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Corações nas Sombras: Presságios de Guerra

Corações nas Sombras: Presságios de Guerra

mar 6, 2017

Dizer que a fantasia é atualmente um gênero bastante difundido, abrangente, e com grande apelo de mercado no Brasil, é quase uma redundância. Ao contrário do árido cenário percebido em décadas anteriores no país, o estilo fundamentado por William Morris, ainda na segunda metade do século XIX, e difundido mundialmente por nomes como J.R.R. Tolkien e C.S. Lewis, seguiu no país uma tendência global e conquistou não apenas as prateleiras físicas e virtuais das grandes livrarias, mas também uma legião de fãs apaixonados e consumidores vorazes desse tipo de produção literária. No contexto atual do mercado editorial, publicar uma fantasia já deixa o autor bem mais próximo de toda uma gama de leitores sedentos por novos títulos. Esse fenômeno possibilitou, em mercados onde o gênero chegou com mais força de maneira tardia, uma abertura maior para novas editoras e o surgimento de uma série de autores que antes não tinham a coragem, ou terreno fértil, para lançarem-se de forma satisfatória num meio editorial tão difícil e concorrido como o brasileiro.

Enalteço esse mérito da questão, pois a obra analisada hoje parece ser fruto direto dessa abertura direcionada ao gênero no país, muito embora, sua produção tenha uns bons anos de elaboração, segundo o próprio autor do romance, o mineiro Allan Francis. Bom, nesse caso falo de “Corações nas Sombras: Presságios de Guerra” (2016), publicado no Brasil e outros países pela portuguesa Chiado Editora. Obra de estréia do escritor, que também é advogado e nutre uma paixão pela leitura e escrita desde a pré-adolescência, o livro apresenta uma alta fantasia densa, ampla em seu enredo, e que promove uma ligação bastante surpreendente, e agradável, entre o clássico e o contemporâneo do gênero fantasia. Porém, antes de analisar mais a fundo os diversos aspectos da obra, é preciso evidenciar sua verdade, riqueza de detalhes, e dedicação ao estilo de um modo bastante particular e único. Não entendeu? Então continue lendo e compreenda. 

O começo de um grande épico de alta fantasia contemporânea

O começo de um grande épico de alta fantasia contemporânea

O enredo deste primeiro volume da série se passa em Ifíanor, um mundo enorme e dividido entre dois grandes continentes, Primas e Pallas. Logo nos primeiros capítulos, somos agraciados por uma série de trágicos acontecimentos que mudaram a estrutura física e social deste cenário, ambientando o leitor, e os personagens apresentados, num contexto dramático e com um imenso potencial épico para seus eventos futuros. Em relação aos elementos desenvolvidos pelo autor acho importante destacar o mundo fantástico criado por ele como um dos pontos chaves do texto, pois o tom dramático, clássico, e fatalista deste cenário, assim como os eventos que o dão vida, concedem logo de início um viés bem particular e imersivo ao resto do enredo. Ora, quanto mais fidedigno o contexto social, cultural, político e territorial do universo apresentado, mais fácil imergir em suas tramas, conflitos, e desafios. 

Como bem enaltece a sinopse do livro “Quando eu olhei através do passado eu finalmente compreendi o que você entenderá aos poucos. Ver a queda e extinção dos centauros por sua sede de poder foi apenas o estopim de algo maior, pois o mal que despertaram no mundo inferior (Agonia) embora selado por Círdan o elfo, desencadeou uma série de acontecimentos que narro para ti. Aquilo bastou para que Goldax o imortal que liderou os orcs por duzentos anos encontrasse um mestre que lhe prometeu libertar os orcs de seu exílio. Depois de sua derrocada, o dragão negro ressurgiu havido por poder e adoração, a ponto do rei dos dragões lhe temer.” Ainda sobre o cenário, interessante a inclusão de um mundo paralelo, conhecido como Agonia, que ameaça de maneira grave e constante a paz em Ifíanor. A relação deste local com os grandes antagonistas do enredo concedem um tom ainda mais imediato e fatalista aos conflitos que movimentam a narrativa.

