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Eu Sou a Lenda

Eu Sou a Lenda

jul 25, 2017

Segundo afirma Stephen King, sem dúvidas um dos maiores nomes do gênero na atualidade, a literatura de horror necessita de uma constante transformação para manter-se viva e relevante. Pois bem, observando de perto do cânone relacionado a história dessa produção literária, o nome do autor americano Richard Matheson (1926-2013) surge como um importante marco para a sobrevivência do horror, em uma época em que suas possibilidades temáticas e estilísticas encontravam-se em franca decadência, graças à décadas de exploração pela famigeradas revistas “pulp”, que tiveram seu ápice entre 1920/30, e caíram em declínio no fim dos anos 1950. Nesse período, o gênero consagrado por Edgar Alan Poe sofria com uma forte rejeição causada pela fraca expressividade dos nomes envolvidos nesse tipo de publicação, concedendo ao horror um estigma de literatura “pobre” ou menor, conforme padrões da crítica naqueles tempos. No entanto, em um cenário árido e sem maiores esperanças de mudança, surgiria alguém que, sozinho, conseguiria transformar esse estigma impregnado no gênero. 

Ainda de acordo com o mestre do horror moderno, Stephen King, o autor de “Eu Sou a Lenda” (Editora Aleph, 2015) surgiu no cenário literário da época como um sopro de mudança e consistência para a produção literária produzida naquelas revistas de tão baixo custo (embora tenham uma importância inegável para o surgimento e desenvolvimento de vários autores de grande relevância para a ficção especulativa, como a ficção científica, fantasia, faroeste, romance policial, etc). Enquanto os textos relacionados ao horror, na época, se centravam na figura do monstro e como sua presença aterrorizante influenciava o sentimento dos personagens humanos, Matheson renovou essa literatura incluindo em seus enredos um marcante aspecto psicológico, em muito baseado no antigo conceito formulado por H.P. Lovecraft que diz “a emoção mais antiga e mais forte da humanidade é o medo, e o mais antigo e mais forte de todos os medos é o medo do desconhecido.”

Um livro obrigatório para quem lê e gosta do horror em literatura

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Nesse sentido, embora tenha uma produção literária extensa e significativa, “Eu Sou a Lenda”, publicado em 1954, constitui uma espécie de símbolo em relação a literatura produzida por Richard Matheson, e um marco para a renovação do horror implementado no período. Isso pois, o romance aborda elementos clássicos do gênero enquanto adiciona de forma categórica no conflito uma nova e surpreendente perspectiva narrativa e empática. O enredo do livro é bem simples, um homem chamado Robert Neville se encontra preso em sua casa, em Los Angeles, cercado por vampiros que surgiram a partir da transformação da população por um vírus letal. O drama começa poucos meses após a terrível mudança, no ano de 1976, e acaba três anos depois da tragédia social averiguada, em 1979. Porém, os acontecimentos que cercam esses anos de sobrevivência constituem a grande riqueza e renovação do gênero, tão bem implementada pelo autor na obra. 

Em suma, o livro retrata “a luta de um homem completamente isolado de outros seres humanos e preso em um ambiente ameaçador, conforme aponta o teórico Matias Clasen no ensaio “Apocalipse Vampiro: uma crítica biocultural de Eu sou a lenda. Ainda segundo o crítico, o cerne do romance está no combate a solidão e melancolia extremas enfrentadas pelo protagonista, mais do que a ameaça dos vampiros postados todas as noites do lado de fora da casa. Aliás, as investidas dos seres noturnas em direção ao abrigo de Neville são menos danosas que esses males psicológicos entranhados em sua mente durante o isolamento forçado. Aliás, de acordo com as críticas relacionadas a produção de Matheson, o tema ligado a “o indivíduo isolado em um mundo ameaçador, tentando sobreviver”, constitui um mote recorrente em sua literatura, e vem de suas próprias angústias pessoais, devido a insegurança e ansiedade que tinha no cotidiano. 

A Aleph promoveu um trabalho editorial bem interessante e digno do original

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Sobre a renovação do horror promovida pelo autor, demarcada pela obra em questão, Clasen afirma que a escrita de Matheson transportou o gênero “do terror gótico lovecraftiano e exótico para um terror mais moderno e urbano”. Na verdade, embora ainda sendo uma ficção especulativa por natureza, o estilo do autor diminuiu o efeito do cenário e dos monstros sobre a narrativa, e deu mais importância a reação do ser humano diante desses acontecimentos e locais, bem como H.P. Lovecraft havia alertado em sua citação já mencionada. E isso, concedeu a “Eu Sou a Lenda”, em particular um lugar de destaque no cânone literário universal, ainda maior dentro de seu próprio gênero. Isso, não apenas pela transformação oferecida ao horror, mas por promover também uma “explicação especulativa para o que acontece quando necessidades básicas do ser humano são suprimidas”, segundo Martin Clasen. 

Assim, vemos o protagonista, Robert Neville, em busca de algum sentido para dar prosseguimento a sua existência em um mundo que aparenta não ter mais espaço para ele. Após enfrentar seus desejos sexuais mais primitivos, ele mergulha em uma frustração intrínseca em relação a solidão, e as memórias relacionadas a filha e esposa, falecidas durante a propagação do vírus “vampiris“, segundo sua própria denominação. Interessante que a quebra na linearidade do enredo, transportando o protagonista do presente para momentos cruciais de seu passado (morte da filha, propagação do vírus, doença e falecimento da esposa, etc) vão dando maior veracidade aos sentimentos tétricos daquele homem, e aproximando suas ações as do leitor, pelo menos se inserido em um contexto tão insólito quanto o do livro.

Um autor que você precisa conhecer no horror e em literatura universal

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Embora tenha como antagonista a figura do vampiro, explorando assim um conceito já tradicional no horror, o predatório, a obra relega essas criaturas a um segundo plano, dando destaque aos conflitos e necessidades de Neville, e como ele supera as adversidades de um cenário totalmente alheio a sua existência. Portanto, partindo de uma premissa bastante simples, Matheson desenvolve uma narrativa dentro de uma nova perspectiva, rompendo com os laços do gênero sem perder sua essência criativa. Isso, sem mencionar o tom impiedoso com que é tratado o enredo, trágico e sofrido, como é a vida real. Sobre esse ponto, afirma Stephen King em seu prefácio ao livro “você está nas mãos de um escritor que não concede clemência. Ele vai exauri-lo… E quando você fechar este livro, ele vai entregar-lhe um dos maiores presentes que um escritor pode dar: ele vai deixar você querendo mais.” Não poderia conceituar melhor. 

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