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Leviatã: A Missão Secreta

Leviatã: A Missão Secreta

nov 4, 2015

Confesso que somente há pouco tempo apenas descobri o prazer de ler sobre o gênero Steampunk. Mesmo tendo ocasional contato com autores indicados como influenciadores estilísticos dele em literatura, como Júlio Verne e Arthur Conan Doyle, a face mais pura do gênero só entrou em minha sempre interminável fila de leituras há pouquíssimo tempo, mas, mesmo com poucas obras apreciadas já garanto que esta forma de contar histórias entrou de vez em minhas preferências literárias. Movido pelo encanto da descoberta, parti em busca de títulos do gênero que – convenhamos -, não são fartos em nossas livrarias brasileiras, pelo menos em comparação à outros como o horror, a fantasia e a ficção científica. Bom, nesta verdadeira caça ao tesouro acabei descobrindo a Trilogia Leviatã (2002), do renomado autor Scott Westerfeld. À primeira vista, os livros impressionam pela beleza destinada às edições pela editora Galera Record, as capas são simplesmente fantásticas, diga-se de passagem. Porém, seria o mote central da trama – Mekanistas vs Darwinistas – que me faria comprar os três livros de uma vez, e aguardar ansiosamente pela oportunidade de lê-los. E esse dia finalmente chegou!

Steampunk Banner

Arte e capa fantástica da edição brasileira, fiel à edição gringa

“É o começo da Primeira Guerra Mundial. As potências europeias, divididas em duas vertentes, estão munidas de armamentos impressionantes para as batalhas. De um lado, mekanistas alemães dispõe de máquinas gigantescas e ultramodernas movidas a combustível. Do outro, darwinistas ingleses contam com poderosos animais fabricados geneticamente. Para rivalizar com os zelepins do kaiser alemão, a Grã-Bretanha criou uma extraordinária aeronave bélica. O Leviatã é uma enorme baleia-zepelin, projetada com base da cadeia vital desse ser e formada por outras inúmeras criaturas. À sua volta e sobre sua pele habitam centenas de monstros também criados – batedores, guerreiros e predadores para coletar comida, o combustível da aeronave”.

Interessante notar que Scott Westerfeld criou seu cenário embasado por conflitos e personagens históricos reais, mais precisamente, ambientados no começo da Primeira Guerra Mundial, em 1914. Neste sentido, a inclusão no enredo de tipos como o arquiduque da Áustria e sua esposa plebeia, Francisco Ferdinando e Sophia, do secretário britânico Winston Churchill, e da cientista Nora Barlow, promovem uma ponte bem vinda entre realidade e ficção, algo marcante no gênero como ressaltamos no artigo As Engrenagens do Steampunk. Aliás, os motivos que levam à fuga de Alek, assim como o não reconhecimento pela realeza de seu país, são inteiramente verdadeiros, embora ele mesmo seja um personagem fictício. A dicotomia entre verossimilhança e fantasia é apenas um dos pontos relevantes do livro, marcado por uma criação sólida e bastante atraente neste, e em outros sentidos. No entanto, o charme maior da obra, pra mim, está no confronto tecnológico e idealista entre ‘mekanistas’ e ‘darwinistas’, divisão essa que acirra ainda mais o confronto político entre os países do bloco europeu (como demonstra o  mapa abaixo).

Mapa da Europa dividida entre Mekanistas e Darwinistas...

Mapa da Europa dividida entre Mekanistas e Darwinistas…

“Em meio a essa corrida armamentista, Aleksandar Ferdinand, príncipe do império Austro-Húngaro, é acordado em pela madrugada e obrigado a fugir de casa. O próprio povo o persegue. Seu título de nobreza é irrelevante. Tudo o que ele tem é um andador gigantesco, o Ciclope Stormwalker, e a companhia de um grupo leal de companheiros. Do outro lado da batalha… Deryn Sharp é uma menina esperta e estudiosa que se disfarça de garoto para entrar na Força Aérea Britânica como aspirante. Mas a talentosa aeronauta precisa de manter em constante alerta pra que seu segredo não seja descoberto. Pois, com a guerra eclodindo, os caminhos de Alek e Deryn se cruzam de um modo inesperado, e os dois sobem a bordo do Leviatã para embarcar em uma aventura que mudará suas vidas para sempre”.

Como ressaltado no trecho acima, o enredo se divide em duas narrativas distintas que se unem no final da história. Contados em terceira pessoa, percebemos além do viés aventureiro da trama, incursões do autor na interessante composição daquele mundo, ressaltando as modificações ficcionais, e explicando em meio à narrativa fluida e envolvente ali empregada, traços científicos das duas ciências empregadas no cenário trabalhado. E estas, dentre uma série de qualidades, ressaltam a criação do autor. O ecossistema da nave que intitula a obra não apenas existe como um recurso estilístico, ela funciona à olhos vistos e influencia no decorrer do enredo. Da mesma forma a tecnologia ‘mekanista’, neste mundo ausente de vapor e outros combustíveis fósseis, usando eletricidade no lugar. Desta forma, mais que avanços técnicos, as duas criações resguardam um pensamento social e ideológico no lugar, causando ainda mais discórdia entre os países que adotam algum dos lados.

Personagens divididos por seus países, destinos e tecnologias...

Personagens divididos por seus países, destinos e tecnologias…

Embora utilize arquétipos bastante definidos para a criação dos personagens – outra marca nítida do gênero em literatura -, estes são fortes e convencem desde as primeiras páginas. A jovem soldado destemida, o príncipe inseguro mas corajoso, a cientista intrépida, o nobre arrogante porém leal, são apenas alguns dos tipos apresentados na trama, que fortalecem tanto o cenário quanto o desenvolvimento do enredo. Seguindo um viés juvenil em seu tom de escrita, a narração conquista logo de cara, e proporciona uma leitura rápida, imersiva e cativante. Para se ter ideia, venci suas 366 páginas em duas tardes, sem pressa ou perca dos pontos altos da história. E mais, as pontas soltas deixadas pelo autor, tanto na trama envolvendo o leviatã, quanto a respeito da guerra, deixam no leitor uma vontade ferrenha em continuar logo em seguida a leitura dos próximos volumes, Beemote e Golias. Se o desenvolvimento do cenário – no passado e futuro -, já instiga neste livro de estréia da série, imagine nos próximos, que prometem um mergulho mais profundo, e bem vindo, no cenário criado por Westerfeld em cima de um fato histórico tão triste, e paradoxalmente interessante, como foi a Primeira Grande Guerra Mundial.

4 Comentários

  1. Vi esse e os outros livros da trilogia em várias livrarias e nunca tive o interesse de comprar, eles são bonitos demais mas nunca foram prioridade sabe. Mas tua resenha me deixou curioso pra ler parece mesmo ser divertido e bem escrito. Além disso é steampunk que já ganha pontos só por isso rsrsrs.

    • Cara vale muito a pena, de verdade. Recomento totalmente a leitura, e um conselho. Consiga logo a trilogia, pois vai querer ler em sequência a série.

      Abraço

  2. essa trilogia é uma de minhas favoritas! muito bom mesmo. a revisão amalucada na história daria pra considerar “realismo fantástico” nesse caso, sergio?

    • Sim Luis, adorei o livro, de verdade e já devo ler os outros na sequência! Quanto ao Realismo Mágico ele se encaixa à um contexto mais sutil do sobrenatural no mundo real, nesse caso ele estaria mais voltado à fantasia mesmo, tendo uma participação pela metade de verossimilhança e fantástico.

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