Literatura e opinião em um só lugar

Extraordinário

Extraordinário

abr 2, 2015

Ao iniciar uma nova leitura todo mundo busca naquelas novas e misteriosas páginas uma identificação profunda, uma espécie de sentimento mútuo capaz de ser compartilhado emocionalmente, mesmo estando leitor e enredo distantes por milhares de quilômetros, ou culturas inteiramente adversas. Por isso, romances universais continuam fazendo sucesso apesar de terem sido escritor à dezenas, ou mesmo centenas, de anos. Sua história contém algo capaz de despertar a plena identificação de quem lê, emparelhando emoções, e completando um o desejo do outro por elementos intrínsecos muitas vezes impossíveis de se explicar. Por fim, queremos apenas ler naquelas páginas cheirosas e acolhedoras algo único, grandioso, empático, que nos preencha e ensine, mesmo que tratando de temas e ações comuns ao nosso cotidiano, mas invisíveis à nossa percepção de uma realidade cinzenta e tão ocupada como é a da vida real.

Digo isso, pois neste belo livro, intitulado Extraordinário (Intrínseca), a autora R .J. Palácio soube pintar em cores amenas, singelas e emocionantes não apenas a experiência de alguém diferente aos olhos de uma sociedade plural e cruel, como a que vivemos, mas de como o ser humano em comunidade ainda pode ser surpreendente apesar de suas falhas e incertezas. Antes de prosseguir com a análise, no entanto, faz-se necessária a sinopse da obra para que, a partir dela, possamos fazer alguns questionamentos acerca da obra:

August (Auggie) Pullman nasceu com uma síndrome genética cuja sequela é uma deformidade facial, que lhe impôs diversas cirurgias e complicações médicas. Por isso ele nunca frequentou uma escola de verdade… até agora. Todo mundo sabe que é difícil ser um aluno novo, mais ainda quando se tem um rosto tão diferente. Prestes a começar o quinto ano em um colégio particular de Nova York, Auggie tem uma missão nada fácil pela frente: convencer os colegas de que, apesar da aparência incomum, ele é um menino igual aos outros. 

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Tipo de frase inspiradora que recheia as páginas do livro!

Devo confessar que antes de começar a leitura a sinopse me fez ter uma percepção errada do enredo, me levando a acreditar que trataria em sua grande maioria sobre bullying, preconceito, e outros aspectos relacionados. No entanto, o primeiro capítulo demonstrou muito bem o cerne da narração desenvolvida pela autora, indo assim bem além do simples preconceito, e posterior perseguição, à uma criança diferente do comum. Claro, isso existe na história e ganha bastante importância em determinados momentos, mas estaria mentindo se dissesse que é este elemento que vigora com mais enfase durante toda a trama. É bem definido que o conflito maior do livro se centra na ida de Auggie á escola, abandonando a proteção familiar e tendo que lidar com diferentes personalidades das várias crianças e adultos com quem terá que conviver diariamente no novo e desconhecido ambiente.

E é nesse momento que este conflito é definido pois, diferente do esperado, existe um certo receio e medo velado por parte dos alunos e professores, diante da presença de uma criança fisicamente tão diferente e perturbadora, pelo menos em um primeiro momento. Assim, ao invés de sofrer diretamente com agressões ou xingamentos, comuns ao bullying, ele sofre com a indiferença da maioria dos companheiros, o que pode ser muito pior em determinadas ocasiões. É como se a condição física do jovem aluno cria-se uma aura de receio acerca do tratamento destinado à ele pelos outros, que decidem não se envolver no fim das contas. Desta forma, demora muito, e à custo de algum sofrimento, para que Auggie angarie alguns poucos e fieis amigos. Porém, à medida que demonstra ser uma criança comum – mais simpática, engraçada, inteligente e dedicada que a maioria, na verdade -, os companheiros de escola acabam deixando o aspecto físico de lado e enxergando o interior do estranho amigo, percebendo que a aparência na maioria das vezes não condiz com a verdadeira personalidade de alguém.

