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Exorcismo

Exorcismo

out 15, 2017

Pelo que me lembro era apenas um adolescente quando uma reportagem de televisão mostrou que o filme “O Exorcista” – que eu tinha assistido pouco tempo antes, e ficado aterrorizado, óbvio -, tinha se baseado em uma história real para ser produzido, e contava com um garoto (e não uma menina) como vítima da possessão demoníaca. O fato, e a forte impressão causa em mim pelo filme, gravaram essa reportagem na minha cabeça por anos, e ela veio à tona com mais força quando descobri, já  quase saindo da adolescência, que o longa metragem tinha um livro como base, mais precisamente o romance O Exorcista, de William Peter Blatty, escrito pouco antes do filme. O autor, pelo que consta, tentou apurar detalhes mais próximos do caso verdadeiro, porém, sua obra acabou se baseando apenas em notícias superficiais que saíram na época, e em anos posteriores ao famigerado caso.

Ocorre que o exorcismo em questão, realizado no ano de 1949, foi abafado não apenas pela família, mas também pelos padres que participaram do ritual, e pela igreja e instituições que ofereceram abrigo ao procedimento. Todavia, como em uma boa história de horror, houve um legado desse intrigante acontecimento, mais precisamente um diário escrito com os mínimos detalhes por um dos padres que acompanhou o drama do menino acometido pela possessão. A intenção dele, mais do que informar sobre o aterrorizante fato, era deixar um guia para futuros casos similares, afinal, ele e seus companheiros nessa inglória tarefa, tiveram pouquíssima ajuda e referência escrita sobre o ritual, mesmo procurando em épocas onde ele foi bastante frequente, como na Idade Média.

Livrai-nos do mal, amém!

Livrai-nos do mal, amém!

Esse registro acabou ganhando duas cópias, que foram deixadas em locais estratégicos e importantes para o caso. Um deles, cedido a uma das instituições que sediou o longo e torturante ritual, acabou – muitos anos depois -, caindo nas mãos do premiado jornalista investigativo Thomas B. Allen. Longe de ser um escritor de romances, e muito menos de horror, ele ficou fascinado pelo caso e buscou por suas conexões meios de descobrir sobre o diário do qual ouvira falar, e que relataria com precisão toda a exaustiva luta dos padres contra a entidade do mal que se apossará do corpo do jovem Robert Mannhein (nome fictício). O insólito dessa história, é que Allen acabou obtendo o valioso documento graças a ajuda do padre Halloran, que o escreverá, e pela trama do destino que proporcionou que uma das cópias fosse deslocada de onde estava, e criado uma oportunidade de aquisição pelo jornalista.

Assim, em posse do diário, o autor produziu um livro que varia de maneira constante entre a prosa literária e o texto jornalístico investigativo. O enredo de “Exorcismo” (Darkside Books, 2016) começa pouco antes da possessão, demonstrando a rotina do jovem Robert e de sua relação com uma tia, que lhe apresentou o tabuleiro ouija (que na história faz crer na existência de uma ligação entre a possessão e o objeto). A descrição do menino e de seu cotidiano sem muitas atribulações, serve de contraste com os acontecimentos bizarros que iriam invadir a vida da família pouco depois da morte repentina dessa tia. Ao que parece o apego entre os dois, e o uso do instrumento místico, serviram de base para um dos casos de exorcismo mais bem detalhados da História, segundo o próprio Vaticano.

Cuidado ao brincar com o tabuleiro ouija da contracapa, vai saber, né?

Cuidado ao brincar com o tabuleiro ouija da contracapa, vai saber, né?

Como uma prosa com forte apelo jornalístico, Thomas B. Allen seguiu o diário do padre Halloran com muita precisão e, paralelo ao drama do jovem possuído, usava linhas paralelas de enredo para aprofundar determinado personagens – no sentido de justificar suas condutas durante o ritual -, e instituições (sobretudo dos jesuítas que foram essenciais durante todo o processo de exorcismo). Desta forma, o sofrimento do garoto, da família, e dos padres que dedicaram-se ao ato, são descritos em um detalhamento poucas vezes visto em literatura. O negativo dessa apego, e do distanciamento do autor em relação a prosa literária, é que o enredo torna-se enfadonho em determinados momentos, cansando pela repetição de momentos e pouca mudança no conflito. Todavia, como fato real, a narrativa tem um apego riquíssimo e enche os olhos de quem pretende acompanhar um acontecimento verdadeiro, e sincero, sobre um drama fascinante e assustador também, sem dúvidas.

Ao contrário da trama apresentada em “O Exorcista”, aqui tivemos várias mudanças de local, especialmente, variando entre Maryland (onde o jovem morava) e St. Louis, onde a família foi buscar um maior apoio da família e da igreja. Interessante, que o enredo apresenta alguns conflitos que permearam o ritual, testando a relação institucional e empática entorno do caso sobrenatural. No caso, o autor expõe com precisão uma dualidade entre a fé católica e luterana (parte da família do jovem era desta segunda na época), e os segmentos da própria igreja católica, em especial, da jesuíta em relação as demais. No mesmo sentido, temos revelado o teste da própria família em relação ao caso, capaz de abalar e influenciar a vida de todos a sua volta.

É sempre bom garantir uma proteção a mais quando lemos esse tipo de livro

É sempre bom garantir uma proteção a mais quando lemos esse tipo de livro

Para mim, o livro apresentou uma oportunidade que suprir uma curiosidade surgida ainda na infância, e superou minhas expectativas com maestria. A forma usada por Allen para dar uma estruturara narrativa ao diário aliado aos fatos investigativos inseridos no enredo, serviu para adornar o acontecimento, clareando para o leitor muitas das atitudes e determinação dos envolvidos na ocasião. O final, dedicado a repercussão do caso, e sua grande exposição na mídia, por causa do livro/filme da década de 1970, apenas complementam uma produção competente e fiel àquilo que se propôs fazer, apresentar a verdade por trás da lenda. Portanto, se como obra literária deixa a desejar, como documento histórico e fiel aos fatos, constitui-se como um dos mais relevantes produtos dessa esfera ligada ao horror sobrenatural.

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