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As Viagens de Gulliver

As Viagens de Gulliver

jan 28, 2015

As Viagens de Gulliver, clássico universal da literatura inglesa, é aquele tipo de livro que tem sua estória amplamente conhecida nos cantos mais distantes do mundo, mas pouquíssimo lido nas últimas décadas; sendo seu enredo mais divulgado em outras manifestações artísticas como o cinema, a televisão e os quadrinhos. A verdade é que a simples menção ao nome do personagem-protagonista, mesmo para a atual geração, remete logo á imagem de um gigante amarrado ao chão por um entrelaçamento de pequenas cordas, com uma multidão de humanos em versão diminuta o cercando. A verdade é que a riqueza, consistência e originalidade da criação de Jonathan Swift, permanece exercendo um fascínio raro de ser reproduzido por outras obras literárias, isso pois, sua composição é embasada por uma trama de muitas camadas, capaz de divertir a criança por suas aventuras marítimas e desbravadoras, e aos adultos, pela sutileza e cinismo da critica político-social ali inserida, de forma leve, divertida e encantadora.

Fato é que, mesmo sendo de conhecimento universal, As Viagens de Gulliver possui bem mais essência em suas páginas escritas que nas versões representadas por outras mídias, até porque, nos filmes, séries e revistas em que apareceu ao longo dos séculos, a aventura do jovem marinheiro é sempre apresentada somente até sua partida do primeiro dos quatro países visitados do inicio ao fim do enredo. Sim, embora conhecido universalmente, só o começo de sua jornada é vista fora dos livros, e isso diminui em muito tanto o entretenimento inserido na obra, quanto o conhecimento intrínseco tão bem adicionado por Swift á seu livro de maior destaque. Bom, mas antes de prosseguir com nossa análise, melhor fazer uma pequena sinopse do enredo, para situar melhor o leitor à trama da obra. Vamos lá:

Lemuel Gulliver é um intrépido jovem inglês que desde sempre quis conhecer outras terras, e se aventurar em jornadas marítimas. Para isso, usou os poucos recursos enviados pelo pai, e conquistados trabalhando como ajudante, para adquirir o máximo de conhecimento em navegação e medicina – que poderia ser útil para sua colocação em embarcações maiores. Sua predileção à atividade o levou rapidamente á integrar uma tripulação, vindo a empreender algumas viagens bem sucedidas, capazes de proporcioná-lo certa segurança financeira, e uma importante carga de leituras, realizadas nas horas livres durante as viagens. Seguro em casa com sua família é convidado então, em 1699, á embarcar em jornada aos mares do sul. Movido por seu desejo pelo mar, e por aventuras, ele aceita e durante esta viagem acaba naufragando, e conhecendo o primeiro dos estranhos países à qual viria a ter contato nos anos subsequentes.

Cara e arte interna de Sérgio Magno feita especialmente para esta edição da Martin Claret

Cara e arte interna de Sérgio Magno feita especialmente para esta edição da Martin Claret

Interessante citar que Jonathan Swift atribui a autoria do livro ao próprio protagonista, que teria enviado seus relatos de viagem à um primo distante, Richard Sympson, que após uma revisão e retirada de alguns trechos considerados “enfadonhos”, o publicou com prefácio atestando a veracidade dos acontecimentos ali narrados, em muito pela credibilidade do primo entre seus conhecidos. Embora não algo novo em literatura, a atitude do autor teria sido tomada para desviar de si o foco das críticas profundas a política, religião e sociedade inglesas, contidas ao longo do enredo. Mesmo bem disfarçadas sobre um denso véu de fantasia e metáfora, as afirmações cínicas e ácidas de Swift por meio de seus personagens, atacava diretamente o modo devida inglês, tido como arquétipo de perfeição àquela época. Sobre o fato, discorre bem Lilian Cristina Corrêa – doutora em letras pela Universidade Presbiteriana Mackenzie -, em seu artigo “Pequenos grandes mundos: Gulliver em uma aventura”, quando diz “Se consideramos a Inglaterra em meados do século XVIII teremos a imagem de um país em franca expansão e de um povo que se considerava modelo para todo o resto da humanidade. De fato, pensamentos e produções de cunho racionalista dominaram as mentes europeias nesse período conhecido como Iluminismo, quando a razão, por si mesma, era vista como o mais supremo dos poderes humanos”.

Ora, sobre o porquê da citação acima, é importante perceber que a obra, por seu caráter universal, é fruto de seu tempo e questiona de maneira profunda e sentimental o comportamento humano básico, em seu paradoxo entre racionalidade e irracionalidade, algo em evidencia no período. Isso, direcionou grande parte da produção literária da época à evidenciar esta vexatória contradição, em que os significativos avanços intelectuais da humanidade contrastavam com o grande número de guerras, e a exploração decorrente dela, presente em várias partes do mundo, em especial, nos territórios dominados pelos ingleses. Assim, foi natural a escolha pela sátira como gênero preferido para manifestar as críticas ao modelo “perfeito” da Inglaterra iluminista daquele tempo. São muitos os excelentes exemplos capazes de ilustrar esse período, estando dentre os mais conhecidos Robinson Crusoé (1719), de Daniel Defoe; Tristan Shandy (1760), de Laurence Sterne; Pamela (1740), de Samuel Richardson; e As Viagens de Gulliver (1726), maior representante desta fase literária tão rica e significativa.