R. J. Palacio lendo trecho do livro e fazendo nossos olhos suarem de emoção, snif...

R. J. Palacio lendo trecho do livro e fazendo nossos olhos suarem de emoção, snif…

Agora, nada disso seria realmente tão extraordinário se não fossem por duas coisas em minha singela opinião: primeiro, a narração em primeira pessoa, dividida em capítulos contados por diferentes personagens. Dividir a narração em pontos de vista plurais expandiu o enredo e aprofundou não somente a reação de diferentes pessoas à presença marcante de August, como também demonstrou que coisas boas e ruins ocorrem à qualquer pessoa, independente das adversidades pela qual passem. Assim, Via (irmã), Jack (Amigo), Summer (amiga), ao descreverem sua relação com o menino, expõe arquétipos de outras que o cercam, e simbolizam bem a diversidade de comportamentos e emoções tidas em uma comunidade como a escola, por exemplo.

Desta forma o enredo ganhou um quê de esférico, possibilitando ao leitor uma visão geral do tema, sendo sua jornada próxima e pessoal tanto quanto possível pela escolha do narrador. Segundo, as referências, e que escolhas acertadas hein, dona Palácio?! Fazer Auggie ser fã de Star Wars, leitor de O Hobbit e As Crônicas de Nárnia, e jogar o RPG Dungeons & Dragons, foi uma tremenda covardia nostálgica aos “velhos” jovens que leram o romance, poxa vida. E o melhor, não são referências gratuitas, usadas à esmo para angariar leitores por suas simples inclusões; ele é um pré-adolescente que cresceu na rica e multi-divulgada cultura pop americana, é claro que ele teria estes gostos – e qual adolescente americano meio nerd não as tem?! A inclusão do Facebook, de citações o Diário de um Banana, dentre outras, torna a obra uma ode ao contemporâneo e ao mesmo tempo uma retrato fiel da juventude do começo do século XXI.

Auggie e os demais narradores dão uma visão plural da história, é emoção demais minha gente.

Auggie e os demais narradores dão uma visão plural da história, é emoção demais minha gente.

Pensando sobre a real natureza do texto escrito não deixei de avaliar à todo o momento como seria maravilhoso poder trabalhar um livro como esse na escola – pois é, o pensamento de educador não me abandona, mesmo eu tendo deixado o magistério. Ora, mas não dá forma clássica, expositiva, como o professor trata o livro em geral no ambiente escolar, mas de uma forma inclusiva, participativa, tendo a visão e critica do aluno especial atenção. Isso pois, tanto a linguagem utilizada, de pura identificação, quanto os temas expostos no livro são de fundamental importância não somente ao aprendizado teórico de um jovem em formação pedagógica, mas a lapidação de um homem capaz de respeitar seus semelhantes e conviver bem em sociedade. Ao longo de toda a leitura viajei nas discussões que ele poderia proporcionar se tratado com carinho na sala de aula.

Extraordinário é um livro belo para qualquer idade, por fim. O adolescente sentirá nele uma identificação única, emocional e própria à sua realidade, pois os sentimentos ali expressos são intrínsecos à qualquer um nesta faixa etária, seja onde se viva. Quanto ao adulto, se vê ele logo revendo seus conceitos e forma de agir diante do mundo. Pois, quem já não foi criança e sofreu com alguma rejeição, ou mesmo rejeitou alguém? Ou foi cruel, amigo, injusto? A leitura, assim, remota à um retorno à infância, com memórias fortes e capazes de reformular quem somos hoje, nos redefinindo por meio de atitudes bem mais gentis e humanas.

4 Comentários

  1. O título do livro já fala por si próprio tudo o que queremos falar.
    Sua resenha ficou ótima, e muito bem detalhada.
    Abr
    Bárbara

    • Sérgio /

      Obrigado Bárbara, sempre bom ter uma mensagem de quem leu e gostou das obras resenhadas. :)

  2. Oh é muito lindo esse livro, nossa. Sutil sua análise e captou bem a essência dele, bom demais :)

    Beijos

    • Sérgio /

      Obrigado Laura! Procuro sempre captar coisas que passam despercebidas em outras resenhas, e fico feliz que venham gostando delas, pelo menos os números falam isso :)

      Beijos

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