Literatura e opinião em um só lugar

Existe uma Literatura Feminina?!

Existe uma Literatura Feminina?!

out 25, 2017

Antes de qualquer coisa, é preciso deter-se sobre o verdadeiro significado do título desse artigo, afinal, embora ele esteja claro e não precise de maiores considerações, de qualquer forma, hoje é comum que se desvie da real intenção de um enunciado no sentido de depreciar e/ou distorcer um argumento em favor de outro, na maioria das vezes, sem fundamento ou precisão histórica ou estilística. Bom, em suma, o que quero dizer com “literatura feminina” diz respeito a uma produção ficcional literária voltada ao consumo de mulheres, em sua maioria, explorando para isso termos e situações que seriam mais da predileção desse público em específico. Tratar de uma questão assim, embora algo já bastante discutido dentro e fora das academias devotadas ao desenvolvimento das letras enquanto arte, parece ganhar um escopo cada vez mais depreciativo, muito embora, uma grande parte desse tipo de literatura esteja entre as grandes obras do cânone universal. Também é preciso esclarecer, logo de início, que o termo usado, no caso literatura feminina” não se refere a livros escritor por mulheres, e para mulheres, como veremos mais abaixo no texto.

Como já evocado acima, a literatura de cunho feminino teria como essência trabalhar questões próximas ao gosto, pretensões, e desejos da mulher dentro de um romance ficcional. Óbvio, isso não impede de forma alguma que o público feminino tenha proximidade e anseio por qualquer livro escrito ao longo dos tempo – afirmar algo desse tipo, apenas visa desmerecer o fazer literário, e comprova uma desonestidade intelectual entranhada no pensar -, porém, é muito claro que, na história da literatura, diversos autores e movimentos literários visaram a mulher como público alvo, e devotaram sua criatividade e produção para agradar essas leitoras tão vorazes.

Falar sobre uma literatura voltada ao público feminino por ser controverso

Falar sobre uma literatura voltada ao público feminino por ser controverso hoje em dia

Conforme afirma Thomas C. Foster em seu livro “Para Ler Romances como um Especialista” (Lua de Papel, 2011) desde a concepção de uma obra literária até sua produção, e posterior divulgação, o autor vida o público que pretende atingir. Por isso, muitos falham miseravelmente na aventura pelo mundo da escrita, pois tentam em suas primeiras linhas atingir um público universal, quando essa conquista é atingida tão somente pela capacidade do texto em que, mesmo sendo direcionado à um público alvo, consiga romper essa barreira e agradar leitores de todas as idades em qualquer parte do planeta. Ainda de acordo com o autor citado, ao escrever um romance, o autor tem plena consciência de cada elemento inserido ali, e não à toa, os utiliza como recursos poderosos no sentido de cativar o leitor que se espera encantar com aquela obra. 

Isso se confirma não apenas na literatura voltada ao público feminino, muito pelo contrário, qualquer texto literário é assim. Ele anseia pela conquista do gosto de determinado público, que está inserido em um contexto social, cultural, político, e econômico, bastante particular e que tem maiores condições de entender, e ter empatia, por aquele texto de maneira mais profunda e arraigada. Tomemos por exemplo os livros voltados ao público juvenil. Neles, os protagonistas estão sempre rompendo a ligação com os país, saindo de casa, e descobrindo todo um mundo novo, cheio de novos tipos, e desafiando os seus medos e desejos, passando da vida infantil para a adulta. Longe de ser um clichê, essa é a essência desse público, e, entendido pelos autores desse filão literário, atingem em cheio o gosto desses leitores. Repito, isso não impede que sejam apreciados por pessoas de outras idades, de maneira alguma. Muito menos, denigrem essa produção, apenas a caracterizam de maneira estilística.

