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Entrando na Guerra dos Tronos!

Entrando na Guerra dos Tronos!

jun 17, 2016

Se você está lendo este artigo deve estar pensando “ah, mas vão falar mais ainda de Guerra dos Tronos? Já sei tudo que deveria sobre os livros e a série!” Pois é, vamos!! Como ignorar esta obra que é, com justiça, apontada como a grande saga épica de nosso tempo, estando em igualdade com a obra imortal de Tolkien? Já viram que vai ter polêmica por aqui, mas esta vai ser, como tudo nesta coluna, uma questão de opinião. Além disso, este post não tem a pretensão de ser um tratado teórico, nem de spoilers sobre nenhuma das produções relacionadas à franquia; mas sim uma visão sobre todas as inovações trazidas por esta saga em relação ao gênero fantasia; em especial ao High Fantasy.

Também resolvi tratar desta obra singular de George R.R. Martin após perceber que alguns amigos, e leitores pelas redes sociais afora, vem sendo afastadas dos livros pela superexposição da qual os livros vem sendo expostos diariamente cultura pop afora. Na verdade, ter uma obra divulgada em larga escala não é, de maneira alguma, algo negativo – muito pelo contrário. No entanto, é incrível como escutamos, em determinados casos, absurdos em relação aos livros, certamente, de quem nem leu, mas que, empolgados pelo momento, maculam o enredo fantástico criado por Martin. Nem é difícil perceber em fóruns, blogs e sites especializados, ou não, em literatura de fantasia, que muitos leitores não leem simplesmente pelo fato da saga estar em evidência. Mas, como já citamos, o maior mérito desta produção é sua diferença em relação á obras de fantasia tradicionais. Desta forma, vamos tratar disso tudo mais adiante, certo?

Um herói de espada, lobo gigante, e um mundo fantástico repleto de novos tons...

Um herói de espada, lobo gigante, e um mundo fantástico repleto de novos tons…

As Crônicas de Gelo e Fogo, obra de George R.R. Martin que deve ser composta por sete livros (já temos cinco lançados) começou á ser escrita na metade dos anos noventa – isso mesmo – embora só tenha estourado como fenômeno literário por aqui há pouquíssimo tempo. À primeira vista, o enredo criado por Martin poderia, sem maiores problemas, se encaixar dentro do subgênero da fantasia nomeado High Fantasy, como já citamos. Nesse estilo de escrita temos a construção de um mundo complexo, permeado por uma história, geografia e leis próprias, coerentes dentro da realidade moldada e que permeiam as aventuras de personagens cativantes, e que se desenvolvem causando grandes reviravoltas na ordem vigente do cenário – criado pelo autor para seu mundo particular. Olhando desta forma, podemos muito bem equiparar Westeros com a Terra Média de Tolkien, ou Nárnia de C.S. Lewis – nomes de maior representatividade em se tratando do subgênero abordado.

Porém, o que mais aproxima a obra de Martin da alta fantasia, é a que mais a afasta no fim. Da mesma forma que seus famosos antecessores, o autor de Guerra dos Tronos construiu um mundo rico, pleno de povos e costumes das mais variadas ordens, e coerentes com sua própria história e tradição. Essos (o mundo em As Crônicas de Gelo e Fogo), e Westeros (continente principal no enredo dos primeiros livros) são terras tão ricas em passado, que envolvem qualquer leitor logo nas primeiras linhas – função essencial no subgênero adotado. Foi nesta construção de cenário que, em primeiro momento, Martin diferenciou sua saga das anteriores. Nela, a magia foi exposta como algo distante, passado, pertencente á contos de fadas e causos de velhos servos.

