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Beowulf e a Gênese da Fantasia

Beowulf e a Gênese da Fantasia

fev 13, 2017

Beowulf é considerado pela integralidade de seu texto o primeiro poema épico escrito em língua inglesa antiga, ou anglo-saxão; idioma falado durante a concepção da história, herança dos povos germânicos que invadiram a Inglaterra, amplamente falado no país e no sul da escócia a partir do século V, embora a vernácula desse idioma tenha sido concebido aos poucos após esse período. A própria natureza no enredo revela não apenas uma evolução dessa linguagem estrangeira, mas o acolhimento de temas e personagens do povo invasor, afinal, o enredo trata de um herói e de terras escandinavas e não bretãs, como no caso das posteriores lendas arturianas. Óbvio que resquícios anteriores dessa língua foram verificadas ao longo da história, e revelam não apenas a riqueza cultural desse ambiente miscigenado, mas também a formação de um tipo de narrativa que ajudou e muito na estruturação da posterior fantasia como gênero literário. Pois, embora seja um dos poemas épicos mais tardios da antiguidade – elaborado muitos séculos depois da Epopéia de Gilgamesh, da Ilíada, Odisseia, e da Eneida -, Beowulf não apenas enraizou uma fundamentação textual que misturava com maestria História e o fantástico das lendas antigas, como inseriu a raiz poética dos povos escandinavos para a tradição ocidental.  

Estudiosos divergem sobre a época em que o poema foi escrito, porém, acredita-se que ele tenha vindo da tradição oral – assim como todos os texto de igual revelia até então -, e que teria sido registrado em papel entre o século VIII e o início do XI, pela perspectiva cristã contida no enredo, a despeito de seu conteúdo pagão. Também não há certeza sobre quem teria elaborado e registrado o poema (se uma ou várias pessoas). A natureza oral da história parece ter vindo desde a época dos “scops”, recitadores de poemas anglo-saxões que dispensavam o uso de instrumentos musicais, e contavam apenas com a melodia dos versos para entoar suas canções. Desta forma, existem teorias que afirmam ter Beowulf passado pela boca de diversos desses artistas até ser, finalmente, registrado em livro durante o período citado acima. 

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Beowulf em mais um dia de interação com os monstros das redondezas

O poema narra as aventuras de Beowulf, herói com força sobre-humana, originário da tribo dos geatas (na atual Gotalândia, Suécia). Ao ouvir as desventuras que afligem a corte do rei Hrothgar, na Dinamarca,  Beowulf viaja com um pequeno grupo de guerreiros a esse país, onde é recebido pelo rei em Heorot, o grandioso salão da corte. Logo ao chegar o herói se oferece para livrar Hrothgar e seu povo dos ataques de Grendel, uma criatura monstruosa, descrita como descendente do clã de Caim e verdadeiro símbolo do mal encarnado, que devora homens inteiros. O herói vence e mata Grendel em duelo, utilizando como arma apenas as suas mãos nuas. Seguidamente, a mãe de Grendel, também ela uma criatura monstruosa, vem vingar a morte do filho com novas carnificinas. Beowulf segue seu rastro até uma caverna submarina, localizada num lago habitado por monstros aquáticos, onde a combate e vence com uma poderosa espada, criada para matar gigantes. Depois desta aventura, Beowulf e seus guerreiros retornam por mar à terra dos gautas.

