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Le Chevalier e a Exposição Universal

Le Chevalier e a Exposição Universal

jul 27, 2015

De uns anos pra cá nosso mercado literário tem crescido muito, principalmente, em gêneros pouco explorados até então por nossas editoras. Me atrevo à dizer que com a ascensão da fantasia, graças, em muito, a evidência do viés em outras mídias – cinema e televisão, em especial -, outros estilos próximos ao consagrado por Tolkien no primeiros anos do século XX, vieram na esteira desse sucesso editorial, e puderam enfim demonstrar sua qualidade lírica e estética à uma gama maior de leitores. Um destes, sem dúvida, foi o Steampunk. Dotado de uma nuance bastante forte em termos visuais, sua produção literária foi desenvolvida ao longo de muito tempo, sendo colhida aqui e acolá entre a produção de nomes marcantes da literatura universal, desde Júlio Verne à Arthur Conan Doyle, sendo por fim estabelecido como um gênero cheio de personalidade, e digno de uma leitura mais precisa por parte de quem lê.

A prova dessa maior divulgação está na incidência mais recorrente de obras publicadas nos últimos tempos em nosso mercado, vide A Lição de Anatomia do Temível Dr. Louison (Fantasy – Casa da Palavra, 2014), em literatura, e Steampunk Ladies: Vingança à Vapor (Editora Draco, 2015) nos quadrinhos; isso para ficarmos em apenas dois exemplos. Pois bem, quis evidenciar o fato porque nossa análise de hoje será de outra obra do gênero, compondo este cânone nacional mais que bem vindo, e digno da produção dos autores ícones no estilo. Falo de Le Chevalier e a Exposição Universal (Avec Editora, 2014), do autor gaúcho A.Z. Cordenonsi.

Le Chevalier Banner

A incrível arte da capa assinada por Diego Cunha.

“O ano é o de 1867 e Paris prepara-se para celebrar a Exposição Universal, consolidando-se como a capital do mundo moderno! Impulsionada pela tecnologia a vapor do professeur Verne, Paris se tornou o epicentro de uma renovada Europa. Ferro, fumaça e óleo lubrificam o caminho do Império Francês enquanto ‘drozdes’ mecânicos saltitam entre a multidão. Mas uma ameaça paira sobre a cabeça de Napoleão! Em uma guerra de apenas sete semanas, a Prússia derrota a Áustria e lança seus olhos cobiçosos sobre a rica e aristocrática França. Dos campos de batalha para os becos sujos da capital, dos jantares nababescos a catacumbas infestadas de ratos, assassinos e chantagistas se espalham no submundo da espionagem internacional. Mergulhado nas trevas, o Bureau convoca o seu melhor homem. Um espião sem passado. Sem nome. A serviço da sua Majestade, ele é conhecido apenas como: Le Chevalier!”

Professor da Universidade Federal de Santa Maria, membro do Conselho Steampunk – loja Rio Grande do Sul, e contista indicado à final do Prêmio Argos 2014, Cordenonsi já reúne em sua biografia atributos suficientes para credenciar sua escrita dentro de um padrão de qualidade aceitável dentro do gênero, no entanto, desde o prólogo do romance, fica evidente a competência do autor tanto na descrição do cenário – algo de grande valor no gênero cultivado, quanto na narração do conflito principal, e das cenas de ação. Assim, as 178 páginas do livro passam de uma maneira agradável, porém, sem marasmo ou distrações externas, pelo contrário. O envolvimento do leitor com as aventuras de Le Chevalier e seu fiel companheiro, Persa, podem render uma boa tarde inteira de leitura sem a percepção da passagem do tempo, dado o ritmo fluente e imersivo do enredo ali apresentado.

Cheio de mistérios, conflitos e ação, o teor narrativo sucinta a curiosidade de quem lê, incentivando de forma quase irresistível a continuação do romance à cada final de capítulo. Escrito em terceira pessoa, e em enredo linear, a trama segue um tom carismático – assim como seus personagens coadjuvantes -, e convidativo, abrindo várias brechas para possíveis continuações – o que seria excelente, garanto. O desenvolvimento do enredo, movido em paralelo à descrição do ambiente – em sua história e avanços científicos -, imerge de forma profunda no mundo apresentado, e desperta emoções semelhantes às vivenciadas no livro pelos personagens.

A Acrobata, Le Chevalier e o Persa! Personagens marcantes dão ainda mais destaque ao livro.

A Acrobata, Le Chevalier e o Persa! Personagens marcantes dão ainda mais destaque ao livro.

