Literatura e opinião em um só lugar

Entrevista: Fábio Mourajh

Entrevista: Fábio Mourajh

set 18, 2016

O autor cearense Fábio Mourajh estreou no mercado editorial com o livro Decrépitos, publicado pela Chiado Editora, de Portugal, e vem conquistando importantes espaços de divulgação, e números expressivos de vendas em diversos canais país afora. Unindo fantasia, conceitos cristãos, e uma boa dose de pós-apocalipse, o livro tem sido destaque também entre os blogs literários, que vem enaltecendo a boa escrita, ritmo, e originalidade do enredo. Confira na entrevista abaixo mais detalhes sobre a obra, processo criativo, e visão do autor sobre o atual mercado literário nacional. 

Baião de Letras: Decrépitos (Chiado Editora, 2016) é seu livro de estréia. Como autor iniciante, como você percebeu a receptividade do mercado em relação a sua posição como estreante no meio editorial, e como o público vem recebendo o livro, sendo ele publicado por uma editora estrangeira (Portugal) e fora dos selos mais procurados nas livrarias? 

Fábio Mourajh: O mercado está pegando fogo na minha opinião. A impressão que eu tenho é que o brasileiro vem descobrindo o livro e principalmente o gosto por conhecer histórias. O que mais vem me encantando por exemplo, é que grande parte dos meus leitores nunca leram um livro antes e mesmo assim devoram as quase 500 páginas em poucos dias (acredite, isso não é merchant). Tenho recebido esse retorno e como esse mesmo público multiplica tudo muito rapidamente pelas redes sociais, acabo sendo procurado por editoras nacionais também agora. Quanto a receptiva do público a um livro de uma editora estrangeira, o que posso dizer é que gera mais um sentimento positivo, pois as pessoas logo percebem a qualidade do material. Sempre me perguntam como eu consegui ser publicado por uma editora tão grande. Acho que é mais um fator que gera curiosidade.

BL: Seu livro de estréia, Decrépitos, possui um estilo, ritmo e cenário bem próprios e que prendem demais a atenção leitora, justamente, por sua diferença conceitual em relação a outras obras do gênero fantástico. Como pai da criação, o que poderia nos revelar a mais sobre a essência desse livro? Sem revelar detalhes reveladores do enredo, óbvio!

FM: Olha, confesso que receber das pessoas e ainda mais de você que é uma pessoa que eu respeito muito a opinião que meu livro tem esse ponto a se observar, é antes de tudo uma grade satisfação. Me preocupa as vezes quando uma pessoa me pergunta sobre do que se trata o livro. Sendo ainda mais claro, fico assustado como o mercado procura dar tudo tão mastigadinho para o leitor. Outro dia li a sinopse de um livro e ao terminar percebi que já sabia a história toda. O que vou acrescentar então a essa pessoa? Eu diria que o que tenho a oferecer em minha obra é a oportunidade de pessoas leigas se envolverem com conceitos de várias áreas de conhecimento. Estou falando de genética, geopolítica, religião, astrofísica, filosofia que se fundem não dentro da história, mas dentro do próprio leitor. As diversas possibilidades que o livro remete nascem lá, mas se desenvolve dentro do próprio leitor, e isso me permite experimentar novos elementos, sensações e aquele sentimento de “Não sei o que é isso, mas estou gostando”.

Fábio Mourajh desvendando o obscuro mundo do mercado editorial brasileiro na Bienal de São Paulo

Fábio Mourajh desvendando o obscuro mundo do mercado editorial brasileiro na Bienal de São Paulo

BL: E sobre seu processo criativo, poderia nos falar um pouco sobre seus hábitos de escrita? E hoje, após o primeiro livro publicado, você mudaria algo nesse maneirismo produtivo?

