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Estou Velho Demais Para Ler Fantasia?

Estou Velho Demais Para Ler Fantasia?

fev 27, 2017

Falar de fantasia em literatura, para mim, sempre consistiu em algo muito íntimo, pessoal. Afinal, foi o gênero que me aproximou do prazeroso hábito da leitura muitos anos atrás, embora de maneira tardia. Ora, foi por meio do épico “O Senhor dos Anéis” (1954), de J.R.R. Tolkien que adentrei no universo maravilhoso das histórias contadas por meio das letras. Desde então, felizmente, tenho me aventurado neste meio de maneira profissional e passional, e tido na esfera do livro, leitura, e literatura, grande parte da minha vida. Porém, minha paixão pela fantasia, e posterior mergulho no cenário da análise literária graças a minha formação educacional, tem criado em mim um debate intrínseco voltado a dedicação maior entre esse gênero, e aqueles ditos mais “sérios”, devotados a problemas e questionamentos mais profundos, e dignos de nota pela sociedade, simbolizada por meio do leitor. Ou seja, sendo um leitor maduro (eu acho) e já experimentado em diversos momentos e estilos literários do cânone universal, ainda cabem aos meus hábitos de leitura a apreciação da fantasia, um gênero historicamente mais voltado a criança/jovem, e que detém sua mensagem por meio de metáforas e/ou apego demasiado ao fantástico e o sobrenatural? 

Para responder a essa pergunta de maneira satisfatória é preciso, todavia, ponderar sobre alguns aspectos relacionados a história da fantasia como gênero literário, e usar minha experiência pessoal como um parâmetro de base para uma infinidade de leitores que se encontram na mesma situação que a minha, nesse momento de suas vidas leitoras. Afinal, por que alguém que enxerga em outros gêneros literários um aproveitamento maior em termos de fruição, vivência, e interpretação literária, ainda dedicaria seu tempo a um tipo de literatura que detém sua visão mais sobre o gosto do jovem leitor? Após ler clássicos mais densos e elaborados em diversos níveis de produção artística, a fantasia ainda é capaz de elaborar um diálogo proveitoso com esse apreciador da sexta arte? Vamos aos pontos dedicados as perguntas propostas. 

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Nárnia e suas inúmeras referências a religião e relacionamento humano

Historicamente, a fantasia é considerada um gênero novo, entretanto, derivado de produções antigas e de suma importância para o registro cultural da humanidade. Estabelecido como estilo bem definido somente na segunda metade do século XIX, tendo como marco o livro “O Poço no Fim do Mundo”, de William Morris, surgiu tendo como base conceitual as grandes sagas épicas da antiguidade (Ilíada, Odisséia, Enéida, Beowulf), os contos de fadas elaborados na tradição oral européia, e o conto gótico/fantástico desenvolvido desde o final do século XVIII. Porém, mesmo tendo grandes nomes do gênero surgidos já no começo dos século XX (J.R.R. Tolkien, C.S. Lewis, Úrsula Le Guin), foi somente com o advento e popularização das revistas pulp nos Estados Unidos e Reino Unido que a fantasia tornou-se um tipo de literatura com grande apelo popular. No entanto, sendo difundida em larga escala por títulos como a revista Weird Tales, o gênero herdou dessas publicações a marca de literatura menor (ou sub-literatura), assim como a Ficção Científica e o Horror, que também figuravam demais nessas publicações.