Com um rangido agudo, o soldado de metal deu um passo à frente, os joelhos estranhamente invertidos, o que lhe dava a aparência de um canguru. O zumbido característico de um enorme cristal de quartzo vibrando invadiu o recinto, enquanto o autômato parecia decidir o que fazer. Era possível ouvir as engrenagens encaixando-se e os pêndulos subindo e descendo, escolhendo entre tantos, um curso de ação adequado à suposta ameaça. O autômato girou a imensa cabeça de um lado para o outro, como se estivesse procurando outros atacantes, até que o pescoço travou na posição de Le Chevalier. Então, ele retirou das suas costas uma espada jian do tamanho de um cabo de vassoura (pág. 104).

Sendo uma obra de natureza steampunk, o enredo apresenta uma mistura competente de narração que lembra a fluidez envolvente da praticada pelo criador de Sherlock Homes, e a simplicidade envolvente da ficção ‘pulp’ cultivada nos anos 30. Tudo isso, inserindo sem tons desnecessários de exagero a descrição dos avanços tecnológicos intrínsecos ao gênero aqui tratado. Aliás, um dos pontos altos do livro é sua criação de cenário. Mesmo ambientando o romance em uma cidade existente, e bastante conhecida em termos históricos e arquitetônicos, a Paris descrita pelo autor ao longo da trama é bem menos simplista que a revelada à nos pela cronologia normal. Abalada por um terremoto alguns anos antes, e posicionada entre conflitos territoriais entre países da Europa, a cidade é entrecortada por canais fluviais – que resguardam masmorras infestadas de piratas e rufiões -, e ferrovias à vapor.

O clima pessimista da classe operária, contrasta com a opulência da nobreza, resguardando o tom histórico de realidade, inserindo também aspectos ficcionais marcantes dentro da proposta social e tecnológica pretendida. A mistura de referências reais às criadas (ou modificadas), conferem ao enredo surpresas agradáveis, e denunciam o conhecimento do autor acerca do cenário abordado, demonstrando uma coerência bastante eficiente na concepção do ambiente pretendido.

Mapa de Paris à época do enredo, mistura de realidade e ficção steampunk

Mapa de Paris à época do enredo, mistura de realidade e ficção steampunk

Falando em termos pessoais, devo confessar que sempre fico apreensivo ao receber um livro diretamente do autor – como nesse caso. Isso pois, desde o começo do trabalho aqui sempre me propus falar a verdade acerca da qualidade literária da obra – Por isso, nem leio e analiso algumas por saber a procedência de seu texto à nível técnico literário. Assim, comunico de inicio à quem me envia exemplares de suas obras minha disposição crítica negativa no caso da ocorrência de erros ou falta de coerência lírica relacionada a proposta do livro. Esse fato é recorrente e inevitável. Mas, por sorte minha, esse foi mais um caso de extrema surpresa relacionada à obra.

Meu primeiro pensamento ao finalizar o livro foi “nossa, como algo desse tipo não está em uma grande editora?” – nada contra a Avec, que fez um excelente trabalho editorial e gráfico, que fique claro. Porém, o viés atraente do enredo, a riqueza nas descrições de cenário e históricas, a escrita fluida e competente, certamente qualificam este “Le Chevalier e a Exposição Universal” acima de muitos títulos que transbordam nas prateleiras das livrarias Brasil afora, pode acreditar.

8 Comentários

  1. Grande Sérgio, muito obrigado pelas palavras. Fiquei muito feliz que tenha gostado do livro. São estas pequenas coisas que incentivam os autores nesta árdua caminhada. Abraços, Andre

    • Sérgio Magalhães /

      Gostei mesmo cara, nem preciso enumerar aqui as qualidades, pois estão no texto. Entrou pra minha lista de indicações, com certeza.

      Grande Abraço

  2. Gezilane Lima /

    Tenho muita curiosidade sobre esse gênero. Ele é mesmo bem desconhecido, pelo menos para os jovens com quem trabalho (sou professora de uma escola profissionalizante), e seria bom facilitar o acesso deles à essa literatura mais embasada e com fundo histórico forte. Parabéns ao autor pela obra, e por esta resenha, que certamente irá divulgar mais ainda o conteúdo à muitos jovens ansiosos por novidades.

    • Sérgio Magalhães /

      Esse, sem duvidas, é um livro que poderia ser muito bem aproveitado na escola, dada principalmente suas inúmeras referências históricas, sociais e culturais.

    • Obrigado pelas palavras de estímulo, Gezilane. Com a ajuda dos leitores é que construímos um mundo melhor. Abraços, Andre

  3. Fernando Couto /

    Incrível essa maior recorrência de obras do gênero, o leitor só tem a ganhar. Fiquei muito interessado meu amigo, lerei tão logo tenha a oportunidade.

    Forte abraço.

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