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Livros Podem Marcar Bons Momentos?

Livros Podem Marcar Bons Momentos?

jul 15, 2017

Eis um texto que demorei muito para escrever. Foram várias as vezes que sentei defronte o computador com o ânimo e disposição necessárias para tal, e acabei não logrando êxito em tal intento. Ora, como escrever algo tão subjetivo e sem uma referência direta que embase as afirmações aqui descritas? E mais, a abordagem psicológica necessária (creio eu) relacionada com o prazer da leitura nesse caso, foge do meu escopo de conhecimento e pesquisa – mesmo de forma primária -, por isso, meu receio em concretizar um argumento alheio a qualquer aresta que não a da própria experiência, constituiu um obstáculo intransponível para mim por um longo período, confesso. Agora, qual seria mesmo esse tema tão intrincado, espinhoso até, capaz de conceber uma dificuldade tão enraizada? Sendo bem direto, minha pretensão sem foi escrever sobre como a leitura de determinadas obras ficam atreladas a lembrança de uma fase específica da vida do leitor, constituindo uma referência direta entre o título, tema, conflito, daquele livro com a situação pessoal vivida na época em que se leu o texto.

Que fique claro que não me refiro a famigerada “ressaca literária”, quando se instala na empatia do leitor uma saudade marcante do enredo e personagens de determinada obra. Nesse caso, não existe uma relação entre ficção e realidade dentro do diálogo promovido entre leitor e mensagem composta pelo autor em seu livro. Aqui, no caso de minha pretensão textual, quero estabelecer uma proximidade entre o momento da leitura com aquele passado durante esse ato, meio que correlacionando enredo e vivência, da maneira mais direta e emocional possível. Em suma, ao ler o título de um livro, ou sobre o personagem e enredo dele, se estabelece uma lembrança direta com o momento da vida do leitor, vivido durante a leitura daquela obra, dando saudade do momento da realidade, e não da ficção ali revelada. 

Das páginas para a vida as lembranças vão se moldando ao longo da vida

Das páginas para a vida as lembranças vão se moldando ao longo da vida

No meu caso – levando em consideração que isso acontece com mais alguém -, esse é um sentimento que não se repete com tanta frequência. Talvez por isso, ele se torne tão marcante e especial na minha vida. A primeira vez, por exemplo, só ocorreu com “O Retorno do Rei”, terceiro livro da épica série “O Senhor dos Anéis, de J.R.R. Tolkien, lá pelo começo dos anos 2000. Embora os três livros tenham me marcado de maneira irreversível, somente neste último volume lembro com perfeição do clima e sentimento que tinha na época, estabelecendo na minha cabeça uma ligação inseparável entre as duas lembranças, ou seja, real e ficcional. E mais, embora tenha lido excelentes livros ao longo dos anos, vale dizer que a qualidade literária não está relacionada à inclusão de uma obra dentro desse restrito cânone pessoal. O que me leva a outro questionamento: será que é o enredo que me faz lembrar de certa época da minha vida, ou é o período vivenciado que demarca a narrativa do livro, promovendo essa recordação conjunta?

Em meu humilde entendimento, acredito que seja mais a segunda opção, ou seja, é o momento da vida que grava na memória o enredo do livro. Porquê? Ora, quando penso nesse tipo de recordação a primeira imagem é da vivência real, seguida pelo sentimento de saudade direcionado ao livro apreciado naquele momento. Além disso, a memória da vida real é sempre mais forte, saudosa, e marcante que a literária. Por exemplo, morei durante seis meses em uma cidade no interior do Ceará, e tinha que ir uma vez por semana para Fortaleza, resolver questões de trabalho. Nessa época, lia muito durante a viajem de ônibus, e pensar nesses livros me traz à mente uma rápida e detalhada lembrança desses momentos, memórias essas que fogem do escopo literário e adentram em detalhes que compõe um todo daquele período tão marcante da minha vida. 

Seriam essas lembranças uma materialização das mensagens literárias

Seriam essas lembranças uma materialização das mensagens literárias

Dessa forma, a partir do instante em que me tornei um leitor recorrente, minha trajetória tem sido demarcada pela leitura que obras capazes de simbolizar fatos e momentos marcantes da minha vida, promovendo uma relação sentimental entre realidade e ficção, como se as duas pudessem misturar-se num diálogo ainda mais extenso e profundo, que aquele promovido entre leitor e mensagem desenvolvida pelo autor em seu texto. Assim, é nostálgico pensar que quando estava lendo determinado livro, estava vivendo e sentindo determinada coisa, enfrentando aquele problema, e passando por desafios bastante específicos. Fazendo uma relação com outras formas de arte, é algo bem parecido com a música, que nos faz lembrar exatamente das mesmas coisas no momento em que ouvimos pela primeira vez sua melodia. 

Não sei se consegui ser totalmente claro quanto ao que gostaria de passar. Na verdade, meu objetivo maior é atingir pessoas quem sentem o mesmo, ou, se não, que tenham grata oportunidade de estabelecer uma relação tão preciosa e marcante quanto essa. Afinal, e inegável que entrelaçar dois enredos de uma maneira tão empática e sensível, é uma coisa especial e capaz de tornar ainda mais sutil e precioso, momentos especiais da vida, pontuados por leituras marcantes e capazes de engrandecer mais de uma esfera de sua existência. 

2 Comentários

  1. Ótimo texto!! Tenho na memória alguns livros que marcaram minha infância/adolescência e como eles mudaram minha vida desde então me deixa impressionada!
    Muito legal associar uma fase da sua vida a um livro, ou lembrar de um acontecimento especial com um livro especial..

    • Sérgio Magalhães /

      Bem isso mesmo, Layana. Mais uma das inúmeras vantagens da leitura em nossas vidas. Obrigado pelo comentário e elogio 🙂

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