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Como o RPG pode Ajudar no Processo de Escrita

Como o RPG pode Ajudar no Processo de Escrita

maio 6, 2016

Para quem não conhece de perto o famigerado RPG – Role Playing Game -, ou Jogo de Interpretação de Personagens, em tradução livre para o bom e velho português, talvez estranhe a existência de uma ligação tão intrínseca entre um jogo de aspecto lúdico e colaborativo com a literatura, algo que desde a concepção escrita à leitura final percorre um caminho deveras solitário, crítico e introspectivo. Todavia, eles estão sim muito relacionados, e conhecer as minúcias de uma partida de RPG pode ajudar não apenas na melhor compreensão leitora de determinados gêneros literários, como também pode ser fundamental para a escrita ficcional; algo comprovado, inclusive, pela recente entrada no mercado editorial de alguns jogadores de longa data que tornaram-se escritores de grande relevância em nosso cenário literário, como por exemplo: Leonel Caldela (O Inimigo do Mundo, O Caçador de Apóstolos, o Código Élfico e A Lenda de Ruff Ghanor), Eduardo Sphor (A Batalha do Apocalipse e a trilogia Filhos do Éden, e mais recentemente, André Gordirro (Os Portões do Inferno). 

No entanto, antes de tratar de maneira mais direta sobre a relação entre o jogo e a escrita ficcional, e preciso conhecer um pouco de sua história, e de como ele se desenvolveu de forma temática ao longo dos anos. Ora, como afirmei acima, o RPG possui uma relação intrínseca com a literatura, isto pois, desde sua primeira manifestação ainda na década de 70, quando foi criado por Gary Gygax e Dave Arneson com o título de Dungeons & Dragons (primeiro jogo deste tipo do mundo), ele já usava como cenário universos descritos nas obras de autores como J.R.R. Tolkien (O Hobbit e O Senhor dos Anéis) e Robert E. Howard (Conan). Para quem não conhece a estrutura do jogo (por ainda você andava?!) ele consiste basicamente em criar um mundo dentro de alguma temática ou gênero – horror, fantasia, ficção científica, etc -, e inserir aventuras em que os jogadores, simbolizados neste mundo pelos personagens que vivem no universo escolhido, viverão aventuras criadas pelo narrador, responsável por descrever detalhes do cenário e os desafios impostos aos participantes/personagens durante a sessão de jogo.    

Importante ressaltar esta ligação do narrador e jogadores com o mundo de jogo, pois ele possibilita uma aproximação bem mais próxima e participativa que a leitura em alguns momentos. Entenda, ao jogar na Terra-Média de Tolkien ou na Era Hiboriana de Howard, todos os participantes, querendo ou não, deverão conhecer e compreender melhor detalhes daquele mundo que seriam lidos nas obras literárias de maneira mais descompromissada e menos imersiva. Ao ser exposto a estes cenários pelo RPG, desde a criação do personagem, os jogadores saberão mais nuances e estruturas sociais, econômicas e culturais de um ambiente fantástico que, além de extremamente atraentes, contribuem muito para a lapidação da imaginação, quem sabe, de um futuro escritor. 

Cada personagem possui um passado, uma origem que deve ser contada tanto nos livros quanto nos jogos...

Personagens com passado, origem que deve ser contada tanto nos livros quanto nos jogos…

Pensando por esse âmbito já é possível aproximar o processo de criação de uma aventura de RPG, pelo menos em termos de cenário, com o da escrita ficcional, pois, embora use ambientações já criadas em suas narrações muitas vezes o mestre do jogo, além de sofrer influências intrínsecas daquele mundo imaginário – como ocorreu com os criadores dos primeiros RPG´s -, acaba criando diversas nuances próprias para aquele universo, tanto em termos de locais quanto de personagens coadjuvantes, novas histórias e criaturas sobrenaturais coerentes àquele cenário. E este papel criativo não se restringe ao narrador, muito pelo contrário, o jogo estimula que os participantes envolvam seus personagem com históricos passados onde eles podem criar elementos daquele mundo, dando ainda mais imersão e coerência a ambientação escolhida para jogar, ou seja, não é apenas o narrador que é beneficiado com este importante exercício criativo. 

