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Amityville

Amityville

mar 31, 2017

“No sugestivo dia 13 de novembro de 1974, a polícia do condado de Suffolk foi surpreendida por um crime brutal que chocou os EUA e se tornou assunto em todo o mundo envolvendo a pacata família Defeo. Alguns dias depois, Ronald Defeo Jr. admitiu ter matado seus pais e quatro irmãos com tiros nas costas, alegando ter sido influenciado por vozes que ouvia dentro de sua cabeça. O crime chocou a população, que começou a tecer teorias; algumas pessoas estranhavam o fato de que todas as vítimas foram encontradas de bruços, outras questionavam como nenhuma delas acordou com os barulhos dos tiros. Não demorou muito para a casa ser considerada mal-assombrada, virando inclusive objeto de estudo dos investigadores paranormais Ed e Lorraine Warren.”  Os crimes cometidos na bucólica residência 112 da Ocean Avenue, em Long Island, subúrbio de Nova York, não permaneceriam na lembrança apenas da comunidade local, muito pelo contrário, seu misterioso ponto de partida daria início à um dos casos mais intrigantes (e controversos) de manifestação sobrenatural ocorrida numa residência na história da paranormalidade. E tudo isso, graças aos fatos subsequentes a esse trágico crime familiar.

“Treze meses depois da chacina, George e Kathleen Lutz resolveram recomeçar a vida em uma nova residência que compraram por uma pechincha. Vinte e oito dias depois, os cinco membros da família fugiram aterrorizados, deixando a maior parte de seus pertences para trás. Estranhos eventos começaram a acontecer, afetando a vida dos Lutz e indicando que uma presença maligna habitava a casa. Embora tenha sido amplamente divulgada pela mídia, em especial nos jornais e nas revistas da época, muitas vezes de maneira sensacionalista, a história da casa nunca havia sido contada com riqueza de detalhes — até Jay Anson decidir reconstruí-la e transformar seu livro de não-ficção em um dos relatos paranormais mais importantes e conhecidos de todos os tempos.” Sim, a obra trata do drama vivido por uma família que residiu na mesma casa aproximadamente um ano após a chacina promovida pelo filho mais velho dos Defeo.

A edição da DarkSide Books traz de volta as livrarias esse clássico do horror

A edição da DarkSide Books traz de volta as livrarias esse clássico do horror

Vale ressaltar que o livro consiste nos relatos pessoais do casal George e Kathleen, narrados para Jay Anson algum tempo depois dos eventos sobrenaturais ocorridos na casa – e de terem abandonado a residência e mudado para a Califórnia -, e transcritos na forma de prosa como forma de registrar em maiores detalhes todo o sofrimento pela qual eles passaram durante sua breve estadia no local. Em termos de escrita e desenvolvimento do enredo, interessante notar como o autor reproduz a história construindo uma narrativa ora próxima do relato jornalistico – inclusive ressaltado seus argumentos com testemunhos das vítimas do caso -, ora aproximada dos contos de horror da era pulp, que prendem a atenção enquanto evidenciam ações fantásticas dentro de um cenário de aparente normalidade. Não é possível saber se a escalada de eventos sobrenaturais, e aflição da família, se deu da forma crescente como descrita na obra, ou se foi um recurso narrativo do autor. Fato é, que a imersão do leitor cresce, e sua apreensão se eleva, a medida que o curto período vivido pela família Lutz chega ao fim, desencadeando um esgotamento total de sua resistência as pressões destinadas pela casa a seus moradores.

Sobre a escrita e narrativa de Anson, relevante dizer que ela se mantém firme, direta, e objetiva em seu propósito de descrever os acontecimentos ocorridos na vida do casal. Sendo assim, não existe espaço para maiores especulações filosóficas ou emocionais direcionadas aos personagens, pelo menos não num nível mais profundo e/ou trabalhado. Nada próximo de romances similares, como lido em O Exorcista (1971), de Peter William Blatty, porém, com personalidade e estilo capazes de atrair a atenção de quem lê, convencendo rapidamente seu leitor acerca da história ali contada. A trama, aliás, é divida em dois pontos de vista: o primeiro, direcionado a família Lutz, melhor dizendo, em George e Kathleen; o segundo, pelos olhos do padre Mancuso (inspirado no real Frank Ralph Pecoraro) chamado para abençoar a casa logo após a chegada da família, e que passou por imensas provações e sofrimentos logo depois da interferência. Esta divisão na narrativa, não apenas enriquece e amplia o enredo, como reforça ao leitor o poder e influência do maligno poder sobrenatural atuante em Amityville.

Tenha certeza ao cruzar as primeiras páginas desse aterrorizante drama de horror

Tenha certeza ao cruzar as primeiras páginas desse aterrorizante drama de horror

Publicado ainda em 1977, pouquíssimo tempo após os eventos transcorridos no endereço -, o livro chegou ao mercado americano como um Best-Seller cercado por muito interesse, e adornado por inúmeras polêmicas, principalmente, por sua ligação intrínseca com o julgamento de Ronald Defeo Jr. É evidente que o caráter real destinado a história, contribuiu sobremaneira para o enorme interesse do público em relação ao livro. Todavia, pouco depois de sua publicação, uma série de controvérsias puseram em dúvida a verdadeira existência do fundo sobrenatural do drama contado pelo casal Lutz. O mais evidente deles é relacionado a William Weber, advogado de Defeo que o instruiu a alegar insanidade como motivo para o cometimento dos crimes. Na época, ele foi o primeiro a procurar o casal Lutz com o objetivo de contar em livro do drama vivido por eles na casa em Amityville. Em busca de um acordo com mais lucrativo, George e Kathleen romperam com Weber, e fecharam com roteirista e escritor Jay Anson para a produção do livro. Em resposta ao rompimento do contrato, o advogado alegou em entrevista para um revista na época, que “este livro não passa de uma farsa. Inventamos esta história de terror em meio a muitas garrafas de vinho”.

Todavia, as acusações de William Weber não foram os únicos elementos capazes de desacreditar a história contada pelos Lutz. Desde especulações financeiras relacionadas a falência da antiga companhia de George, ao depoimento de vizinhos que alegam um período de estadia bem menor da família em Amityville (somente 10 dias), culminando com a total falta de registros sobrenaturais no interior da residência, após a realização de inúmeras pesquisas feitas no interior da residência, levaram um grande número de especialistas, e órgãos da imprensa, a suspeitar de um interesse econômico dos Lutz em relação ao imóvel e a construção de uma história que os traria muito lucro no final. Mas, sendo verdade ou não, é fato que o drama ligado a residência enraizada no interior de Nova York, tornou-se um dos contos sobrenaturais mais famosos e intrigantes da literatura de horror do século XX.

Não preciso nem falar da "beleza" dessa edição de luxo, não é?!

Não preciso nem falar da “beleza” dessa edição de luxo, não é?!

Deixando de lado as especulações sobre a veracidade dos fatos narrados, Amityville (DarkSide Books, 2016) consiste numa obra de horror autêntica e capaz de suscitar fortes emoções naqueles dispostos a desvendar suas misteriosas páginas. Uma leitura digna de quem gosta de vivenciar o medo e a apreensão num contexto bem próximo da verossimilhança. Sendo um clássico do gênero, é imprescindível para quem já é leitor desta seara literária ou que pretende descobrir a fruição proporcionada pelo estilo.   

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