FM: Bom, meu processo criativo creio que seja um dos mais difíceis porque não escrevo o que acho bom. Escrevo quando estou possuído pela história. Eu sempre levo dois dias para conseguir digitar qualquer coisa no word (não sou da escola Stehpen King de produção). Eu começo sempre relendo o que já escrevi. Isso me ajuda e imergir no sentimento que devo seguir por toda história. Costumo andar de um lado para o outro do quarto conversando com os meus personagens. Me transformando neles. Até acho algo fácil, mas tenho que estar bem preparado psicologicamente porque são muitos indivíduos, cada um com seus anseios e suas personalidades distintas. Se posso dizer se mudaria isso é que já mudei. Por mais prazeroso que seja, e de conseguir grandes coisas é que esse processo é bem cruel com a minha psique. Já fiquei muito mal psicologicamente após escrever um capítulo. Os capítulos 8 e 9 do livro foram terríveis por exemplo. Minha próxima obra por exemplo se centraliza em apenas um personagem. Tenho me divertido mais assim, me cansado menos. Assim corro menos riscos de ter um derrame kkkkkkkkkkkk

BL: Partindo para outro viés literário, é notório que todo escritor tem por trás de si uma forte personalidade leitora. No seu caso, como se formou o Fábio Mourajh leitor, e quais obras foram fundamentais para incutir em você o hábito pela leitura e, especialmente, a vontade de escrever suas próprias histórias?

FM: Minha família é o grande X da questão. Todos sempre gostaram de contar histórias. Se eu perguntar para minha mãe onde está o controle da televisão, ele me conta tudo que aconteceu no dia dela até chegar onde ela deixou o controle. Assim sendo, fui criando num ambiente em que o contexto de tudo sempre pareceu mais importante do que os fatos em si. Me lembro de meu padrinho me pôr no colo e ler os jornais para mim quando eu era bem criança. Quando o muro de Berlim caiu eu estava assistindo Tv com ele e ele me disse “Fabinho… O mundo nunca mais será como antes” Aquilo não saiu da minha cabeça, eu não sabia que importância tinha em derrubar um muro, mas sabia que significava algo. Mais do que amar ler, eu amo entender o “porquê” as coisas acontecem, descobrir algo novo e assim eu leio tudo, assisto e ouço tudo que posso. Para mim até bula de remédio é literatura.

Sobre as obras que me trouxeram para leitura de livros o primeiro livro que adorei foi Senhora de José de Alencar. Foi o primeiro livro que comprei quando tinha 13 anos. Antes disso já lia muitos quadrinhos. Li sem muito interesse os clássicos na escola e confesso que houve um certo hiato até que descobri a literatura fantástica. Decrépitos nasceu numa madrugada em que eu havia terminado de ler Crônicas do mundo Emerso da autora italiana Lícia Troisi. Fiquei encantado com a obra. Após terminar o terceiro livro, me sentindo um órfão peguei um caderninho e escrevi a primeira frase “O beco era escuro e sem saída…” Depois disso eu estava em Eva.

Foto: Guilda dos Mundos

Passagem do autor por São Paulo (Foto: Guilda dos Mundos)

BL: Você é leitor de fantasia, entretanto, os conceitos adicionados em Decrépitos são bem diferentes das nuances clássicas relacionadas ao gênero citado. Visto isso, de onde vieram as inspirações para o cenário, personagens, e conceitos incluídos na obra em si, e até onde a fantasia foi importante para a composição dele?

FM: Eu tenho certas ressalvas sobre essa questão das regras que se criaram sobre a literatura. Eu nem poderia me considerar um escritor de fantasia. Eu tenho como grande referência a genial Ursula K. Le Guin que se diz não uma escritora de Ficção, mas ama autora de uma realidade maior. Sinceramente não sei o que acontece em Decrépitos que não acontece em nosso mundo. É uma nova ordem dos fatos e quebra de algumas regras que o nosso conhecimento hoje possui, mas e daí? O que é real? Tudo que mais impacta em decrépitos passa longe de ser sua estética e sim o seu contexto de segregação e discussão sobre o que é de fato real. A fé é uma criação social pura e simplesmente? A ciência pode ser usada de maneira a não levar em conta aspectos morais? Onde começa uma e termina a outra? Esses são os nossos dilemas do dia a dia. Não é a luta do bem contra o mal, mas a procura por uma identidade. Afinal… O que é ser humano? To be or not to be? That is the question…

BL: Sua obra chamou atenção da mídia, além da evidente qualidade e empenho na divulgação, por você possuir a Síndrome de Asperger. No que isso influenciou sua atuação como escritor?

