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A Rainha da Primavera

A Rainha da Primavera

abr 7, 2015

Venho hoje fazer uma das coisas que mais curto aqui no Baião de Letras: resenhar obras de autores nacionais independentes e que batalham fora do circuito das grandes editoras por seu próprio espaço! Claro, com isso não excluo meu desejo sincero de que, algum dia, essas instituições tão viciadas e, na maioria das vezes, sem uma maior preocupação com a formação do leitor, deem uma maior abertura à nossos autores brasileiros, já que são em muito ignorados no atual contexto em favor de obras, em sua maioria, pobres e sem uma maior relevância aos leitores nacionais. Bom, mas enquanto essa onírica realidade não se aproxima, tenho a felicidades de analisar mais um trabalho da querida amiga, e talentosa escritora, Karen Soarele. A Rainha da Primavera (Cubo Mágico), mais um livro pertencente a série As Crônicas de Myríade, foi o primeiro livro publicado pela escritora – inclusive de forma gratuita em formato digital -, e chega à nossas mãos em uma nova e bela edição, com a qualidade lírica já conhecida e uma editoração de dar inveja à muita obra mais festejada por ai, com ilustrações internas bem bacanas do amigo Luis Brueh (Estúdio Panda Vermelho), como sempre. Mas é impossível descrever à fundo as qualidades intrínsecas da obra sem uma descrição da essência do enredo – sem spoilers, claro -, e uma breve analise sobre os aspectos literários que enaltecem a escrita de Karen Soarele, e de como sua produção literária vem conquistando o gosto dos leitores pela qualidade de seus livros, evidente, mas também pelo enorme cuidado com que ela mesma trata sua obra, sendo em cerne o que todo autor brasileiro – famoso ou não – deveria ser, atento e carinhoso com seu público leitor.

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A estória narrada em A Rainha da Primavera se passa centenas de anos antes dos acontecimentos descritos na trama principal d’As Crônicas de Myríade. Tudo começa com Flora, uma jovem e inquieta habitante da misteriosa ilha Ashteria que deseja, em seu íntimo, conhecer o mundo além das fronteiras marítimas de seu mágico lar. Criada em uma numerosa família local, ela sente que seu destino está à muitos quilômetros distante dali aguardando sua presença. Durante um entardecer bem comum, dois visitantes chegam em um pequeno bote anunciando que vierem até ali buscar alguém especial. A aparência dispare daqueles homens assusta Flora, e ainda mais quando eles a reconhecem em meio à multidão, denunciando ser ela a pessoa procurada por eles. Amedrontada diante da possibilidade de acompanhar aqueles dois seres – especialmente o guerreiro com as mãos ensanguentadas -, ela busca refúgio em casa, e reza para tudo não ter passado de um sonho ruim. Mas não, sua realidade e destino finalmente à encontraram. Amparada pela mãe e irmãos, ela descobre não pertencer aquela família realmente embora tenha sido criada desde bebê entre eles. Na verdade Flora é a herdeira de um dos maiores reinos do mundo, Hynneldor. E mais, sua terra passa por muitas dificuldades e depende dela para se salvar de um terrível destino. Decidida a encarar seus desafios, ela parte com os dois homens, e finalmente conhece sua terra natal, embora nada vá ser tão calmo e feliz quanto ela pensou…