A relação da mulher com a literatura vem sendo retratada ao longo da história da arte

A relação da mulher com a literatura vem sendo retratada ao longo da história da arte

No Brasil, um período histórico e estilístico que comprova bem os argumentos acima, é o Romantismo, movimento literário típico do século XIX, que em nossas terras ganhou, sobretudo em sua segunda fase, um direcionamento muito grande para o consumo feminino, e não poderia ser diferente. Na época, os folhetins eram a grande fonte de informação e consumo cultural do país. Nesse segundo quesito, eram responsável por publicar, em trechos diários ou semanais, capítulos de textos ficcionais de grandes nomes como José de Alencar e Joaquim Manuel de Macedo, que mais tarde seriam livros clássicos de nosso cânone literário. Na época, esses romances de folhetim eram lidos, majoritariamente, por mulheres, que determinavam o sucesso, ou não, de uma produção. Por isso, muita dessa literatura tinha como alvo o público feminino, e usava de temas, desejos, e questões – de maneira ficcional e especulativa -, voltadas a mulher como cerne de suas mensagens intrínsecas. Tanto que, existem estudos devotados a esse tipo de produção, como o conhecido “Perfis de Mulher” devotado a José de Alencar, e seus livros “Diva” (1864), “Lucíola” (1862), e “Senhora” (1875).

O grande problema em relação a essa ligação de uma literatura específica com o rótulo de feminina, diz respeito a uma depreciação feita por ignorantes – que na maioria das vezes nem leram certas obras classificadas como tal -, no sentido de intitular esse tipo de texto ficcional como algo menor, ou com menos valor, que a literatura tida como universal. Todavia, assim como em toda a literatura, conforme aponta Georges Picard em “Todo Mundo Devia Escrever” (Parábola, 2006), existem méritos, desméritos, e pretensões específicas quanto ao diálogo promovido entre autor e leitor, e, para que este seja realizado a contento, é preciso que este segundo tenha a capacidade não apenas de ler, mas também de interpretar de maneira coesa as mensagens propostas pelo escritor no texto.

A leitura feminina ultrapassa classes e se estrita dentro de uma riqueza pouco tratada nas análises atuais

A leitura feminina ultrapassa classes e se estrita dentro de uma riqueza pouco tratada

Algumas vezes, em especial na contemporaneidade, existe uma necessidade pessoal de certos indivíduos em se afirmar por meio de seus próprios gostos e necessidade, que refletem ideologias defendidas em sua esfera política e/ou cultural, como bem afirma Ana Maria Machado em seu livro de ensaios “Ponto de Fuga”. Nele, a premiada autora cita que a ideologia pode ser uma aliada da interpretação e degustação literária, mas também um entrave para a compreensão da verdadeira mensagem passada pelo texto. Assim, esse ideário pré-estabelecido (e intolerante, muitas vezes) pode nublar o diálogo entre autor e leitor, pela interferência de uma terceira pessoa nessa troca entre mensagem e compreensão, levando o entretexto para um lado totalmente contrário ao pretendido pelo escritor. Quando não pela própria incapacidade do leitor em compreende de maneira crítica o texto, acontece.

Para finaliza, peço licença para pontuar o argumento com uma experiência pessoal, ocorrida poucos dias antes da escrita desse texto. Em um debate sobre a existência, ou não, de uma literatura voltada ao público feminino, uma leitora (tomara que seja, e melhora em sua compreensão dos textos e de seus propósitos) afirmou que um texto direcionado a certo público em específico não seria literatura, mas sim uma obra técnica, em SUA OPINIÃO. O embasamento dela, mesmo exposta a todos os argumentos que levantei acima, e que são trabalhados há vários anos pela crítica literária, é desmentido apenas pela opinião pessoal, o que reforça a falta de conhecimento não apenas das próprias obras, mas da biografia e do contexto histórico que cerca a literatura em si. Afinal, como bem afirma Alfredo Bosi em sua História Concisa da Literatura Brasileira (Cultrix, 2006), a melhor forma de não compreender certa obra é retirá-la de seu tempo e contexto. Simples assim.

2 Comentários

  1. muito bom
    amei o artigo amo livros escritos por mulheres são sensíveis e maravilhosos

    • Sérgio Magalhães /

      Muito obrigado, Cláudio. Também. Aliás, percorro sem menor receio pelos estilos, independente de para quem ele foi escrito. Só se enriquece com isso.

      Abraço

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