Um calhamaço que resguarda um enredo cheio de magia e reviravoltas

Um calhamaço que resguarda um enredo cheio de magia e reviravoltas

E mais, “A Casa de Prata com intenções desconhecidas começou a roubar um a um os talismãs de Ifíanor. O mundo aos poucos começou a odiar os magos seus antigos benfeitores e uma mente brilhante surgiu com a finalidade de equilibrar as coisas, mas ele não sabia que seus atos acarretariam uma guerra sem fim. Então meu amor, meu confidente e meu amante, se lhe conto sobre o passado é para que você entenda o meu papel no presente e o porquê de termos nos separados. Escolhi nomear este relato de Corações nas Sombras e acredito que você entenderá o motivo.” Como bem ressalta a sinopse, o livro se divide entre uma trama maior, capaz de modificar toda a estrutura do mundo conhecido, sendo amarrada por pequenas aventuras e dramas que vão unindo as brechas do enredo a medida que avançam em seu desenvolvimento narrativo. 

O enredo adota a Alta Fantasia para endorsar suas nuances criativas, porém, sem esquecer de temperar seus conflitos e personagens, com tons mais trágicos e impiedosos, tal qual o gênero em sua fase mais contemporânea. Assim, existe uma aliança bem eficiente entre passado e futuro na trama desenvolvida por Allan Francis, concedendo ao seu texto e mundo, como já mencionado, um caráter bastante particular e único. Portanto, podem ser encontrados elfos, anões, centauros, e uma série de outras nuances tradicionais da fantasia, junto com novas raças e elementos próprios na criação do cenário proposto. Há de enaltecer-se, também, o modo como o autor dosa suas descrições com o avançar da história dos personagens e cenário. Embora seja um livro grande mesmo para os moldes do gênero (736 páginas), a forma escolhida para dar prosseguimento aos conflitos e aprimorar os tipos ali apresentados, não deixam escapar a imersão e interesse do leitor pela trama, em momento algum.  

Ifíanor e seus diversos reinos e aventuras

Ifíanor e seus diversos reinos e aventuras

Outra das qualidades do livro está na fragmentação do protagonismo da história. Ao invés de um grande herói, o autor optou por apresentar uma série de personagens de maneira capitular, ampliando de maneira inteligente e eficaz a descrição do mundo criado – afinal, cada um deles está num local diferente de Ifíanor no começo da trama -, e os dramas e motivações que impulsionam eles em busca da proteção do seu mundo contra o mal iminente. Assim, temos cada personagem surgido, e muito bem desenvolvido, buscando inicialmente um objetivo próprio, mas logo voltando sua atenção para uma ameaça maior, que planeja dominar todo o cenário apresentado. Portanto, temos um Alfris em busca de vingança, ao mesmo tempo que Selene tenta reparar uma falha ocorrida, enquanto Alásia quer provar que tem seu valor, dentre uma série de outros personagens e objetivos entrelaçados a medida que o enredo amadurece. 

Em termos gerais, fica evidente a perícia do autor ao desenvolver a trama e criar seu cenário de campanha. A fragmentação do enredo entre personagens diversos enalteceu muito a diversidade do mundo ali descrito, enriquecendo o contexto territorial e histórico de Ifíanor. Em termos de escrita, Allan Francis consegue dosar muito bem a descrição com o avanço da narrativa, como já mencionei, usando do aprofundamento dos personagens para dar prosseguimento ao enredo de forma bastante dinâmica e imersiva. Portanto, a leitura da obra se torna rápida, muito prazerosa, e encanta quem lê logo nas primeiras páginas. 

Representação de uma das gemas que movimentam o conflito da trama

Representação de uma das gemas que movimentam o conflito da trama

Todavia, existe algo negativo em relação ao livro e que fica evidente em vários momentos da leitura, mesmo para quem não costuma ser preciosista nesse quesito. Bom, falo da revisão do livro. Me incomodou em alguns momentos o uso errado de palavras, mudando o contexto da frase, além da falta de pontuação e da escrita em momentos aleatórios do enredo. Claramente um erro de revisão, esse ponto negativo acompanha todo o livro, e deve ser melhor tratado em futuras impressões. Mas, avaliando os pontos enaltecidos ao longo desta análise, não chega a atrapalhar a vivência de leitura e o bom desenvolvimento dos elementos incutidos na obra, de forma alguma. 

Por fim, este “Corações nas Sombras: Presságios de Guerra” apresenta-se como uma grata surpresa em termos de fantasia, e produção fantástica nacional. Embora seja um volume extenso e com um enredo grande e recheado de acontecimentos importantes, apenas dá início a uma história que promete ser ainda mais épica e grandiosa. O estilo adotado pelo autor ao desenvolver sua narrativa deixa no leitor uma benéfica ressaca literária, principalmente, em relação a saudade dos personagens ali descritos. Sendo assim, recomendo demais a apreciação do livro, em especial, se você tem na fantasia sua fonte de leituras primordial. 

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