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Ler é Realmente um Ato Solitário?!

Ler é Realmente um Ato Solitário?!

dez 10, 2014

A ideia por trás do conceito desse texto sempre esteve presente em minha mente, na verdade, este sempre é desde minha primeira leitura mais séria, se assim posso classificá-la. Digo, por mais que ler, no sentido concreto do ato de sentar e permanecer imerso em um objeto recheado de letras, seja na verdade algo que exija sim silêncio, concentração e abstração dos sentidos para tudo o mais que cerca o leitor, a leitura em si nada mais é que a aquisição do conhecimento escrito por alguém. baseado em suas convicções, estudos e posicionamento acerca do mundo em que vive(ou). Pensando deste modo bem ingênuo – pelo menos assim via na época -, ler é tomar sentido de ideias de outro, tornar-se empático com aqui que ele quis deixar registrado para a posteridade. Muito tempo depois, quando comecei a estudar teoria literária, soube que existem estudos profundos e complexos sobre a questão, e que nem sempre tudo é tão claro quanto meu pensamento inicial parecia supor. Porém, eu estava certo em uma coisa desde o começo, ler não é um ato solitário, pelo menos se o enxergarmos do viés com que o prazer da leitura nos instiga em essência. Antes de prosseguirmos, todavia, importante dizer que me refiro aqui ao texto literário, excluindo assim a leitura para aquisição de conhecimento teórico direcionado. Visto isso, vamos reforçar os argumentos, e lhes convencer do minha afirmação – caso não concorde, dê mais uma chance à minha sanidade, certo?

Como disse acima, em determinado período de meus estudos tomei conhecimento de algumas teorias relacionadas à esse fato levantado aqui, ou seja, a leitura é, ou não, uma atividade solitária. Dentre os diversos, e conflitantes, levantamentos, encontrei um que emparelhou muito com o que pensava sobre o tema, e após muitas leituras dele, só me convenci mais sobre a natureza verdadeira de suas afirmações. O citado estudo está inserido no excelente livro “Letramento Literário” (Editora Contexto), do autor e educador Rildo Cosson. O livro, dentre outras questões ligadas à educação por meio do uso de textos literários, aborda com sutileza a questão do diálogo promovido entre leitor e escritor durante a leitura de uma obra literária. Em essência, ele afirma que ao ler, existe uma troca de experiências que para ser bem sucedida depende tanto do conhecimento ali inserido pelo autor do livro, quanto do conhecimento de mundo e competência na interpretação do leitor.

Em suas palavras “Ao ler, estou abrindo uma porta entre meu mundo e o mundo do outro. o sentido do texto só se completa quando esse trânsito se efetiva, quando se faz a passagem de sentidos entre um e outro. Se acredito que o mundo está absolutamente completo e nada ainda pode ser dito, a leitura não faz sentido para mim. É preciso estar aberto à multiplicidade do mundo e à capacidade da palavra de dizê-lo para que a atividade da leitura seja significativa. Abrir-se ao outro para compreendê-lo, ainda que isso não implique aceitá-lo, é o gesto essencialmente solidário exigido pela leitura de qualquer texto.”

Pelo visto o Lado Negro não é seu único aliado, hein, Lord Vader?!

Pelo visto o Lado Negro não é seu único aliado, hein, Lord Vader?!

Nesse momento é de suma importância exaltar o papel primordial da interpretação para o bom diálogo entre os dois lados. Digamos que uma deficiência do leitor ao compreender os significados inseridos pelo autor em seu texto, impediria a troca de forma tão efetiva quanto no caso de dois indivíduos de diferentes idiomas tentando estabelecer uma conversa relevante. Entenda, nem sempre conhecer uma língua o faz um bom entendedor das formas como ela pode se manifestar, no caso de um leitor não capacitado à interpretação, o diálogo se tornaria impossível, e assim a leitura seria, definitivamente, uma atividade solitária, pois o autor não estaria presente ali na interação. Por isso, embora a interpretação seja com frequência tomada como sinônimo de leitura, aqui queremos restringir sentido às relações estabelecidas pelo leitor quando processa o texto, somente assim a troca pode ser realizada.

