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Guerra do Velho

Guerra do Velho

jul 19, 2016

“No meu aniversário de 75 anos fiz duas coisas: visitei o túmulo da minha esposa, depois entrei para o exército”. É com esta frase curta, impactante, e surpreendente, que John Scalzi inicia seu romance de estréia, Guerra do Velho (2005), premiado na categoria melhor escritor estreante com a comenda John W. Campbell, uma das mais notórias da literatura universal. Porém, resguardando mais do que apenas os adjetivos citados, a frase é bastante significativa para o enredo, cenário e conflito da obra, e demonstra já na primeira linha do texto todos os aspectos marcantes e inovadores que o leitor pode esperar ao desbravar as ótimas páginas do livro. Ora, se analisarmos o cerne da narração, o personagem principal, John Perry – que cita a frase acima -, flutua durante todo a trama entre os sentimentos do passado, simbolizado pela vida e morte da esposa, e pelos desafios e questionamentos de sua nova vida, como militar de um exército espacial dedicado a defender e conquistar novos territórios para a raça humana.

Como já ressaltado, o livro tem como protagonista um senhor de 75 anos chamado John Perry. Viúvo, pai de um filho apenas, e escritor, ele embarca em seu aniversário para cumprir uma obrigação assumida dez anos antes, quando se alistou junto com a esposa nas Forças Coloniais de Defesa. No entanto, sem a companhia da mulher, ele embarca numa aventura sem a menor noção do que acontecerá, pois a atuação deste exército é quase inteiramente desconhecido no planeta Terra, servindo com mais afinco nas colônias espaciais humanas, que não mantém contato com seus parentes terrestres. Sendo assim, logo no começo do livro, acompanhamos este momento de transição na vida deste senhor, e descobrimos junto dele as nuances e perigos de servir numa realidade inteiramente alheia a sua em uma, literalmente, nova vida.

Sério que você não teria de comprar esse livro se visse numa livraria?!

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Conforme indica a sinopse oficial “A humanidade finalmente chegou à era das viagens interestelares. A má noticia é que há poucos planetas habitáveis disponíveis – e muitos alienígenas lutando por eles. Para proteger a Terra e também conquistar novos territórios, os humanos precisarão de tecnologias inovadoras, capazes criar supersoldados com habilidades jamais vistas, e um exército disposto a arriscar tudo. Esse exército, conhecido como Forças Coloniais de Defesa, não apenas mantém a guerra longe dos terráqueos e colonos, como também evita que eles saibam demais sobre a situação do universo. Mas, para se alistar é necessário ter mais de 75 anos. John Perry vai aceitar esse desafio, ainda que tenha apenas uma vaga ideia do que pode esperar.”

Narrado em primeira pessoa – narrador-personagem -, o livro apresenta um cenário e enredo bastante inovador, muito embora siga aspectos básicos do sub-gênero militar da Ficção Científica, como enaltecemos no artigoO Poder de Fogo da Ficção Científica Militar em Literatura“. Após ingressar nas Forças Coloniais Defesa, John Perry vide dividido seu passado na Terra, e os desafios da nova vida militar. Enquanto o contato com tecnologias impensáveis para os terrestres se torna cotidiano para o personagem, a amizade imediata com um grupo de calouros – todos na terceira idade, obviamente -, reforça o contraste entre o humano e o científico. Neste ponto, valer salientar que a concepção de cenário e tecnologia criado por John Scalzi surpreende mesmo leitores mais experientes do gênero. A União Colonial, que é defendida pelas já citada Forças de Defesa Colonial, apresenta uma realidade totalmente diversa e mais perigosa que aquela vivida na Terra. Ou seja, é um contexto sócio-politico e cultural inteiramente novo.

Quando tinha 31 anos deitei numa rede bem confortável e li esse livro maravilhoso!

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Outro ponto de grande destaque no romance é relacionado ao motivo pelo qual os soldados da FCD são recrutados apenas aos 75 anos. E mais, por serem militares com uma vida inteira no passado, eles agem tanto no cotidiano das naves espaciais onde servem, quanto nos conflitos travados nos mais variados campos de batalha, de uma maneira diferente e agregadora para aquele universo. Portanto, mesmo estando em uma vida nova, tendo acesso a tecnologias além da imaginação, os personagens atuam como pessoas idosas, variando em suas personalidades, obvio, mas com comportamentos bem marcantes e empáticos ao leitor.

John Perry, por exemplo, é encantador do começo ao fim do enredo. Irônico, inteligente, sentimental, e corajoso (na medida que um ser humano normal seria), serve de excelente companhia durante a trama pra lá de imersiva proporcionada pelo autor. A maneira como ele, e outros personagens coadjuvantes, vão mudado e enfrentando os conflitos desta nova fase de suas vidas, instiga quem lê tanto quanto surpreende pelos elementos de ficção científica incutidos na narração, com grande destaque para o modo como a inteligência artificial é abordada pelos personagens. Neste ponto, a cultura dos alienígenas inimigos dos humanos ganham destaque na trama, e mudam de uma maneira inesperada do enredo.  

Quase não notei a frase na parte de trás do livro :P

Quase não notei a frase na parte de trás do livro :P

Embora esse aspecto humano seja bastante forte no enredo, ainda existe a parte militar da narração que também chama muita atenção na trama. A variedade dos inimigos enfrentados, nos mais diversos terrenos e condições, concedem um dinamismo muito bem vindo nestas cenas, e surpreendem o leitor pela qualidade e dinamismo nas descrições. Tendo clara influência de Tropas Estelares (1959), proclamada pelo próprio autor, o livro engendra assim como na obra de Heinlein um conflito humano muito forte entre, e no meio, das cenas de combate. Embora seja menos político que seu antecessor, Guerra do Velho demonstra com grande mérito que romances militaristas relacionados a Ficção Científica podem se reinventar, respeitando os clássicos, e apresentando um enredo denso, divertido e surpreendente, acima de tudo. 

Em termos gerais, Guerra do Velho (Editora Aleph, 2016) promove em quem lê uma imersão muito bem vinda não apenas num enredo fluido, capaz de mesclar com primazia ação, empatia e pensamento crítico. Da mesma forma que se desenvolve o conflito militar surgem questionamentos humanos bastante verossímeis, embora incutidos em metáforas providenciais e competentes em dar coerência ao enredo e ambientação. Em suma, um livro com muito potencial, repleto de significados intrínsecos e revelador para quem se dispuser a ler com um pouco mais de reflexão. 

2 Comentários

  1. DanSeven /

    massa cara, vou dar uma procurada pra comprar e ler deve ser bem legal e da um cenário bem massa pra jogar rpg

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