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Entrevista: Vitto Graziano

Entrevista: Vitto Graziano

abr 18, 2017

Vitto Graziano estreou em literatura com um romance policial com fortes toques de thriller político “Bella Máfia” (2016), publicado pela Luva Editora, também de sua propriedade. Mesmo com pouco tempo de mercado, tanto sua obra quanto a editora tem ganhado destaque, e lançado uma série de livros de muita qualidade gráfica e textual. Confira abaixo um pouco da faceta de autor e editor de Grazziano.

Baião de Letras: O autor é antes de tudo um grande leitor. Alguém apaixonado pelo desbravar de novos cenários, emoções, conflitos. Sabendo disso, quais os livros e/ou escritores lhe tornaram leitor e, tempos depois, suscitou em você o desejo de escrever suas próprias histórias?

Vitto Graziano: A Coleção Vagalume foi a minha porta de entrada. Acho que boa parte dos leitores contemporâneos deve sua existência a essa coleção, embora tenham uns livros do Marcos Rey que me marcaram muito: A Gincana da Morte, por exemplo. Alguns anos mais tarde, comecei a ler as obras do Mário Puzo, e descobri qual era o meu gênero literário predileto.  Oscar Wilde também foi de suma importância, pois aprendi a ser mais sarcástico e irônico.

BL: Bella Máfia (Luva Editora, 2016), seu romance de estreia, apresenta um thriller político que flerta com o romance policial de uma maneira original e particular, inclusive, na construção do enredo e divisão na narrativa em partes complementares. Como foi concebida a trama do livro, e por que a escolha pelo gênero cultivado nele?

VG: Como disse anteriormente, as obras de Mário Puzo me trouxeram para esse mundo. Além disso, também sou de família italiana e adorador de filmes da máfia, embora não goste muito do salvo conduto que O Poderoso Chefão criou ao “glamourizar” a máfia. Contudo, acredito que a minha maior inspiração foi o Brazil, com Z, aquele que serve aos interesses estrangeiros. Sem dúvidas, esse país ficcional é minha a maior fonte de inspiração. Sabe… Desde muito novo tive contato com pessoas envolvidas com o Jogo do Bicho, e, mais tarde fui conhecendo outros tipos de criminosos. Mas, diferentemente desses, não recebiam tal alcunha, pelo contrário, eram vistos como exemplos de sucesso e superação, algo que sempre me causou muito incômodo. Essa insatisfação foi evoluindo e com o aprimorar dos meus estudos, resolvi escrever uma mensagem para o leitor.

A "fauna" que desfila pelo sangrento enredo de Bella Máfia

A “fauna” que desfila pelo sangrento enredo de Bella Máfia

BL: Ainda sobre o livro, embora uma ficção contemporânea, ele se aproxima de forma visceral da realidade não apenas no cenário onde se passa o enredo, Rio de Janeiro, mas das grandes capitais brasileiras como um todo. Visto isso, até que pondo o verossímil enriqueceu, ou não, a construção de sua narrativa e ambiente na obra?

VG: Tudo, infelizmente. Para ser bem franco, gostaria de não ter material suficiente em meu país, ou em lugar algum no mundo. Pois é a partir dessa desigualdade social programada, que surgem as mais variadas mazelas que tanto assombram a nossa convivência como sociedade.

BL: Falando agora sobre o processo de composição, gostaria de saber como se dá sua rotina de escrita, especialmente, no caso de um romance mais longo, como é Bella Máfia, que, inclusive, já abre possibilidade para novos livros no mesmo cenário?

VG: O mais importante para um autor é a leitura, sem duvidas. Mas, depois diria, dependendo do gênero, que é a vivência. Demorei quase dez anos para acabar esse maldito livro, mas consegui criar uma técnica de escrita que agora me permite criar a sequencia em até um ano. Durante esse período escrevi quase todos os dias… São 388 páginas, antes 700, de informações densas e muita pesquisa. Contudo, esse leque de opções, criado na década passada, me possibilitou ser um indivíduo muito visual e boa parte das minhas inspirações surgem do cotidiano e de filmes. Outra coisa que sempre gostei foi a pesquisa de campo, me infiltrar e entender a mecânica das coisas. Eu sou suburbano, moro numa área não muito amistosa do Rio de Janeiro, e numa simples saída de bar já ouvi conversar bem atípicas. Então, criei disso um hábito e comecei a frequentar os mais distintos locais. Inclusive, trabalhei em algumas instituições, apenas com o intuito de saber a lógica daquelas engrenagens.  