Voltando ao cerne do tema proposto, se a leitura é uma atividade solitária, devo novamente citar Cosson em sua teoria que afirma ser o ato de ler – restrito ao mover de olhos sobre as páginas de um livro -, algo realmente solitário, porém, interpretar o texto seria uma atitude solidária. Você pode estar se perguntando “como assim, ler tem haver com caridade?”, não, o sentido aqui é outro. O termo solidário citado pelo autor está relacionado ao fato de, ao escrever uma obra literária, seria o escritor um porta-voz de seu tempo, descritor da sociedade que vive e que será vislumbrada pela posteridade em suas páginas – mesmo em obras de fantasia, ou não teria em Tolkien muito do maniqueísmo presente da Segunda Guerra Mundial?! E não restrinjo isso ao comportamento social, os sentimentos envolvidos também são de fundamental importância.

Pense o seguinte, como conhecer melhor a Rússia que pelas obras de Dostoiévski? Portugal por Eça de Queirós, o Brasil por José de Alencar? Esses escritores tem em suas obras a representação vida de seu tempo e espaço, e ler um de seus livros é dialogar com suas ideias, pois à esta leitura também estará incutida o conhecimento do leitor, inteiramente enraizado em seu próprio tempo espaço. Desta forma, a leitura constitui uma troca de sentidos entre o leitor e o autor, e com a sociedade onde ambos estão localizados. Vou dar um exemplo mais claro disso, atualmente estou lendo “Contos do Nascer da Terra” (Companhia das Letras), do moçambicano Mia Couto. Pois bem, pra quem conhece o autor, sabe que sua escrita é impregnada por elementos de seus país, seja da natureza africana ou do comportamento social. Ao ler eu, que não lembro nem de ter visto uma imagem do país, adentro de maneira sensível e plena na essência daquele povo e local, trocado com ele por inserir em mim este conhecimento tendo por base a cultura e sociedade de minha cidade natal, Fortaleza.

Dessa vez a gente pega ele galera - cachorrinhos relendo O Gato de Botas!

Dessa vez a gente pega ele galera – cachorrinhos relendo O Gato de Botas!

Sobre esta aquisição da cultura do outro – no caso do autor -, pelo leitor, Cosson diz “O centro desse processamento são as inferências que levam o leitor a entretecer as palavras com o conhecimento que tem do mundo. Por meio da interpretação, o leitor negocia o sentido do texto, em um diálogo que envolve autor, leitor e comunidade. a interpretação depende, assim, do que escreveu o autor, do que leu o leitor e das convenções que regulam a leitura em uma determinada sociedade. interpretar é dialogar com o texto tendo como limite o contexto. Esse é de mão dupla: tanto é aquele dado pelo texto quanto o dado pelo leitor; um e outro precisam convergir para que a leitura adquira sentido. essa convergência dá-se pelas referências à cultura na qual se localiza o autor e o leitor, assim como por força das constrições que a comunidade do leitor impõe ao ato de ler. o contexto é, pois, simultaneamente aquilo que está no texto, que vem com ele, e aquilo que uma comunidade de leitores julga como próprio da leitura”.

Bom, analisando os termos expostos ao longo do texto, acho que chegamos a conclusão que, se analisada de seu âmbito mais intrínseco, a leitura está longe de ser um ato solitário, pelo contrário. Difícil pensar em uma forma de diálogo mais complexa e esclarecedora sobre temas e sentimentos – e nem me fale em pesquisa na internet, por favor. Na verdade, acho que todo leitor recorrente já pensou, pelo menos um pouco sobre isso, e com as afirmações acima, especialmente as do professor Rildo Cosson, o tema vai ficar um pouco mais amplo no pensamento de cada um de nós, e talvez nos ajude a compreender um pouco melhor a leitura, que tanto amamos, e a leitura como algo único e transformador.

12 Comentários

  1. Gezilane Lima /

    Concordo com as afirmações do texto, em especial, do Rildo Cosson – aliás, ótimo o livro dele, recomendo à todos os educadores. Entender esse diálogo com o autor é uma das primeiras competências que o leitor deve compreender para aproveitar suas leituras de forma plena. Sendo assim, a leitura literária nunca é solitária, mas sim um diálogo constante não só com o autor, mas também com quem contribuiu para suas idéias relevantes ao texto escrito.

    Abraço

    • Obrigado pelo comentário Gezilane, também penso que deve ser assim. Por exemplo, na escola aprendemos que o professor, ou outra figura “acima”, como o autor, somente tem a nos ensinar como um mero porta voz distante do conhecimento, desta forma, distanciando o diálogo e participação do aluno no processo de aprendizagem. Se mais professores dessem prioridade ao entendimento do jovem como algo importante à leitura, teríamos uma situação bem diferente da atual.