Cena clássica da estória que vai muito além do já conhecido sobre as aventuras de Gulliver!

Cena clássica da estória que vai muito além do já conhecido sobre as aventuras de Gulliver!

Tão logo publicado, o livro conquistou notável sucesso de público, sendo lido por uma parcela de leitores não esperada pelo autor, os jovens! A camada aventureira da obra agradou, e muito, os jovens e propiciou uma rápida divulgação e consagração do livro na Inglaterra, e demais países da Europa. Porém, diferente das edições posteriores, a criação de Swift foi lançada em quatro volumes, sendo cada um correspondente à um dos países visitados pelo protagonista. O primeiro, responsável por descrever a ilha de Lilliput, constitui trecho mais conhecido da obra, em que o personagem chega ao país onde os habitantes são minúsculos diante do inusitado visitante. Aqui, existe uma crítica elaborada em relação aos partidos políticos, dissidências religiosas, e as disputas recorrentes entre ingleses e franceses. A vivência do personagem com a nobreza do país, serviu de recriação dos costumes distorcidos de seu próprio país de origem, a Inglaterra. No segundo trecho, o protagonista chega à Brobdingnag, uma terra onde os habitantes são imensos em relação à Gulliver. Novamente submetido à convivência com a realeza local, o texto desfere severas críticas à mediocridade da sociedade inglesa da época, assim como ao sistema de governo de seu país, repleto de vícios, e sem virtudes aparentes.  Na terceira parte, o local visitado é Laputa, uma ilha flutuante onde os moradores estão imersos de tão forma na busca por conhecimento, que abandonam o mundo real e sua vivência; uma clara crítica ao pensamento científico inútil ao desenvolvimento da humanidade. Por fim, Houyhnhnms, uma terra onde cavalos constituem uma sociedade dotada de razão e transparência.

Vale ressaltar, para quem acha ser o texto denso e difícil pela inclusão de diferentes camadas de leitura, que não poderia estar mais longe da verdade. Boa parte do caráter universal da obra foi conquistada, justamente, pela leveza e fluidez da escrita presente no enredo. A narração em primeira pessoa, um verdadeiro relato de viagens, chega a dialogar com o leitor diversas vezes, aproximando quem lê das paisagens insólitas e encantadoras descritas. Citando novamente o artigo de Cristina Corrêa sobre a obra “Concluindo, seja pela situação de aprendizado, que As Viagens de Gulliver, continua propondo às gerações de todos os tempos, seja pelas reflexões sobre a condição humana que sua crítica registra, a verdade é que continua sendo uma obra que, adaptada, tem muito a dizer para o público juvenil; e que no original tem muito a revelar para o  público adulto, no que diz respeito aos valores civilizados, burgueses, que, então, se consolidam”.

Por fim, não posso encerrar esta breve análise sem enaltecer a diversão que tive ao ler a obra. Verdade que alguns momentos foram um pouco difíceis, e enfadonhos, pelo estilo de época ali presente. Assim, o leitor atual pode estranhar a sensível diferença entre o modo do livro em relação a grande dinâmica da atual literatura destinada, em especial, aos jovens. Porém, ao todo é um enredo pra lá de divertido, cômico, interessante, imersivo, e desafiador. Uma viagem válida, e capaz de engrandecer quem se propõe a fazê-la, inevitavelmente.

9 Comentários

  1. Ariel Lannister /

    É meu caso o que você citou no começo da resenha conheço desde sempre a estória, mas nunca li, nem vi, o livro por ai. Fiquei bem interessado pelo enredo e essa edição tá bem bonita vou procurar por ai pra comprar. Valeu.

    • Leia mesmo cara, não vai se arrepender. Quanto a edição, bem prática mesmo, e em conta em investimento. Mas existem outras traduções muito boas.

  2. Laura Penteado /

    Amei o texto, tanto quanto amei o livro que li ainda na infância, presente de meu pai. Um livro essencial para qualquer leitor que ame a escrita e viagem proporcionada pelo prazer de ler :)

    Bjs

    • Bacana Laura, obrigado por compartilhar suas impressões do livro, que bom que a leitura lhe marcou, foi ótimo pra mim também.

      Beijos

  3. Ariel Lannister /

    Sérgio, comprei essa mesma edição e que livro bonito meu, as letras são azuis e as ilustrações lindas, valeu pela indicação camarada.

    Abraço

  4. Muito bacana suas impressões do livro que eu gostei muito de ilustrar. obrigado.

    • Poxa, obrigado pelo comentário Sérgio, e parabéns demais pelo trabalho nele, excelente. Gostei muito.

      Abraço

  5. Obrigada pelo elogio, Sérgio!
    Escrever essa apresentação para o livro foi, para mim, uma viagem no tempo e também um plus para minha aulas de literatura inglesa!

    • Sérgio /

      Poxa, feliz demais que você tenha lido a resenha Lilian. Mais uma vez, parabéns pelo trabalho na edição, ficou incrível.

      Abraço

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