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Ascensão e Aspectos da Fantasia Sombria

Ascensão e Aspectos da Fantasia Sombria

dez 9, 2014

Fantasia Sombria. Sim, como você inevitavelmente leu o título do Baião de hoje, já intuiu acertadamente o tema de nossa coluna. Agora é pertinente outra questão; se você acompanha, mesmo que de forma tímida e desinteressada, o mercado editorial brasileiro, já deve ter percebido como esta nomenclatura tem conquistado cada vez mais evidencia em nossas prateleiras, e em artigos relacionados à literatura, em especial, de fantasia, verdade? Certo. Agora me responda (a verdade, sim?!), você sabe do se trata em essência o gênero? O que ele realmente tem de diferença em relação ao título maior que lhe serve de inspiração, no caso a Fantasia? Bom, nosso objetivo aqui é adentrar um pouco na questão, e apontar por fim as obras que fundamentam o poder de adesão conquistado pelos títulos do gênero já traduzidos no Brasil.

Certo. Para começar devemos estabelecer logo de cara que a Fantasia Sombria NÃO É um gênero literário. Na verdade, ele é classificado como um subgênero, definido por dois outros que lhe definem por estarem em suas margens, concedendo influencia, aspectos essenciais, e definições claras. Analisando deste ponto de vista, o subgênero pode também ser classificado como fantasia especulativa, ou seja, ela, de acordo com suas definições baseadas nos gêneros que a permeiam, descreve e analisa um momento temporal e baseia seu cenário e enredo muito dentro desta definição.

Não espera sol brilhando nem flores pelo caminho em cenários desse subgênero

Não espera sol brilhando nem flores pelo caminho em cenários desse subgênero

Confuso? Explico melhor. No caso da Fantasia Sombria, ela é definida pelos gêneros Fantasia (uma extensão do gênero Maravilhoso, em que predomina o elemento sobrenatural, de acordo com a definição de Tzvetan Todorov em Introdução à Literatura Fantástica), e pelo Horror. Estando exatamente entre os dois, o subgênero adota aspectos dos dois, ganhando contornos próprios, e enriquecendo claramente os gêneros que o permeiam, assim como a experiência do leitor. Por exemplo, nesse caso em específico, o subgênero recebe da Fantasia os contornos do cenário (geralmente medievalista, focado no fantástico/sobrenatural e em elementos mitológicos), e do Horror ganha o aspecto narrativo (geralmente em primeira pessoa e em tempo psicológico), e a implementação de uma escrita que vise mais a imersão do leitor em sentimentos fortes como o medo, e o terror.

Desse ângulo, é possível afirmar que o protagonista, no caso, não necessita de uma construção mais elaborada; quanto mais raso, mais fácil a identificação do leitor com ele, facilitando assim a experiência de quem lê com os temas pesados e marcantes do subgênero. De outro ponto, o cenário, embora construído sobre o prisma da Fantasia, não é o mais importante (como no gênero citado). O que realmente importa é o personagem, e como o cenário o molda pelo sofrimento. Por isso, é comum ver-se a falta de descrições mais apuradas de cenários em Fantasia Sombria, enquanto o aspecto psicológico do protagonista é amplamente observado. Tudo isso, claro, em meio á mortes, traições, roubos, estupros, e uma série de outros atos que contestam a todo o momento a moral de quem lê.

Em termos de produção o subgênero é considerado recente em detrimento dos que o definem. A Fantasia, por exemplo, tem sua origem na escrita ainda na Grécia antiga, tendo uma história milenar. A Fantasia Sombria como subgênero data de pouco mais de 200 anos, e surgiu de forma bastante fragmentada ainda em obras clássicas de autores imortais como Alan Poe e Anne Rice – embora esses textos ainda não pudessem ser classificados dentro do estilo em questão. Outros que ajudaram fundamentalmente a formação do subgênero foram H.P Lovecraft e Clark Ashton Smith, escritores bastante prolíficos durante a rica fase da fantasia pulp durante os anos 30. É bem verdade que, ainda hoje é difícil definir uma obra como essencialmente pertencente à Fantasia Sombria.