FM: Ser asperger me permite ter certas habilidades, uma delas é ter uma boa memória e também ter acredito eu, uma visão mais singular das coisas da vida. Existe uma habilidade dentro do autismo que se chama hiperfoco. É a nossa capacidade de nos concentrarmos em algo com mais eficiência do que as pessoas normais. Isso obviamente me dá algumas vantagens sobre não me perder durante as diversas tramas que acontecem em meus livros. Se você pensar. Aqueles personagens que se manifestam no final do livro com suas verdadeiras pretensões não movimentam a história. Eles não são vilões que estão levando os heróis a construírem suas tramas. Se eles não existissem ainda assim haveria um contexto. E isso é uma coisa que o hiperfoco me permite ter. Eu conheço cada pessoa que mora em cada casa de todos os distritos de Adão e Eva. Sei o que tem para almoçar na casa deles. Nem todos têm nomes, mas todos têm sobrenomes já feitos. Sei todos os livros que estão na biblioteca do Castelo do Dragão e criei a concepção de poder de cada um dos elevados e decrépitos. No livro 2 Eva é o ponto focal da trama e aí muitas dessas informações poderão ser apresentadas com mais riqueza. É isso…

Autor autografando exemplar de Decrépitos durante lançamento em Fortaleza

Autor autografando exemplar de Decrépitos durante lançamento em Fortaleza

BL: Pelo que tenho acompanhado, você vem participando constantemente de eventos de grande relevância, como a Bienal do Livro de São Paulo, por exemplo, e, além isso, tendo contato recorrente com outros autores, blogueiros literários, editores, e pessoas influentes no mercado. Visto isso, qual sua visão geral sobre o cenário editorial brasileiro? No que ele ainda poderia melhorar, especialmente, no tocante a publicação de mais autores nacionais?

FM: Se eu pudesse definir minha carreira de 2 meses de livro lançado é que parece conto de fadas kkkk. O livro tem sido muito bem aceito pelo público, tem vendido bem (bem mesmo), já pode ser comprado nas livrarias e tenho recebido críticas fantásticas como a do Baião de letras, Dedos de Tinta e Independência ou Sorte. Em São Paulo eu vivi uma coisa completamente nova que foi ter um evento exclusivo de fãs só para mim além de ter os livros esgotados na Bienal. O que dizer de tudo isso?

Quanto o cenário esse é um ponto muito delicado. Eu vejo as coisas da seguinte maneira. Estamos produzindo como artesãos, mas querendo resultados de multinacionais. Existe uma relação que vem se estabelecendo quase como predatória. Público existe e cada dia cresce mais. Porém o grande problema do mercado como um todo é a necessidade de conseguir resultados em curtíssimo prazo. Já ouvi escritores usarem da desculpa de que seu livro acabou tendo problemas porque ele escreveu o livro inteiro em 3 semanas? Por quê? Qual a necessidade de escrever um livro a essa velocidade? E ainda reclama de não ser valorizado. Vejo as pessoas incomodadas com o fato do George R. R. Martin não entregar ainda sua continuação de Crônicas de Gelo e Fogo. Por quê? Será se a rapidez é mais importante do que a qualidade em si? Existe gente muito boa. Gente de talento, mas que as vezes se perde achando que o fato de seu livro não estar nas livrarias é uma tragédia. Se não está nas livrarias então você vende pela internet, faz feirinha participa de eventos. E se perguntarem se é culpa das editoras a resposta é que sim, mas e ai? Vamos esperar a boa vontade delas? Isso é complicado porque gera a maioria dos problemas do meio. Existe sim a velha inveja. Alguns autores não entendem nem aceitam que seus livros sejam preteridos a outros de gênero popular ou de qualidade duvidosa. A grande polêmica da Bienal foi o fenômeno dos livros de youtubers. Eu acho que não me compete definir quem vende livro, isso quem faz é o leitor. Se ele quer ler história de youtuber ele deve ler, e eu enquanto isso valorizo aqueles que me leem e prestigiam.

