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A Realidade nos Universos de Fantasia

A Realidade nos Universos de Fantasia

jan 20, 2016

Pensando sobre as bases nas quais foram construídos os preceitos do gênero fantasia, especialmente centrados nos fortes e atrativos tons do Maravilhoso presente em mitos orais como A Epopeia de Gilgamesh e a dupla homérica Ilíada e Odisseia, é fácil transmitir à esses textos um caráter intrinsecamente metafórico, sendo assim, distante da verossimilhança marcante da ficção realista. Vista como um cânone mais voltado ao entretenimento juvenil, a fantasia foi por muito tempo relegada à abstração, deixando o diálogo mais denso entre leitor e conhecimento de mundo para outros gêneros mais próximos da realidade, por assim dizer. No entanto, desde sempre, a fantasia foi composta levando em consideração as referências, pensamento crítico, visão de mundo e predileções de seus autores, sendo assim, impossível não enxergar na retórica ali presente um conhecimento arraigado, capaz de informar e dialogar com o jovem leitor, por meio da exposição histórica de nossa própria cronologia, e de sentimentos mascarados sobre a magia da metáfora fantástica, mas que levam ao pensamento crítico da mesma forma que um texto verossímil. Em minha humilde opinião, seria justamente esse o grande mérito da fantasia, ou seja, conversar com o jovem, levando conhecimento de nosso mundo e expondo à eles conflitos e emoções bem típicas de nossa própria existência humana.

E não se engane, a promoção deste diálogo com a realidade por meio da fantasia vem desde a reformulação do gênero, em meados do fim do século XIX, graças a nomes como Tolkien, Lewis e Eddison – dentre tantos outros! Por exemplo, embora negue veementemente, O Senhor dos Anéis (1954) está recheado de elementos da Europa medieval e da Primeira Guerra Mundial (1914 – 1918), tanto em termos de descrição dos povos do continente, quanto da própria guerra, organização social, e alianças promovidas durante o conflito. Improvável que o leitor atento da obra do professor, não enxergue na estrutura sócio-militar do conflito promovido na Grande Guerra com a invasão Tríplice Aliança que destruiu grande parte do velho continente na época. Vale salientar que, mesmo não sendo intenção do autor é bem provável que a semelhança entre os acontecimentos  – fantasia versus realidade -, esclareça ou estimule quem lê a conhecer melhor um dos lados, ou os dois, graças justamente à comparação significativa, mesmo que involuntária. Inclusive, recomendamos a leitura do ótimo artigo publicado no site Tolkien Brasil, intitulado Por que a Primeira Guerra Mundial está no coração de ‘Senhor dos Anéis’, que adentra de maneira bastante embasada no assunto.

Adornado por tons fantásticos o real está sempre presente no gênero!

Adornado por tons fantásticos o real está sempre presente no gênero!

Todavia, o uso de um conteúdo realista – se assim podemos denominar – para formular universos fantásticos não é exclusividade de autores clássicos, muito pelo contrário. Essa característica está cada vez mais presente na produção contemporânea, até porque, a onda de baixa fantasia bastante vigente nesse cânone favorece mais o histórico e menos o sobrenatural. Observe a própria estrutura d’As Crônicas de Gelo e Fogo (Leya), de George R.R. Martin, que utiliza a nobreza e tradição da cavalaria medieval como estrutura social de seu mundo fictício, e embasa o principal conflito político dele sobre a histórica Guerra das Rosas (1455 – 1485), disputa pelo trono da Inglaterra promovida entre as famílias York e Lancaster. No mesmo viés, Joe Abercrombie utiliza a época da ascensão da burguesia e decadência da nobreza, mais especificamente durante a implementação do regime Mercantilista, para fundamentar sua ambientação na trilogia A Primeira Lei (Editora Arqueiro), publicada entre 2006 e 2008 no Reino Unido. Algo similar também ocorre em Elantris (Leya, 2012), onde a burguesia também assume a posição da nobreza após um colapso de teor fantástico. Na verdade, a base feudal da Europa medieval, com sua religiosidade e mazelas sociais e políticas, acaba sendo uma base recorrente em diversas obras, com poucas variações, mas muito apelo à costumes e conflitos bem típicos do período. É assim em A Queda dos Reinos (Seguinte, 2013), de Morgan Rhodes, O Caçador de Apóstolos (Jambô, 2010), dentre uma vasta gama de outros títulos.