Vale salientar que esta “má-fama” destinada a fantasia na época, em detrimento do excelente tratamento literário destinado ao gênero por autores da geração anterior, como os já citados Tolkien, Le Guin, e Lewis, coube também ao estilo adotados pelos escritores desta fase pulp, mais dedicados ao entretenimento que a densidade hermenêutica de seus textos, ou seja, dando mais valor a ação e dinâmica do enredo que a mensagem intrínseca contida na trama. Assim, nomes como Robert E. Howard, Clark Ashton Smith e Fritz Leiber, alcançaram grande fama entre os leitores da época, no mesmo instante que permaneciam distantes da chamada “alta literatura” produzida no mesmo período. Agora, esse preconceito dedicado ao gênero, tem razões teóricas para tal? Antes de tudo, é preciso dizer que considero esta depreciação literária bastante prejudicial como um todo, muito embora, seja fato que existam obras com maior valor artístico que outras, mesmo na fantasia. Por isso, é possível responder que sim, existem razões para esse preconceito destinado ao gênero na época, principalmente, se levarmos em consideração que alguns textos de grande sucesso no momento em questão eram mais dedicados ao entretenimento puro e simples que a riqueza literária de sua composição. 

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Mesmo em ambientes fantásticos existem toques de realidade

Agora, seria correto afirmar que falta ao gênero uma riqueza em termos de mensagem e debate sobre questões importantes? Sendo bem prático, digo que não. Ora, desde sua origem não faltam exemplos de livros de fantasia que usam de sua base sobrenatural para expor questões delicadas, e tão relevantes quanto aquelas debatidas por gêneros mais aclamados pela crítica da chamada “alta literatura”. Essa característica vem desde as influências da fantasia, e unem com sabedoria e eficiência (quando bem executadas) entretenimento e riqueza hermenêutica. No entanto, muito do preconceito destinado ao gênero surge de sua própria composição literária, dedicada desde o começo a fuga da realidade e abstração dos problemas verossímeis em favor de situações imaginadas em mundos sobrenaturais, criados para dar embasamento aos conflitos das tramas propostas. Em paralelo, a Ficção Científica sofreu – e ainda sofre – do mesmo mal relacionado ao apego demasiado a especulação em detrimento da realidade. 

Ocorre que mesmo usando de uma base que usa e abusa do fantástico – seja no cenário, nos personagens, ou nos conflitos -, a fantasia nunca se absteve de tratar de temas demasiadamente humanos, e dignos de qualquer enredo verossímil. Em muitos casos, estabelecendo análises da realidade por meio do uso eficiente de metáforas e/ou alegorias, ela debateu elementos sociais de maneira tão profunda quanto outros gêneros, embora de maneira mascarada pelo véu do sobrenatural envolvido. Todavia, grande parte deste preconceito direcionado a fantasia se dá, também, pelo viés imaginativo do gênero, que é voltado em essência a abstração e fuga da realidade. Todas as nuances presente nos textos fantásticos pretendem transportar o leitor para cenários mágicos, adornados por personagens insólitos e acontecimentos anormais ao contexto social da verossimilhança. Mas, avaliando a raiz dos enredos ali inseridos, é preciso saber abstrair o mágico da mensagem, por meio de uma interpretação aguçada e lapidada por um conhecimento de mundo pertinente e amplo. 

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A fantasia muitas vezes exalta a luta do bem contra o mal de várias maneiras

Portanto, mesmo sofrendo deste preconceito literário (ainda hoje), a fantasia sabe muito bem tratar de elementos capazes de engrandecer o leitor enquanto pessoa, mesmo oferecendo um forte apelo de diversão e entretenimento. Claro, não queremos aqui equiparar o gênero a grandes romances existencialistas da humanidade, devotados a uma nuance mais psicológica das questões humanas, longe disso. Contudo, afirmar que a fantasia como um todo é rasa, e carente de debates e problemáticas capazes de desafiar a percepção leitora, não poderia estar mais longe da realidade do gênero em geral. Dito isso, posso afirmar que a fantasia pode, e deve, estar na lista de leitura de qualquer um. Ainda mais, porque a abstração do mundo e apego a diversão literária também são qualidades essenciais ao hábito de ler, e a fantasia faz isso muito bem, aliado ao trato de temas tipicamente humanos, e sociais. Para um leitor atento, e experimentado, a percepção e interpretação sobre o texto fantástico serão capazes de atentar para elementos capazes de divertir e instigar a leitura imersiva da fantasia. 

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