Salvador Lavezzo estilhaçando o enredo em Bella Mafia

Salvador Lavezzo estilhaçando o enredo em Bella Mafia

BL: Hoje, o mercado editorial brasileiro se encontra dentro de uma realidade toda sua, cercado por suas próprias nuances, sejam elas benéficas ou não. Como um autor estreante nesse meio, quais eram seus anseios antes de publicar nesse cenário? E quantos dos seus conceitos mudaram após entrar nele?

VG: Nunca me preocupei, afinal, alguém escreveria Bella Máfia preocupado com um mercado que enaltece o estrangeiro em detrimento dos escritores nacionais? Até os nacionais preferem falar do exterior, mesmo o Brasil sendo multiétnico e multicultural… Quantos países existem dentro do Brasil? Não estou falando de quantos cabem, mas quantos existem… Os quatro estados do sudeste são totalmente distintos, mesmo tendo as duas maiores metrópoles do país… O Amazonas, comparado ao Rio Grande do Norte… O material aqui é vasto, mas as editoras são empresas como outra qualquer e visam o lucro de seu negócio.  Algumas ainda apostam em nichos, mas quase nenhuma delas investe no nacional e quando o fazem, é para tirar um trocado do autor iniciante… Passei dois anos buscando editoras para o Bella Máfia, mas todas os aceites eram condicionados a valores absurdos… Nenhum “tradicional” teria o interesse de lançar algo tão crítico, então acabei sendo obrigado a criar a minha… Acabou que deu certo, e hoje ofereço esses serviços por um preço justo e de qualidade… Você é testemunha.

BL: Falando em entrar no mercado editorial, você também está a frente da Luva Editora, que publicou seu romance de estréia. Vendo agora como editor, qual sua visão sobre esse cenário? Existem boas possibilidades para editoras pequenas/independentes no atual comércio livreiro no Brasil?

VG: Não vejo uma solução viável além do auto-investimento. As pequenas editoras precisam fortalecer suas lojas e contatos com sebos, bancas, pequenas livrarias e comércio digital, pois o que as livrarias cobram é extorsão. Além da média de 55% do preço de capa, ainda somos obrigados a deixar mais de mil reais por mês para os distribuidores, então, acaba inviabilizando que as pequenas cheguem até as prateleiras… Os próprios lançamentos são negociados com 50% do preço de capa. É por essa razão que prefiro fazer num pub ou bistrô, pois além de manter os 100% ainda tomo uma cerveja e passo horas com meus amigos e leitores.

A Luva surgiu no mercado com um bom livro e edição à altura

A Luva surgiu no mercado com um bom livro e edição à altura

BL: Uma das polêmicas mais enraizadas em nosso mercado editorial, diz respeito a um suposto preconceito do leitor brasileiro para com autores de seu próprio país, principalmente, os contemporâneos. Como alguém recém ingresso nesse meio como autor, qual a sua opinião sobre essa máxima?

VG: Acho que os blogueiros são parceiros fundamentais para quebrar esse pré-conceito de certos leitores… Eu mesmo só lia coisa de fora, mas a partir do momento que decidi lançar um livro, achei que seria coerente ler meus conterrâneos… Acho que falta um pouco disso em algumas pessoas. Contudo, muito além do domínio estrangeiro nas estantes, também existe o domínio das classes mais abastadas. Aqui, no Brasil, é muito difícil ser um escritor suburbano, muito mais se for negro, pior se for mulher, quase impossível ser for uma mulher-trans negra e periférica… Acho que só conheço a Amara Moira. Literatura não é hobby de pobre, pois o “rico” não consegue estabelecer essa linha de diálogo… Quantos escritores tem a mesma capacidade de se comunicar com as massas como um Ferréz? Acho que essa elitização e estrangeirismo nas estantes é um problema sério e que tem a origem em si. 

BL: Tratando do futuro, quais os planos de Vitto Graziano enquanto autor e dono de editora? E, fechando, agradeço, imensamente todo o apoio para com o Baião de Letras, e desejo todo o sucesso em sua empreitada literária!

VG: Eu que agradeço pela resenha maravilhosa e profissional. Sobre o autor Vitto Graziano, acredito que devo lançar, até meados de 2017, a continuação direta Bella Máfia: Rio em Guerra. Esse livro será uma das coisas mais loucas que você já viu, tanto o enredo como a própria diagramação do livro. Pode anotar.

Sobre a Editora Luva, espero que a gente dê continuidade a essa projeto maravilhoso e acessível. Também espero lançar uma antologia 100% gratuita ainda esse ano e também alguns projetos sociais de fomento a literatura na Baixada Fluminense. Hoje, estamos caminhando para o nosso sétimo autor e, até então, só ouvimos elogios a respeito do o processo de produção e produto final.  Quem quiser conhecer um pouco mais sobre a editora, é só buscar pelo site da Luva Editora e conferir nosso acervo, lançamentos, e novidades.

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