Um típico "herói" desafiando os perigos de um mundo de fantasia sombria

Um típico “herói” desafiando os perigos de um mundo de fantasia sombria

Ocorre que, sendo permeada por dois gêneros muito fortes, é comum que uma obra seja mais ligada á um deles, e apenas pegue aspectos essenciais do outro. Mas não se engane, livros tipicamente do subgênero existem, e estão cada vez mais chegando às prateleiras brasileiras. Como afirmei no começo do Baião de hoje, é comum entre os leitores perceber a citação do subgênero tratado aqui em diversos momentos, e isso graças ao poder com que ele chegou ao país – muito devido aos verdadeiros clássicos que vem sendo traduzidos por diversas editoras nacionais. Pois é, como grande parte dos gêneros, principalmente, ligados ao universo nerd/geek, outros países possuem uma tradição literária sem comparação com a nossa. Para se ter ideia, obras consideradas tradicionais em outros países, somente agora chegam aos leitores nacionais, como algumas que citaremos mais abaixo.

Um dos exemplos mais claros destes clássicos da Fantasia Sombria que somente agora chegam ao nosso mercado é A Companhia Negra, do americano Glen Cook. Publicado originalmente em 1984 (isso mesmo!), somente em 2012 foi publicado no Brasil pela editora Record. O sucesso foi tamanho que, em poucos meses esgotou sua tiragem, e garantiu uma segunda edição. Achou pouco?! Em 2013 a editora publicou o segundo volume da saga, Sombras Eternas, e encomendou a tradução do terceiro, que deve ser lançado ainda neste primeiro semestre de 2014. Citei primeiro a obra de Cook por ser ela uma das mais respeitadas do subgênero, e considerada um marco em todo o mundo. Mas não faltam grandes livros relacionados ao estilo, e felizmente eles chegaram ao país e não prometem parar tão cedo. Elantris, de Brandon Sanderson, e outro exemplo claro desta invasão. Publicado em 2012 pela LeYa a edição nacional ganhou tratamento digno de qualquer uma já publicada lá fora. E por falar em edição competente, o que falar de Prince of Thorns, de Mark Lawrence (DarkSide Books).

"Simpáticos" coadjuvantes bem comuns em mundos sombrios

“Simpáticos” coadjuvantes bem comuns em mundos sombrios

O livro nacional é simplesmente FAN-TÁS-TI-CO. Sem dúvida uma das obras mais lindas eu já tive a oportunidade de manusear, sem dúvida. Até agora, você deve ter notado que diferentes editoras tem investido em títulos do subgênero que, pelo cronograma de lançamentos, não deve parar por ai. E para citar mais uma que decidiu investir no estilo, devemos citar O Poder da Espada (Editora Arqueiro) de Joe Abercrombie. Todas elas obras duras, cruéis, e que passam longe da fantasia maniqueísta e inocente como a cunhada pelos mestres J.R.R. Tolkien e C.S. Lewis. Neste ponto, alguns de vocês deve ter se questionado “e no Brasil, não existe uma produção relacionada ao subgênero?”. Eu respondo, sim, existe. Claro que ainda bem tímida, e buscando seu espaço. Embora alguns livros possuam aspectos bem voltados ao estilo, como O Caçador de Apóstolos (Jambô Editora) e O Código Élfico (Fantasy – Casa da Palavra), ambos de Leonel Caldela, citarei como representante mais claro a obra Necrópolis, de Douglas MCT, publicado pela Editora Draco. Muita coisa, não?

Em suma, como um subgênero de uma forma de produção escrita tão rica e plural, como é a Fantasia, é importante deixar clara a abertura do estilo para o desenvolvimento de conceitos diversos, embora orbitando sobre as nuances acima enumeradas. E mais, mesmo tendo um cânone um pouco menos que outros gêneros dentro dessa esfera produtiva, a nuance sombria da Fantasia vem ganhando cada vez mais espaço em livros de outros estilos, que não o seu. Assim, evidente saber da natureza que compõe essa produção, pois ela vem se entranhando em obras aquém dela de forma mais constante e influente.