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Mia Couto e sua Escrita em Africanidade Latente

Mia Couto e sua Escrita em Africanidade Latente

nov 25, 2016

Cada escritor possui suas especificidades, uma forma bem peculiar de expressar as vozes artísticas que permeiam sua essência. A terra, a gente, as leituras, a criação; todos estes fatores constroem um pouco do todo que é a produção literária de um escritor. Para compreender plenamente suas obras, é necessário sim ter consciência dos elementos intrínsecos existentes em cada linha, página e/ou livro do autor. Entender que o produto final de sua manifestação intelectual vem de uma formação bem mais profunda e complexa do que se pode prever inicialmente, é ter certeza que a vivência de leitura, do escritor e do leitor, constitui uma ligação intima e existencial, capaz de preencher com sentimentos variados, pessoas até em contextos totalmente opostos ao de quem escreveu.

Vistas estas características tão presentes e marcantes na trajetória literária de quem se propõe o ofício de escritor, hoje vamos deter nosso olhar um pouco mais sobre a obra do autor moçambicano, ganhador do Prêmio Camões em 2013. Mia Couto (pseudônimo de Antonio Emílio Leite Couto) nasceu em 5 de Julho de 1055 em Moçambique. Nascido e escolarizado em Beira, mudou-se logo para Lourenço Marques (atual Maputo), capital do país. Estudou medicina, abandonando 3 anos depois de iniciado o curso, e atuou como jornalista no periódico A Tribuna. 

Estreou em literatura em 1983 com o livro de poemas Raiz de Orvalho, que continha poemas contra a propaganda marxista. Além de poeta, cultiva o conto, o romance e a crônica. Sua escrita é marcada pela recriação da língua por meio do léxico de seu país. Em 1992 lançou seu primeiro romance, Terra Sonâmbula, ganhador do Prêmio Nacional de Ficção da Associação dos Escritores Moçambicanos, e apontado como um dos 12 melhores livros africanos do século XX. Biólogo, dirige a instituição denominada Avaliações de Impacto Ambiental – IMPACTO – empresa que faz estudos de impacto ambiental, em Moçambique. Ativista atuante na gestão de zonas costeiras, e desenvolve pesquisas em diversas áreas.

Mia Couto. Não conhece?! Não? Pois desfaça esse equivoco AGORA!

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Ler qualquer um dos livros do autor, significa perceber rapidamente uma escrita única, peculiar e dotada de grande personalidade. Suas experiências e modo fascinante de captar os elementos que o influenciam, de quem tratamos mais acima, conferem á seu estilo literário um status particular, dotado de aspectos regionais e marcantes para a narrativa e a escrita. Mia Couto, em diversas entrevistas, demonstrou uma maneira bem própria de compor suas obras, e que valem ser discutidas como uma forma de compreensão de sua ideologia, excedendo o fator léxico da palavra. 

Um dos aspectos que mais chama a atenção em relação à composição literária do autor é referente à forma como concebe seus livros. Segundo ele, nunca uma obra se apresentou inteiramente à sua mente, complexa e finalizada em seus meandros mais intrincados, em especial, de enredo. Neste quesito, as tramas se desenvolvem de acordo com a “voz” dos personagens instalados em sua mente, que lhe confidenciam segredos á medida que convivem, ao longo dos dias e noites de relacionamento com o escritor. Para Couto, sua função diante desta relação autor-personagem é somente o de manter a paixão viva entre eles, assim, podendo manter próximos os personagens, e lhes transcrever as histórias contadas ao pé do ouvido, lenta e calmamente. Com certeza, a forma de criar/conceber o desenvolvimento do enredo de seus livros, confere vida à personas tão marcantes, e firmes, em suas personalidades latentes, e distingue tanto a composição artística de seu cânone.

No entanto, o que mais caracteriza a particularidade em relação aos livros do moçambicano é a expressão única de sua escrita. Nascido e criado no país africano soube, desde cedo, perceber a essência de sua terra, e expressão, por meio de suas letras, do regionalismo concedido pelo português herdado dos colonizadores lusitanos. Sua escrita privilegia a plástica das palavras, o neologismo e as inovações sintáticas. Nas palavras do autor, sua virtuosidade léxica se deve à origem poética de sua vida literária. Crescido em uma sociedade que tem na oralidade uma expressão marcante e cultural, transcreve suas narrativas por meio de expressões de sua própria percepção do meio. Ao longo da composição das histórias, vozes são constantes em sua mente, direcionando o sentido e dando corpo a palavra. Suas composições são plásticas, dinâmicas, e se adaptam bem a expressão linguística pretendida. Ele mesmo se vislumbra como um poeta que escreve histórias.

Escrita clássica com estilo e sentimento africano. Uma receita de sucesso em literatura.

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Outro fato marcante em sua expressão escrita é referente ao regionalismo em sua obra. Mesmo a composição de sua face da língua portuguesa é construída, muito, em cima de dialetos regionais, e aspectos da adaptação africana à língua de seus antigos dominantes. Fato este que é aliado sobremaneira ao respeito do autor pela cultura de sua terra. Sua criação transpira sobre a lógica da construção dos causos moçambicanos, revelando a beleza e narrativa contidas em seus meandros. Couto é um curioso sobre os mitos de sua terra, sempre nutriu, segundo ele, curiosidade sobre a forma como são criadas as lendas, em especial, a influência do medo neste processo. O autor acredita que a expressão regional de seus costumes, expõe tão somente fatores intrínsecos ao ser humano, devidamente inserida nos costumes, e mística local.     

Porém, não param por ai as influências que compõe a escrita do autor africano. Talvez a maior, e mais profunda delas, seja sua relação de amor às letras e o trabalho como biólogo. Perceptível de uma maneira difícil de compreender por quem não partilha de seu amor pela terra e seres vivos, Couto expressa vividamente à manifestação dos animais, das plantas, e da natureza poderosa e constante que o cerca. A familiaridade do autor com os seres e ambiente que tanto defende em sua atuação como biólogo, transpiram em sua arte, mesmo quando em imperceptíveis traços, mas de marcante presença ideológica.

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