Um caso bem particular desta representação verossímil nos mundos de fantasia é relacionado a exposição da religião nesse contexto. Uma obra que trata de maneira bastante próxima esta nuance e o citado Elantris, do americano Brandon Sanderson. Nele, temos duas religiões provenientes de uma mesma base sagrada, mas com atuações e pensamentos distintos. A primeira, conhecida como Shu-Korath, é mais branda, pacífica e acolhedora, semelhante à religião Cristã, já a segunda chamada Shu-Dereth é expansionista, enfática e agressiva em sua busca por fieis, próxima ao Islamismo. Inclusive, no cenário a campanha territorialista da última lembra muito as invasões muçulmanas à Europa e norte da África durante o  começo do século VIII. No mesmo âmbito, a Fé dos Sete n’As Crônicas de Gelo e Fogo buscam vários referências a atuação da Igreja Católica na Idade Média. E como não citar as Crônicas de Nárnia (Editora Martins Fontes), de C.S. Lewis, recheada de dogmas cristãos em seu enredo pautado no Maravilhoso. Óbvio, esta aproximação entre fantasia e História busca apenas uma base conceitual e ideologia forte, mas tentam estabelecer uma identidade e condita particular, embora estas nuances de realidade sejam claras em diversos momentos da leitura.

A ascensão da burguesia é tema comum em mundos de fantasia!

A ascensão da burguesia é tema comum em mundos de fantasia!

Afora as referências histórias, que sem dúvidas ajudam no entendimento sócio-cultural e político do jovem leitor, ainda existe uma carga marcante de empatia nesses textos relacionados à sentimentos tipicamente compatíveis a realidade de quem lê. Um exemplo evidente disso está em O Espadachim de Carvão (Fantasy – Casa da Palavra, 2013). No livro, o protagonista Adapak viveu isolado em uma caverna distante com o Pai, uma das divindades daquele universo fictício, totalmente imerso em leituras de textos fantásticos. Ao ver-se jogado no “mundo real”, o personagem se depara não apenas com perigos marciais, mas sociais também. Sua inaptidão ao convívio com outras pessoas, acaba atrapalhando seu desenvolvimento enquanto cidadão daquele cenário, exigindo um duro amadurecimento e aquisição de sabedoria prática. Pode até ser involuntário por parte do autor, Affonso Solano, mas o enredo torna-se uma metáfora bem próxima da vida dos adolescentes leitores, que devem abandonar a casa dos pais e descobrir os segredos e perigos do mundo por conta própria.

Evidentemente os exemplos são inúmeros, e inadequados à citação em espaço tão restrito. Em suma, a verdade é que existe sim uma aproximação entre realidade e fantasia, embora no gênero seja bem mais disfarçada sobre conceitos sobrenaturais metafóricos/alegóricos. Porém, isso não impede que eles sejam absorvidos e apreendidos pelo leitor, auxiliando também sua formação cognitiva e crítica. A aproximação empática do jovem com a fantasia apenas facilita esta relação tão importante e necessária. Portanto, internalizar acontecimentos Históricos e sentimentos verossímeis graças a leitura de obras fantásticas apenas atesta a qualidade e necessidade desta nuance tão relevante da literatura, e potencializa sua exploração por meios educacionais ou didáticos que fujam da estrutura escolar padrão. Sendo assim, permita-se um pequeno desafio em sua próxima leitura relacionada, busque referências ao mundo real no enredo e descrições da obra, certo? Você pode se surpreender com o salto de compreensão do texto proporcionado por um ato tão simples e funcional.

3 Comentários

  1. Interessante esse lado da literatura fantástica. Já havia reparado também nessas influências históricas e sempre são muito bem empregadas nesses livros. Adorei o texto, sempre ótimo Sérgio.

    Beijos 😀

    • Obrigado Laura! Muito bacana quando começamos a perceber essas nuances mais profundas do texto, enriquece demais a experiência.

      Beijo

  2. Fernando Couto /

    Essa ligação entre ficção histórica e fantasia sempre esteve presente, como você bem ressaltou, desde os clássicos da Grécia antiga. Uma pena que seja pouco explorado em análises e trabalhos acadêmicos nas disciplinas concernentes, pois oferecem um terreno fértil para a compreensão das épocas que serviram de inspiração ao gênero.

    Abraço

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