pretende expandir sua sede de poder à Terra. Não muito depois, Gregory descobre ser descendente das três raças de Asgard – homens, elfos e anões -, e seria essa incomum mistura de sangue que lhe daria  poder suficiente para derrotar seu futuro inimigo, em um mundo que ainda se recupera do legado de uma guerra entre os deuses, e já se vê na iminência de outro grande confronto capaz de abalar a estrutura vigente nos reinos existentes.

A arte do livro ficou bem bacana, ponto positivo para a edição que vale a pena.

A arte do livro ficou bem bacana, ponto positivo para a edição que vale a pena.

O livro, primeiro da série As Crônicas de Ragnarok, apresente já nas primeiras páginas ao leitor um estilo de escrita bem próximo ao cultivado por autores como Rick Riordan (Percy Jackson e o Ladrão de Raios) e Christopher Paolini (Eragon), que desenvolvem sua fantasia em um estilo de criação mais limpo e direto, sem a complexidade de descrição e narração de obras mais densas do gênero, como O Senhor dos Anéis, por exemplo. No entanto, se a obra de Tolkien não influencia o tom da narrativa, com certeza ele o faz na construção do cenário, bem moldado em proximidade à Terra-Média do autor britânico, levando em consideração também os meandros da confusa mitologia adotada como essência ao livro. Mas, na Asgard de Jefferson Andrade, tudo é muito bem definido e claro, acompanhando o tom leve e divertido da trama ali desenvolvida.

No enredo, o tão temido apocalipse dessa cultura já aconteceu, o Ragnarok como é conhecido, e os deuses abandonaram o mundo às raças que permaneceram vivendo naquelas terras. Como modo de dar ordem ao mundo, eles dividiram o comando entre as três raças, que deveriam se revezar no trono que governa os reinos existentes. Tudo mudou quando esta ordem foi rompida, pela ambição de um rei élfico e a morte do senhor por direito, um anão. A partir do acontecimento, Asgard mergulhou em um período de grande apreensão e dúvida, sobre o futuro de sua paz velada. Ainda falando sobre a criação do cenário, existem os clássicos reinos élficos, anões e humanos, e sua conturbada relação em decorrência da história, assim como locais sagrados e monstros ameaçadores, tudo bem idealizado sobre os preceitos da fantasia clássica, mas bem executado no fim.

Jefferson Andrade em tarde de autógrafos em Fortaleza.

Jefferson Andrade em tarde de autógrafos em Fortaleza.

Sobre a estrutura aplicada ao enredo, o autor optou pela apresentação de seu cenário pela identificação do leitor com o protagonista da série, Gregory, que incluído de maneira inesperada naquele lugar, descobre junto a quem lê todos os meandros ali descritos.Visto o tom aplicado ao texto, achei a decisão acertada por parte do autor, em especial, se aplicada a narração em terceira pessoa percebida na trama. Desta forma, a vivencia do leitor em relação ao mundo e arquétipos surgidos ao passar das linhas faz-se de uma maneira mais profunda e crível, envolvendo até o mais relapso dos leitores nos desafios e aventuras enfrentados pelo personagem. Outro ponto positivo, embora bastante usado como recurso estilístico de envolvimento do leitor com a trama, foi a divisão do enredo entre a saga de Gregory, e a jornada de Gorvak em busca da realização de seus objetivos. A quebra de ritmo entre as narrações ajuda no envolvimento de quem lê, além de ampliar a percepção do cenário descrito.

Curioso perceber como as competências do autor se aplicam ao livro em variados momentos. Por exemplo, Jefferson Andrade é militar, e isso transparece bem nas descrições de batalhas e organização dos exércitos durante os conflitos ocorridos. Perceptível que os aspectos relativos no livro só poderiam ter sido evidenciados de maneira tão detalhada, ao mesmo tempo fluida com o texto, por um conhecedor do assunto. Inclusive, me lembrou desde o começo Glen Cook, também militar e autor da série A Companhia Negra. Por outro lado sua formação em História embasa todo o conhecimento aplicado sobre mitologia nórdica, inserida na obra em tons bem suaves, mas críveis pela composição geral do cenário. Assim, fica clara a precisão do autor ao orbitar pelos meandros destas inclusões, pelo conhecimento prévio do escritor em relação aos temas que, óbvio, necessitariam de um esforço e talento lírico para transparecer como o fazem no livro. Por fim, não posso finalizar a análise do livro sem resumir sua essência como muito divertida e instigante ao mesmo tempo. O enredo empurra a história pra frente à todo o momento e faz o leitor querer saber mais sobre o destino de Gregory, e daquele mundo fantástico.

6 Comentários

  1. Mayner Amorim /

    Adorei a resenha, define muito bem autor, obra e estilo. As considerações finais foram exatamente as mesmas a que cheguei após finalizar a leitura do livro. Muiyo bom mesmo, indico.

    • Certamente Mayner, esse é um dos livros que deve ser mais conhecido pelo público em geral, por sua qualidade. Uma dica valiosa para leitores fãs do gênero ou não, para o leitor em geral.

  2. Brena Késia /

    Estou lendo o livro, e simplesmente está me surpreendendo a cada página. A história é a fantástica, assim como a descrição das cenas e do mundo paralelo, onde a trama se passa. Super indico a leitura. !! *—*

    • Também fiquei muito surpreso ao ler o livro, o enredo dele é bem parecido à o de um filme, bem dinâmico, rápido, mas deixa você ligado direto no que vem pela frente!

      Abraço e obrigado pelo comentário Brena :)

  3. Eduardo Ribeiro /

    Já terminei de ler o livro e conheço o autor. O cara é muito simpático além de ser um ótimo escritor. Simplesmente é um livro fantástico, principalmente pra quem gosta das obras de Tolkien. Esse livro pode até servir de base para uma mesa de RPG, mas esse não é o foco do livro. A história e a conectividade que o autor trouxe entre um mundo fictício (Asgard) e o nosso mundo (Midgard) é impressionante. Além de descrever muito bem os personagens e o local onde estão. Incrível! Super recomendo o livro! Foram R$ 40,00 totalmente bem gastos.

    • Também pensei muito sobre como ele teria uma excelente relação com algum sistema de RPG. A forma como ele apresenta o cenário, os personagens e o conflito leva o leitor a querer participar efetivamente daquela ação, e no jogo de interpretação seria ótimo pra isso.

      Abraço

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