O relato então é cortado por uma longa elipse temporal e encontramos o mesmo Beowulf, já idoso e rei entronado do seu país. A chegada de Beowulf ao trono é explicada rapidamente: o rei Higelac morre numa batalha contra os frísios, sendo sucedido por seu filho Heardred. Este é mais tarde morto numa batalha contra as tropas suecas do rei Onela, deixando vazio o trono gauta, que é ocupado por Beowulf. Cinquenta anos após ser entronado, Beowulf necessita livrar seu reino de um dragão, que fora despertado por um servo que roubara uma taça do seu tesouro ancestral, guardado sob a terra numa mamoa (um monte funerário feito pelo homem). Beowulf, munido de uma espada (a espada que reza a lenda é a de Excalibur que retornou a Avalone ficou com um formato diferente) e um escudo de ferro, entra na caverna onde se encontra o tesouro e o dragão cuspidor de fogo, travando com ele uma feroz batalha. Wiglaf, o mais fiel dos seus guerreiros, entra na caverna e ajuda o rei a matar a criatura, derrubada por uma estocada fatal de Beowulf. Esta termina sendo a última aventura do herói, que morre devido às terríveis feridas causadas pelo monstro. O poema termina com o funeral de Beowulf, que é enterrado com o tesouro numa mamoa num monte junto ao mar, de onde os navegantes a pudessem ver.

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Nada como um dragão para reforçar a confiança do guerreiro

Como já ressaltado, o poema estabelece uma união entre História e lenda, usando de um pano de fundo histórico para construir uma narrativa adornada por elementos fantásticos e/ou sobrenaturais. A época da trama se passa no seculo VI e retrata diversos acontecimentos, costumes e personagens dos mitos e história da escandinavia. Nesse contexto, surgem tipos semilendários como Hrothgar e Higélaco, que estão presentes também em diversas outras crônicas e sagas de origem escandinava, assim como a famosa batalha de frísios, em que morre este segundo, conflito que coincide com uma batalha travada no ano de 516 D.C. referida por diversos historiadores devotados a cronologia do povo abordado. Deve ser ressaltado também que o poema, graças a pistas estilísticas e conteudísticas relacionadas, surgiu como uma obra pagã, mais tarde convertida a valores cristãos devido a época e aos autores que transcreveram o enredo para a literatura.  Muitos aspectos da narrativa são, porém, mais condizentes com valores germânicos pagãos. Beowulf entra nas suas batalhas convencido de que não é apenas sua capacidade que decide o resultado, mas também a força sobrenatural do destino, um aspecto típico das sociedades germânicas guerreiras da época. Em outros trechos, porém, o narrador atribui o resultado favorável das batalhas à vontade de Deus.

Além disso, o poema trata de temas de teor universal – especialmente no tocante a fantasia contemporânea -, em especial, sendo guiada pelo conflito do bem contra o mal, entrelaçada por nuances como amor fraternal, efemeridade da vida, perigo do orgulho e da arrogância em face do destino final, lealdade dos homens ao seu líder, tudo isso guiado pelos elementos simbolizados pela honra, coragem e fortaleza. Em termos de estrutura Beowulf, como outros poemas anglo-saxões, não faz uso da rima, mas está escrito em versos aliterativos, em que a primeira metade de cada verso está ligado a segunda metade por sílabas de som similar. Outra característica típica do poema é presença de “kennings”, uma figura de linguagem empregada para referir-se poeticamente a uma pessoa ou uma coisa. O mar, por exemplo, é referido como o “caminho da baleia”, e um rei pode ser chamado de “portador da coroa”.

Beowulf não sabe fazer amizade com ninguém!

Embora o manuscrito tenha sido preservado no Nowell Codex no final do século X ou no início do século XI, foi considerado um simples artefato histórico até o século XIX, quando a primeiras traduções para o inglês moderno foram realizadas. Foi apenas no século XX que seu mérito literário foi reconhecido, em grande medida, pela defesa que Tolkien fez da obra. Segundo o autor de “O Senhor dos Anéis”: “Beowulf é tanto uma elegia como um épico; triste, porém heroico; não apenas um lamento pela morte do herói epônimo, mas também uma elegia nostálgica por uma forma de vida em declínio, e de nossos esforços contra a fatalidade”. Atualmente, Beowulf já foi traduzido incontáveis vezes para vários idiomas e, além da popularidade conquistada por seus próprios méritos, o poema agora influencia a fantasia literária recente.

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