A cavalaria serviu de base marcante ao universo criado por Martin

A cavalaria serviu de base marcante ao universo criado por Martin

No inicio, mais precisamente no livro de abertura A Guerra dos Tronos, o mundo é dos humanos, não existem raças fantásticas vivendo em sociedade e harmonia com seus irmãos mais novos, os homens. Westeros é rico em contos sobre criaturas fantásticas: dragões, gigantes, fantasmas, etc. Porém, fora alguns indícios bem fracos e substanciais – repito, inicialmente, pelo menos – o sobrenatural é posto de lado no começo da narrativa em favor do charme inicial da trama: a intriga! Não podemos dizer que ao longo dos livros o fantástico não assuma seu lugar bastante forte no enredo, mas que o fato de ele ser introduzido aos poucos, e de maneira bem coerente e sincera com a descrença atual do povo, e dos personagens, só enriquece as referências da saga. Como vemos mais a frente, o fantástico acrescenta ainda mais cor ao cenário já surpreendente e imenso. Com a inserção do fantástico, final do primeiro livro e decorrer dos demais, sempre em uma crescente palpável, percebemos que as bases fundamentadas desde o começo na trama, relacionamento e drama entre os personagens, não perde espaço –pelo contrário – deixa o sobrenatural de lado em favor do posicionamento social e de classe dos envolvidos. 

O trono de ferro, maior objeto de cobiça de Westeros e motivo da famigerada Guerra dos Tronos

O trono de ferro, maior objeto de cobiça de Westeros e motivo da famigerada Guerra dos Tronos

Falando novamente sobre o charme inicial dos livros: a intriga – ou jogo dos tronos ela representa mais um aspecto que torna a obra de Martin tão particular em relação à fantasia tradicional. Como a interação entre os personagens em busca de poder, riquezas, influência, prazer, vingança, são uma constante dentro do texto, os personagens exigem um grau de complexidade tão profundo que sobressaiam em muito o maniqueísmo simples aplicado nos clássicos do High Fantasy. Mesmo os personagens leais à seus ideais, se veem conflitantes a todo momento com interesses que obstruem os deles. O bem e o mal não preenchem inteiramente o ego das pessoas em Westeros; mesmo um personagem conhecido por sua crueldade pode ter uma atitude piedosa, ou engraçada, dependendo de seu interesse particular e/ou expectativa que os outros possuem nele. Fato bem contrário ao que vemos em personagens de Tolkien, por exemplo, onde todo orc é maligno, todo elfo benévolo, todo homem honrado, e por ai vai. Não espere nas personas criadas por Martin previsibilidade, você só terá surpresas, e sustos, com isso.

Bárbaros ainda desafiam a civilização em Essos

Bárbaros ainda desafiam a civilização em Essos

Outra característica que marca profundamente a saga diz respeito à imprevisibilidade. NADA no enredo parece seguir o rumo natural das coisas. Quando o leitor já está dentro de uma zona de conforto, em que seus portos seguros parecem inabaláveis, a trama tira isso de maneira irredutível e surpreendente. O acaso reina livremente em Westeros, atuando a seu bel prazer ao longo da trajetória dos personagens. Fora isso, a questão da linguagem também é outro conceito rico, e que junto aos outros, estabelece este conjunto maravilhoso de livros. Os capítulos, nomeados com o nome dos personagens, e que apresentam a visão destes sobre os fatos que ocorrem a seu redor, em terceira pessoa, demonstram com maestria vislumbres coerentes com idades, classes sociais e situações enfrentadas. Não se assuste com palavras bem comuns à linguagem coloquial, e que estouram aqui e acolá ao longo do enredo.

Por fim, vale citar que Westeros foge da inocência de cenários clássicos de fantasia, se aproximando em diversos casos do conceito Dark Fantasy. Nesta terra cantada por Martin, a crueldade e maquinações desonrosas são armas tão, ou mais, perigosas, que as espadas. Outra cor que tinge uma obra excelente em personalidade e coerência literária.

4 Comentários

  1. Fernando Couto /

    O primeiro livro foi um verdadeiro divisor de água para ese estilo de literatura, pelos motivos que você listou muito bem no texto. Mesmo para quem assiste a série, sempre recomendo que leia oa livros. Dara uma experiencia diferente e mais profunda.

    • Sérgio Magalhães /

      Concordo. Mesmo os primeiros dois livros, que são bem parecidos com a série, proporcionam uma sensação muito diferente.

  2. Se a série é massa imagina o livro. Esperando uma promoção boa pra comprar o box e cair dentro da leitura hehehe. ótimo texto amigo, parabéns.

    • Sérgio Magalhães /

      Sempre rolam promoções ou gente vendendo por um ótimo preço, fica atento, pois vale demais a leitura 😀

      Abraço

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