Karen Soarele fazendo a alegria dos fãs com literatura de qualidade

Karen Soarele fazendo a alegria dos fãs com literatura de qualidade

 O drama de Flora em sua tentativa de tomar posse de seu trono por direito em Hynneldor é uma lenda famosa no mundo de Myríade, citada em sua estória original passada em Línguas de Fogo e Tempestade de Areia, romances do ramo principal da trama. Por isso, o tom da narração é bem de lenda mesmo, de algo acontecido no passado de um cenário, bem como ocorre também em A Canção das Estrelas, outra obra que volta ao passado do mundo, embora mais imediato. Como sempre, não deixo de me surpreender com a qualidade de criação e escrita da Karen, que desde este primeiro livro impõe um ritmo e estilo bem próprios, embora respeitando a coerência do gênero cultivado em todo os eu cânone. Assim, as descrições, sentimentos dos personagens e cenas de ação se alternam de modo bastante agradável, sendo sucintos na medida certa, e profundos quando necessário. Neste livro, que tem o formato quase de conto por seu tamanho e formato textual, a autora sabe moldar com eficiência a construção de atos capazes de definir o futuro de seu universo criado. Vale destacar também o carinho – quase maternal – com que ela constrói seus personagens, críveis desde sua primeira fala e diferentes em essência pela forma de interação ao longo do enredo; Sendo esta uma qualidade visível, e aperfeiçoada, em todas as obras posteriores dela, em que cada arquétipo criado é capaz de despertar uma paixão repentina ou ódio incontido!

O Mapa de Myríade muda à cada livro da série! Será esse o visto em A Rainha da Primavera?

O Mapa de Myríade muda à cada livro da série! Será esse o visto em A Rainha da Primavera?

Vale salientar que o tom das estórias de Karen Soarele passam distante dos rumos cinzentos e intrincados de autores que permeiam o gênero, como Abercrombie, Sanderson ou Rothfuss – embora pertença sem dúvida à fantasia, como estes. A nuance mais voltada à Alta Fantasia, tanto no cenário quanto nos personagens, aproxima mais seu estilo das obras mais clássicas como Tolkien, Lewis ou Eddison; sendo mais próxima do segundo, em minha modesta avaliação. O ritmo da narrativa associado às mudanças na trama, prendem o leitor em uma vivência profunda, encantadora e visível à percepção dialógica estabelecida entre texto e interpretação de quem lê (ufa, acho que deu pra entender, né?!). Tudo isso é potencializado por Myríade ser um território em constante guerra, em especial, de Vullcanus, contra os outros reinos. Neste contexto, traições, assassinatos e intrigas são comuns e movimentam o cenário político e bélico do cenário, mas lembre-se, nada que lembre o tom arraigado cultivado por George R.R. Martin, por exemplo. Tudo é mais épico, mágico, e singelo na produção da autora, aliado de maneira sublime com a qualidade escrita e criativa. Sem dúvida, uma autora produtora de uma obra que vale a pena ser lida e divulgada, garanto.

5 Comentários

  1. Muito legal a Resenha, Sérgio! que bom que curtiu as ilustrações =D. Nesse livro tive muita ajuda do meu assistente Hudson Justino, e acho que essa parceria resultou em um trabalho muito bacana!

    A história presente na rainha da primavera, um livro fininho e super divertido de ler, permeia toda a mitologia do mundo da karen, e curto muito a forma com que ela escolheu pra construir seu universo. Quem gosta do estilo (high fantasy/aventura) é um prato cheio.

    • Sérgio /

      Eu curti muito a Karen ter de cara expandido o mundo, saindo dos acontecimentos principais, e nos levando à outros locais e tempos em Myríade. A única coisa que me deixou triste foi que não tenho mais nada dela pra ler, resta reler os livros, o que será prazeroso, claro 🙂

      Abraço

  2. Ariel Lannister /

    É fantasia, tó dentro! Deve ser muito bom mesmo o livro pelo que você falou Sérgio. Gosto mais desse estilo antigo sem tanta coisa ligada ao histórico e mais a magia. Vou tentar ler o mais rápido que der.

    • Sérgio /

      Cara, leia qualquer livro da Karen que vai gostar demais, garanto!

  3. Eu li! Nossa, graças a ultima resenha eu procurei algo e comprei o e-book e adorei!! A escrita dela é muito boa, uma sobrinha adolescente leu e adorou mais que eu ainda, tem muito futuro a Karen, em breve veremos ela em uma grande editora sem dúvida 🙂

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