Aliás, falando em processo de criação de personagens, sejam eles jogadores ou coadjuvantes, esta etapa do jogo de RPG se assemelha bastante a criação de arquétipos para uma ficção literária; algo certamente herdade da ligação inicial entre os dois viesses. No caso do narrador, que deve não apenas criar como interpretar todos os personagens que não os dos participantes da sessão de jogo, esta criação é ainda mais próxima, afinal, cada NPC (Non Player Character, ou personagem não jogador) deve apresentar uma série de trejeitos e atitudes, além de um histórico, muito semelhantes a idealização e desenvolvimento de um tipo presentes nos livros. Prova disso, estão nos já citados Os Portões do Inferno (Editora , 2015) e A Lenda de Ruff Ghanor (Nerd Books, 2014), onde protagonistas e coadjuvantes do enredo foram diretamente baseados em personagens dos jogadores de uma partida de RPG ou criados pelo narrador para interagir com estes durante o jogo. 

Basta um passo para começar uma nova aventura ou enredo de livro...

Basta um passo para começar uma nova aventura ou enredo de livro…

Quanto a esta proximidade conceitual e criativa entre RPG e literatura, pude constatar mais de perto durante oficina de escrita criativa do autor Pablo Vargas (Os Oito Guardiões Contra o Reino de Vostrom, e O Caminho dos Mortos) em Fortaleza. Durante a exposição sobre como se deu a concepção de seu cenário fantástico e personagens, pude encontrar diversas semelhanças com a forma como os narradores de RPG formulam estes mesmos aspectos, inclusive, simbolizados por fichas de personagem, ou seja, anotações sobre os atributos físicos, mentais e sociais dos arquétipos presentes no mundo de jogo. Sendo assim, embora não seja jogador de RPG (pelo menos não recorrente), o autor demonstrou em sua maneira de conceber os cenários, personagens e enredos, várias similaridades com o mesmo sistema usado no âmbito lúdico do jogo em questão. E não foi a última vez que percebi esta similaridade, outros autores de fantasia no Ceará em conserva particular comigo sobre literatura revelaram tanto a influência do RPG em seu processo de escrita, como certa similaridade entre as formas de criar. 

E não param por ai as similaridades entre os dois! Ora, pensando sobre a estrutura de uma sessão de jogo, torna-se bastante evidente a semelhança entre a criação de um enredo ficcional literário e uma campanha mais longa de RPG, formada por várias sessões de jogo. Sendo assim, da mesma forma que uma história precisa de conflitos, vilão, contexto histórico, aliados e reviravoltas, uma aventura do jogo em questão também. Justamente por isso, as sessões de RPG tem sido terreno fértil para a publicação de romances em diversos gêneros, com especial atenção para a fantasia, horror e ficção científica. Embora no Brasil esta ligação ainda engatinhe, como enfatizamos no artigo Romances Nacionais de RPG, em países onde esta ligação é mais antiga e madura, como Estados Unidos e Europa, estes romances florescem as centenas nas prateleiras das livrarias. 

Imagine quão rico um mundo onde um Gnomo e uma Humana são homenageados por Elfos!

Imagine quão rico um mundo onde um Gnomo e uma Humana são homenageados por Elfos!

Por fim, devemos salientar também a importância do RPG para a escrita não apenas como meio de vislumbre do processo produtivo relacionado a diversos âmbitos de uma produção lírica, mas como um potencial escape para “brancos” criativos, como intitula Eduardo Sphor em entrevista sobre o tema. Segundo ele, narrar algumas sessões do jogo pode gerar diversas ideias que podem ser convertidas em ótimas nuances de enredo para um romance literário, justamente, por ser um processo de criação colaborativo, onde as ações, influências, conhecimentos e gostos dos outros jogadores contribuem sobremaneira para o resultado final da trama ali narrada. Portanto, embora resguarde uma proximidade intrínseca entre os elementos mais essenciais do processo de escrita ficcional, o jogo ainda pode servir de “válvula de escape” para uma mente travada ao logo do desenvolvimento do enredo. Duvida? Monte um grupo, adote um cenário de campanha, construa personagens, e veja a mágica acontecer!

2 Comentários

  1. Muito bacana o post Sérgio! ^^

    • Muito obrigado. O intuito é ajudar a galera de alguma forma. Espero que tenha ajudado 🙂

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