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Mulher-Maravilha: Sangue

Mulher-Maravilha: Sangue

mai 15, 2017

Criada no começo da década de 1940 como uma resposta direta a supremacia masculina que dominava os quadrinhos de super-heróis na época, a Mulher-Maravilha conquistou em pouco tempo uma legião de fãs, e tornou-se um sucesso editorial inigualável até então em termos de representação feminina na nona arte. Diana, e seu alter ego heroico, literalmente se afirmou em um ambiente onde os homens eram predominantes (na edição, produção e leitura), graças ao talento e persistência de seu criador, Willian Moulton Marston. Em suas primeiras histórias, a personagem deferia do tom mais violento, investigativo, e militante da maioria de seus pares. Em suas tramas, ela resolvia os conflitos por meio da inteligência ou dos sentimentos, em uma tentativa de agradar o público masculino – por meio da beleza da protagonista -, e o feminino, pela postura e decisão dela enquanto mulher independente e dona de seu próprio destino. Ao longos dos anos, a Mulher-Maravilha foi ganhando novos artes e atitudes, todavia, permanece ainda hoje como a mais famosa e marcante heroína do mundo, sem duvidas.

Além da particularidade da personagem – que confere a ela um caráter único e original, mesmo se valendo de conceitos bastante explorados em literatura, especialmente -, sua passagem pela mão de grandes nomes dos quadrinhos conferiu à ela uma fama e coerência cada vez maior, construindo uma base sólida, histórico cativante, e universo digno do interesse de uma gama sempre maior de novos leitores. Nesse sentido, devemos destacar sua reformulação dentro do projeto “Novos 52″, desenvolvido pela DC com o intuito de recomeçar as sagas de seus personagens, criando um universo mais coeso e acessível a toda uma nova geração de fãs. Importante citar isso, pois foi nessa fase que a Mulher-Maravilha ganhou uma das séries mais aclamadas e de melhor qualidade em toda a sua história, começando por “Sangue” que abriu a participação da dupla Brian Azzarello e Cliff Chiang no título.

Para quem deseja começar a leitura da heroina nos quadrinhos eis a melhor opção!

Para quem deseja começar a leitura da heroína nos quadrinhos eis a melhor opção!

Embora a passagem de nomes como George Perez, John Byrne, e Michael Straczynski, tenham marcado de maneira relevante o histórico da personagem, enriquecendo sua produção em diversos sentidos, a série assinada pela dupla Azzarello e Chiang (com cores de Tony Akins) despertou de cara o interesse do mercado por essa nova fase da heroína, tornando sua revista uma das mais aclamadas na era dos “Novos 52″. O quadrinho já chama a atenção pelo envolvimento do próprio Azzarello, que antes trabalhara com títulos como “100 Balas” e “HellBlazer”. Sendo um nome bem mais propício para o Batman, ou figuras mais soturnas da linha Vertigo, a presença dele no roteiro da personagem criou uma expectativa que gerou fato e apreensão por parte dos fãs. Porém, o resultado final disso não poderia ser mais notável. 

Esta nova série, representada aqui nesse encadernado da Panini que traz as 6 primeiras edições da revista própria da heroína (publicadas entre 2011 e 2012), não apenas traz uma nova origem para a Mulher-Maravilha, mas também respeita muitos dos conceitos formulados por seu criador e artistas que o precederam no trato dela. Chama a atenção nesse título que ele – ao contrário da maioria das outras séries da fase “Novos 52″ -, não se ligue de maneira direta com personagens, cenários e conflitos de outras tramas, muito pelo contrário. A série da personagem seguiu por muito tempo dentro de sua própria cronologia e seguindo um roteiro sem a interferência de nenhum outro protagonista da DC desse período. Azzarello respeitou, sobretudo, a forte presença da Ilha Paraíso e da relação materna de Diana com Hipólira, para desenvolver todo um novo cenário envolta da personagem. Concedendo novos tons e desafios ao mundo defendido por ela. 

Mesmo reformulada a Mulher Maravilha continua defendendo os mais fracos

Mesmo reformulada a Mulher Maravilha continua defendendo os mais fracos

Em “Sangue” o enredo mantém a intrínseca ligação da heroína com a mitologia grega, surpreendendo pela maneira como esse Panteão surge e interage com a trama. Tudo começa com Zola, uma jovem humana, sendo perseguida por dois minotauros surgidos de forma mágica para eliminá-la. Graças a interferência de Hermes (isso mesmo, o Deus mensageiro do Olimpo) ela acaba sendo transportada para o apartamento de Diana em Londres, onde a batalha não tarda a continuar! Pouco depois, é revelado que a jovem espera um filho de Zeus, que está desaparecido, causando uma perigosa disputa entre os deuses restantes pelo domínio de seu posto. Nesse ínterim, a Mulher-Maravilha terá que proteger Zola das investidas de Hera, que pretende matá-la, e resolver a disputa entre as divindades que almejam o domínio do trono de Zeus. Não bastasse isso, a difícil relação com a mãe e as expectativas de seu povo em relação a ela vem a tona, e dificultam a resolução dos problemas presentes. 

Mesmo mantendo a tradição e coerência em relação aos conflitos direcionadas a protagonista, o enredo não ganha destaque pela originalidade. Porém, o ritmo fluente e competência da narrativa agradaram em cheio aqueles que davam seus primeiros passos no universo da heroína. Um ponto que deve ser exaltado nesse momento é a simplicidade como as relações humanas (ou divinas) se apresentam, e como elas ganham ares de profundidade a medida que são desenvolvidas. O caráter humanístico do panteão grego surge como um recurso enriquecedor para a trama, e estabelece uma ligação instigante com outros pontos da narrativa. Algo relevante e particular da assinatura de Azzarello no quadrinho. 

Acho que a fase de resolver as coisas com sentimento já passou pra ela

Acho que a fase de resolver as coisas com sentimento já passou pra ela

Porém, se enredo mantém uma competência e fluidez dignas da atenção do leitor, o que dizer da arte de Cliff  Chiang?! A particularidade de seus traços, que diferem de quase tudo visto em títulos de super-heróis na época, tornaram-se uma marca registrada da série e certeza de boa narrativa e beleza durante a leitura. Isso, sem mencionar a união fortuita com as cores de Tony Akins, que exagerou em certos tons para evidenciar o clima épico da história. Surpreende, principalmente, a releitura do artista em relação aos deuses do Olimpo, muitos com diferenças fundamentais quanto a referência mental que temos deles em outras obras da literatura, cinema, ou quadrinhos.

Finalizada a leitura do título é improvável que alguém não o aponte como uma das melhores “portas de entrada” para o universo da Mulher-Maravilha nos quadrinhos. Uma obra que traz os elementos mais tradicionais do universo da personagem, com tramas bem características de suas aventuras, e uma arte que encanta o leitor desde os primeiros quadros (da capa, me arrisco a dizer). Por isso, se está curioso e quer conhecer melhor a personagem em sua representação na nona arte, este “Sangue” é uma pedida certa.

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