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Decrépitos: Aqueles que Herdaram a Terra

Decrépitos: Aqueles que Herdaram a Terra

jul 5, 2016

Em minha humilde opinião o leitor recorrente de ficção corre uma série de riscos ao longo de sua trajetória dedicada a apreciação leitora. Deixando de lado o aspecto plural da questão, gostaria de ressaltar apenas o inevitável perigo de desgostar-se de determinado gênero, ou nicho criativo, relacionado à criação e escrita literária. Meio confuso? Esclareço melhor, quem limita por gosto, ou qualquer outra circunstância, seu repertório de leituras apenas a determinado estilo e cânone, pode ver-se em algum momento cansado de certo lugar-comum naturalmente enraizado em certas manifestações artísticas. Enalteço o fato, pois me encontro justamente neste momento de cansaço leitor relacionado a determinado gênero e/ou estilo, no caso, direcionado a fantasia e demais criações que se aproximam dela. Ora, com o sucesso editorial de obras desta lavra, houve uma invasão não apenas do mercado, mas na preferência de autores que desejam certa facilidade editorial.

Diante deste meu cansaço com livros tão parecidos em termos de cenário, personagens, enredo, conflito, arte e escrita, tenho a imensa felicidade de apreciar este “Decrépitos: Aqueles que Herdaram a Terra” (Editora Chiado, 2015), obra de estréia do jovem autor cearense Fábio Mourajh. Para quem está curioso sobre o motivo de minha admiração quanto a inovação deste livro, ele trata em essência do conflito entre seres criados artificialmente da fusão entre o humano e o alienígena. No entanto, sua concepção e desenvolvimento vai muito além disso, sendo cercada por inúmeros elementos dignos de menção. Porém, antes de tratar deles, é preciso esclarecer mais sobre a obra, desta forma, confira a sinopse oficial:   

A bela edição da editora portuguesa que surpreende pela qualidade, além da baita história...

A bela edição da editora portuguesa que surpreende pela qualidade, além da baita história…

“Em um futuro pós-apocalíptico, um vírus mortal, criado em meio à última guerra mundial, dizimou quase toda a humanidade, obrigando os sobreviventes a permanecerem protegidos dentro de cúpulas. Duas cidades se erguem então em meio a toda esta destruição: Adão, a primeira cidade e lar dos sábios e poderosos Elevados, seres com dons e poderes especiais; e Eva, a cidade da perdição, lugar onde vivem os Decrépitos seres marginais, produzidos em grande escala pelos humanos para satisfazerem todas as suas necessidades. É neste lugar que surge Loan, um jovem Decrépito que após ter seus dons despertos, acaba atraindo muita atenção com a intensidade de seu poder, inclusive dos poderosos Elevados de Adão.”

Dentre os muitos aspectos que chamam atenção pela qualidade no livro, para mim, o cenário foi o mais evidente deles. Promovendo uma bem dosada mistura entre realidade e ficção, Mourajh apresenta um futuro pra lá de interessante para a Terra, tendo como mote as consequências da ambição humana, que destruiu o planeta após uma Terceira Guerra Mundial. A maneira como o autor desenvolveu a cronologia que forma a história deste universo – apresentada de maneira gradual e capaz de instigar a mais profunda curiosidade do leitor -, se alia em totalidade com os conflitos revelados no enredo, e evidenciam uma composição de cenário madura, ampla e imersiva. O passado retomado aqui e acolá na trama, vai construindo e surpreendendo quem lê, e esclarecendo os fatores do presente tão bem explorados no foco narrativo principal. Neste sentido, o conceito relacionado ao Anticristo é o meu preferido, e o mais coerente a riqueza deste âmbito tratado. 

Elevador e Decrépitos disputam o poder em um mundo arruinado...

Elevados e Decrépitos disputam o poder em um mundo arruinado…

Todavia, partindo para um cerne mais geral sobre o livro, acredito que algo igualmente marcante em sua concepção seja relacionado ao jogo promovido pelo autor em relação aos contrastes. Bom, pensando de maneira mais ampla, é curioso perceber que os seres criador geneticamente graças aos avanços da ciência, sejam os mais apegados a religião, criados dentro de um contexto totalmente católico, e que vivem segundo os preceitos mais fervorosos desta prática – pelo menos os Elevados em Adão. Aliás, o próprio nomes das cidades sobreviventes revelam este jogo, sendo Adão a mais pura e apegada a Deus, enquanto Eva – assim como em sua manifestação religiosa -, seja corrompida e apegada aos prazeres carnais. Neste sentido, temos também a atuação dos Elevados em paralelos aos Decrépitos; seres de imenso poder, mas vistos pelos humanos de maneiras diferentes, dependendo do contexto onde sejam criados. O maior exemplo disso está em Loan, que cresce em Eva (vivendo todos os horrores proporcionados a alguém como ele na cidade), e se desenvolve em Adão, como uma figura ligada em essência ao rigor da religião. É possível perceber mais esse contraste no trecho oficial do livro sobre o personagem: 

“Descontrolado por causa dos acontecimentos que o levaram até seu despertar, Loan desenvolve seus dons de maneira perigosa, manifestando-os para punir aqueles que se colocam em seu caminho, equilibrando-se assim no limite entre o bem e o mal. Porém, os desafios e surpresas que o futuro reserva para Loan são ainda mais sombrios do que se possa imaginar, pois existe uma ameaça desconhecida que se esconde nas sombras de Adão, e é em meio a este cenário que Loan se vê dentro do olho do furacão que ameaça o que restou da civilização humana.”