Rapidamente Decrépitos vem conquistando seu espaço no mercado nacional pela qualidade e empenho do autor na divulgação

A obra que vem conquistando seu merecido espaço (Foto: Guilda dos Mundos)

BL: Quanto a divulgação do livro, sei que você está envolvido diretamente em grande parte deste trabalho relacionado a obra. Diante disso, como avalia o espaço e acolhimento dos meios de divulgação literária no Brasil, tanto oficiais (jornais, portais de notícias, televisões) quanto os blogs/sites/canais dedicados a literatura? 

FM: Sabe… Não poderia falar por outros autores exatamente, mas para mim o Brasil é o paraíso na questão de existir espaço para a literatura (sei que quando alguém ler esse tipo de coisa vai querer jogar pedra em mim), mas é impressionante o número de convites que recebo para participar de eventos e dar entrevistas. Sai do meu emprego antigo e hoje estou dedicado exclusivamente a literatura e mesmo assim já não consigo dar conta de tudo. Tenho fechado muitas parcerias e logo logo terei novidades para mostrar. Para você ter uma dimensão simples, a matéria sobre mim do jornal Tribuna do Ceará teve em um mês, mais de 10 mil reações. Foi a matéria mais comentada no mês de Junho. O problema é que você tem que correr atrás. Se dedicar mesmo. Eu recebo sempre dos blogueiros que resenham meu livro ou fazem entrevistas comigo e os números de visualizações é impressionante. Acho que a minha única ressalva é a TV. Eu acho que as pessoas ainda têm essa visão de que o que aparece na TV é sucesso. A verdade é que praticamente tudo da TV é paga, até mesmo matérias jornalísticas e entrevistas. Então quem pensa nessa mídia como divulgação esqueça. Se foque nas outras que consequentemente a TV vai se interessar.

BL: Sei que você já está escrevendo outros livros, inclusive, a continuação de Decrépitos. O que poderia nos falar sobre esses futuros trabalhos?

FM: Acho que o que posso dizer é que vocês terão obras mais maduras. Apesar das críticas positivas sobre Decrépitos eu só posso dizer que ainda não estou satisfeito. Tenho me aprimorado. Estudado muito e me desenvolvendo. O que posso dizer é que ano que vem sai o livro 2 da saga decrépitos intitulado Elevados. Existem outros livros que estou escrevendo, mas esses estão ainda sem editoras definidas já que estou em negociações. Mas a pretensão é de produzir de 1 a 2 livros por ano. Também tenho propostas para adaptar decrépitos para outras mídias. Por enquanto um jogo de RPG está sendo desenvolvido e quem sabe um jogo para vídeo game. Nada certo. Mas temos adiantado as conversas sobre algo assim.

BL: Fábio, agradeço demais pela entrevista. Desejo todo o sucesso com o livro e a carreira. Gostaria que você deixasse suas considerações finais.

FM: Quero agradecer o espaço. Quero agradecer a você Sérgio pelo excelente trabalho à frente do Baião. Acho que seu trabalho é notoriamente o mais completo e informativo hoje feito no país e que você deveria ter no seu recém inaugurado canal um quadro de debate sobre a literatura em si. Que tal? Sim sou fã então sei tudo que está rolando, hehehehe. Aos que me acompanham eu só tenho a dizer muito obrigado. Um forte abraço!

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