      Beijos :)

  2. Fernando Couto /

    Nossa, eu também sempre pensei sobre isso e nunca parei pra pensar mais detalhadamente sobre esses aspectos. Realmente, percebendo a leitura sob essa ótica, fica clara a contradição sobre o velho jargão que diz ser o ato de ler algo solitário em essência, assim, pelo contrário, a leitura lhe integra com o mundo, promove uma conversa bem mais rica que a tida em nosso cotidiano, e nos ensina, o que é o melhor de tudo.

    Mais uma vez, parabéns pelo ótimo texto.

    Abraço

    • Obrigado Fernando, na verdade, acho que todo leitor meio que percebe isso, mas nunca para pra pensar sobre os detalhes da relação. Legal que tenha podido perceber isso com mais clareza. O texto não tem caráter definitivo, até mesmo por sua natureza opinativa, mas o embasamento do Cosson deve dar muita “luz” a questão.

      Abraço

  3. Concordo contigo, Sérgio, acredito ainda que quanto mais você conhece o autor, mais o “dialogo” aumenta. Você pode conhecer mais seja através do blog do autor, ou mesmo se você for um leitor reincidente, você acaba percebendo, no subtexto, muito do que o autor estava vivendo na época entre outras leituras interessantes que fazem toda a diferença entre aproveitar ou não todo o potencial de cada livro.

    • Com certeza Brueh, conhecer a história por trás do enredo aumenta, e muito, a imersão no livro. Quanto mais se sabe sobre a composição daquela obra, mais rica ela será para a experiência durante a leitura. Pra mim, já ocorreu o inverso, li algo e depois, ao saber do contexto por trás dela, a experiência mudou e muito.

  4. Muito interessante! Esse último trecho que você citou de Cosson me deu um estalo inclusive sobre a dificuldade de um não-leitor em gostar do ato da leitura. Sem a comunicação entre escritor-leitor, não há uma relação, e a leitura se torna então um ato solitário, tornando-a assim tão chata! Agora, quando conseguimos indicar o livro certo ao leitor, ocorre essa comunicação, talvez uma ligação entre os dois lados, que crie o gosto pela leitura… Mas estou divagando! Hahaha! Gostei bastante do seu exemplo do moçambicano, foi semelhante ao que pensei quando li o titulo do artigo, o quanto que aprendi sobre outras culturas, paises, sofrimento, enfim, somente pelo ato de ler, impede que seja totalmente um ato solitário… Talvez assim pareça para os que veem de fora, mas quando estamos imersos em um mundo que não é nosso a ponto de nos sentirmos totalmente lá, solitário só é para quem não está conosco ahhaha

    • Sérgio Magalhães /

      Bacana Lígia, você entendeu bem o espírito do texto. Na verdade o que gostaria com ele era isso mesmo, despertar a importância dessa relação que todo leitor percebe, de maneira latente, ou não, mas que é de fundamental relevância à leitura.

      Beijos, e obrigado por comentar sempre, muito bacana :)

  5. Julio Cesar /

    Belo texto Sérgião. O desenvolvimento ficou muito diferente da ideia inical que tive olhando unicamente o título.
    Concordo em tudo contigo, e essa sensação de diálogo me foi muito real quando lia os livros do Khaled Rosseini e Markus Zusak, a forma como eles descrevem os ambientes, as situações e os personagens é de uma beleza ímpar. Concordo muito com o que a Ligia disse no comentário acima, “livro certo ao leitor”,acredito que essas sensações que temos com determinado livro, fala unicamente com o leitor que consegue absorver a ideia inicial do livro e do sentimento que o escritor quis passar através das palavras.

    • Valeu Julio, cara, você e o Brueh comentando novamente, estão me dando uma baita nostalgia, recordando o começo como coluna no Azila, hehe :P

      Abraço

    • Julio Cesar /

      É Sérgião, é que a primeira versão do site não entrava aqui na empresa…eu ficava lendo os artigos no celular e pra comentar era ruim. Agora por milagre estou conseguindo acessar de boa aqui da empresa.

    • Vixe, olha o poder do layout novo ai! Massa cara, feliz que tenha voltado à comentar :)

      Abraço