Ciência e Religião se fundem no enredo marcante do livro...

Ciência e Religião se fundem no enredo marcante do livro…

Ainda no sentido dos contrastes trabalhados por Mourah, é curioso percebe como o cenário concede mais uma vez um viés sagrado ao âmbito científico. O caso mais evidente disso está no fato de nomearem como “anjo” o alienígena O.Xes, que doou material genético do qual foi possível desenvolver os Elevados/Decrépitos. Porém, mesmo um jogo de contrastes tão bem arranjado não seria de grande valia diante da ausência da qualidade em outras áreas, e nisso o autor supre muito bem as expectativas. De início, é preciso enaltecer o ritmo da obra. Dividida em três partes, ela adianta a história de uma maneira fluida e imersiva em larga escala. A escrita é eficaz em descrever apenas o suficiente para alimentar a imaginação de quem lê, ao mesmo tempo que dá margem para um desenvolvimento interessante dos personagens. Bom, falando neles, devo dizer que inexiste protagonista na trama. Isso mesmo, embora Loan seja forte candidato ao cargo, com o desenrolar do enredo os coadjuvantes iniciais vão ganhando força e evidencia, tomando para si o foco narrativo e poder de decisão na trama. 

Afora a descrição, Mourajh trabalha muito bem a raiva, o amor, devoção, dever, honra, cobiça, traição, e uma série de outros elementos que permeiam a narração. E mais, tendo um amplo leque no foco narrativo, o enredo torna-se além de mais rico, profundo e bem embasado nos sentimentos ali contidos. Ainda por cima, potencializando a empatia do leitor com este ou aquele personagem em particular. Para expressão um cenário tão vasto e complexo, o autor usa de quebras recorrentes na linha narrativa, assim, enquanto o presente desenvolve o drama de Loan (e outros personagens) em Adão, o contexto que levou a humanidade, e os Elevados, até aquele momento são trabalhados em visões do passado encaixados no ritmo da trama de maneira surpreendente.

O primeiro contato entre humano e alienígena na cronologia do livro.

O primeiro contato entre humano e alienígena na cronologia do livro.

Voltando ao tema abordado nas primeiras linhas desse texto, devo dizer que minha experiência de leitura em relação a Decrépitos: Aqueles que Herdaram a Terra, foi de apreciar algo bem escrito e construído sobre bem vindos nuances originais. Por isso, minha rápida leitura do livro foi, em muito, ocasionada por esta surpresa quanto aos aspectos inovadores do enredo, história e personagens, e curiosidade acerca desta ligação pouco usual entre ciência e religião. Agora você pode me perguntar “Mas não existe nada ruim no livro?!”, sim, existem. No entanto, não considero que sejam tão relevantes a ponto de serem mencionadas em paralelo ao positivo da obra. Sendo assim, deixo ao leitor que perceba viesses negativos segundo sua própria percepção leitora. Portanto, por tudo o que foi dito acima, recomendo demais que se dê uma chance a obra, especialmente, se assim como eu você está apegado demais ao seu lugar-comum em literatura.  

4 Comentários

  1. Fernando /

    Interessante demais o mote do livro, Sérgio. Bom ver que os autores cearenses tem demonstrado sempre maior qualidade e apuro em suas criações. Pretendo ler em breve a obra. Já ouvi falar bem dela em outros locais.

    • Leia mesmo, amigo. Garanto a qualidade da obra em vários aspectos dela. Depois me conta o que achou.

      Abraço

  2. Adorei a resenha e fiquei ainda mais com vontade de adquirir o trabalho do Fábio. Já tinha ouvido falar algumas coisas dele nas redes sociais e a maneira como o autor trabalha o mundo divulgando no seu site é muito bacana.

    Só fico um pouco chateado porque eu queria mesmo adquirir o trabalho dele e não estou conseguindo achá-lo na Amazon, Submarino e afins. Você sabe me dizer como eu conseguiria?

    Abraços e ótima resenha!!
    Paulo Vinicius

    • Sérgio Magalhães /

      Paulo o livro é vendido no site da Livraria Cultura, pode adquirir lá que, aliás, possui um excelente serviço nesse âmbito.

      Obrigado por suas palavras quanto a resenha, o livro é realmente muito bom, recomendo demais.

      Abraço :)

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