Literatura e opinião em um só lugar

As Perguntas

As Perguntas

out 30, 2017

“As Perguntas” (Companhia das Letras, 2017) , quinto livro do autor gaúcho – radicado em São Paulo -, Antônio Xerxenesky, foi minha porta de entrada na produção literária desse autor que, sem dúvidas, tem muito a dizer em nosso cânone nacional contemporâneo. Ora, e o que se pode esperar de alguém que tem como principais influências nomes como Júlio Cortázar, Roberto Bolaño e Cormac Mccarthy? Óbvio, seria uma injustiça dedicar apenas a essas figuras o êxito produtivo e editorial que o jovem autor vem conquistado, dentro de fora do Brasil, porém, também seria um sacrilégio negar que as obras desses vultos inspiradores não exercem uma contribuição intrínseca no estilo do escrito. Faço questão de começar a análise dessa obra falando do autor e de suas influências, pois ambos falam muito sobre o cerne e o entendimento mais profundo do enredo aqui presente.  Todavia, é preciso atentar-se, antes de tudo, a raiz da história contada, então vamos à ela:

Conforme sinopse oficial da obra “Alina enxerga sombras e vultos desde criança. Doutoranda em história das religiões, especializada em tradições ocultistas e aferrada à racionalidade que tudo ilumina, ela se acostumou a considerar as aparições como simples vestígios de sonhos interrompidos. Certo dia, um telefonema da delegacia desarruma sua rotina de tédio programado. A polícia suspeita de que uma seita vem causando uma onda de surtos psicóticos em São Paulo. A única pista disponível é um símbolo geométrico desenhado por uma das vítimas. Intrigada e ansiosa para fugir da rotina, Alina decide investigar por conta própria um mistério que a fará questionar os limites entre razão e religião, cultura e crença.”

Um livro de muitas perguntas e palavras que se moldam para desvendar esses questionamentos

Um livro de muitas perguntas e palavras que se moldam para desvendar esses questionamentos

Um dos pontos mais superficiais acerca do drama de Alina está na dicotomia entre o sobrenatural e o ceticismo, iniciado em sua infância. Essa dualidade, acaba direcionando os seus estudos acadêmicos, mas embasando o teor fantástico de sua tese em um estudo cínico e racional, que pretende explicar de forma científica os fenômenos místicos presentes nas religiões, e surgidos aqui e acolá no cotidiano de suas práticas. Essa postura diante de sua percepção do sobrenatural, encaminha sua vida para uma rotina cada vez mais monótona e sem sentido. Não à toa, seu emprego como editora de vídeos institucionais em uma empresa localizada na Avenida Paulista, em São Paulo, é explorado em demasia durante a construção dessa protagonista, assim como seu mergulho na rotina cinzenta e apática do grande centro urbano onde escolheu viver.

Ao deparar-se com um caso relacionado a uma misteriosa seita, aflora o seu passado relacionado ao sobrenatural, e vem à tona a pesquisadora do oculto enraizada em seus anos de faculdade, uma chance única de romper com a monotonia instaurada em sua existência. Usando de seu conhecimento teórico sobre diversas religiões e seitas místicas, ela mergulha de cabeça nessa trama que promete mudar sua forma de enxergar o mundo, e interpretar a presença do sobrenatural no mundo de natureza verossímil onde acredita viver. Interessante, que ao formular esse enredo, sobretudo na primeira metade do romance, Xerxenesky apresenta ao leitor um panorama bem embasado sobre a história e atuação das religiões e grupos ocultistas, ao mesmo tempo que desvela uma série de referências a música, cinema (de horror) e marketing, revelando uma pesquisa, e conhecimento, profundos do autor sobre os temas. 

Variando entre o sobrenatural e o cético Xerxenesky brinca com a percepção do leitor

Variando entre o sobrenatural e o cético Xerxenesky brinca com a percepção do leitor

A obra é dividida em duas partes: a primeira, narrada em terceira pessoa, apresenta ao leitor a vida de Alina, o cenário onde ela vive, e como essas duas nuances estão relacionadas no sentido de formar sua vida atual em um completo e profundo tédio; a segunda, em primeira pessoa, mergulha a protagonista no mistério apresentado ainda na primeira parte, ou seja, na atuação de um misterioso grupo que tem enlouquecido pessoas e grafado nelas um estranho símbolo de teor irreconhecível, pelo menos até então. Evidente que essa mudança de foco narrativo, mais do que apenas um apelo estético, serve para pontuar a alteração de ritmo e tom do enredo ali desenvolvido, mergulhando quem lê em uma esfera mais profunda do romance em sua segunda metade.

Interessante, que à medida que se envolve nessa misteriosa trama, Alina aumenta sua gama de perguntas sobre a vida e o seu lugar nela, fazendo alusão ao título da obra, sem obviedade. Aliás, o desenvolvimento do enredo no livro é algo sólido e instigante. Xerxenesky sabe como despertar a curiosidade do leitor, sem apelar para uma escrita mais superficial e rápida, pelo contrário, ele exige do leitor silêncio e compreensão, em determinados momentos, um diálogo fluido e sincero em outros, e uma empatia desmedida mais para o fim do romance. Ou seja, não mantém um mesmo tom no livro inteiro, e isso além de fantástico demonstra uma maturidade criativa impressionante.

A mudança de foco narrativo muda também a perspectiva de quem lê sobre o enredo

A mudança de foco narrativo muda também a perspectiva de quem lê sobre o enredo

Em suma, “As Perguntas” apresenta uma trama urbana muito bem fundamentada, que demonstra com fidelidade o viver em uma cidade tão ampla quanto São Paulo (talvez algo de autobiográfico, será?), adornando essa solidão e apatia com uma relação enraizada com o sobrenatural que apimenta esse cotidiano amargo, e desperta a protagonista, e o leitor, para uma faceta mais oculta e poderosa da vida, que não pode ser ignorada para sempre, como tanta fazer Alina. Assim, o cenário torna-se um elemento tão crucial (ou mais) no enredo que os coadjuvantes que cercam a protagonista, promovendo um elo de empatia bastante forte com quem vive no mesmo ambiente que ela (grande parte dos jovens da mesma idade, diga-se de passagem).

Portanto, a leitura rápida da obra não representa uma trama rápida e descompromissada, pelo contrário, quanto mais profundo for o diálogo do leitor com o livro, maior será o aproveitamento e envolvimento com ele, sem perder a fluidez e estética suave do enredo, claro. A obra, representa bem a atual literatura brasileira, que aprendeu a apegar-se com mais propriedade de influências além fronteiras, sem perder sua essência e nuances próprias. Antônio Xerxenesky aprendeu bem a usar todo o seu conhecimento como mestre em Literatura Comparada (UFRGS), de maneira a apresentar seus questionamentos ao leitor, sem dificultar o entendimento e relação deste com o texto. Porém, entregando um indivíduo mais crítico e sábio ao fim da leitura.  

Comente

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *