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A Lição de Anatomia do Temível Dr. Louison

A Lição de Anatomia do Temível Dr. Louison

jan 12, 2015

8 de Julho de 1911, Rio de Janeiro de todos os Orixás. O jornalista Isaías Caminha, à serviço do periódico O Crepúsculo, vai à capital do Rio Grande do Sul, Porto Alegre, com o intuito de entrevistar o doutor Antoine Frederico Louison, notória figura entre a comunidade científica e social da cidade, aprisionado ao famoso sanatório São Pedro para Psicóticos e Histéricas. O motivo? Acusado de uma série de assassinatos hediondos contra personalidades importantes da alta sociedade local. A bordo de um zepelin, o jornalista chega à cidade sem imaginar que sua estadia na antiga e sombria Porto dos Amantes, seria bem mais intrigante que sua imaginação poderia supor de início! Esse é apenas o começo da misteriosa jornada criada por Enéias Tavares, ganhador do concurso promovido pelo selo Fantasy com o intuito de publicar um novo autor nacional, para apresentar seu cenário intitulado Brasiliana Steampunk, uma série que certamente tem muito mais à oferecer do que o lido neste primeiro, e ótimo, romance.

Dessa forma, A Lição de “Anatomia do Temível Dr. Louison” apresenta uma obra situada em gênero ainda deveras escasso em número de publicações no país, o steampunk, porém, mesclando em sua criação temática um Brasil “retrofuturista”, em que avanços tecnológicos, convivem em plena harmonia com arquiteturas e modos sociais clássicos da “belle époque” francesa, e tons de misticismo comuns das sociedades secretas. Uma mescla perfeita entre o realismo de nossa história, especialmente pela citação constante à locais, fatos e personagens reais da cronologia nacional, e inserções providenciais de personagens fictícios, cenários alterados pela avançada tecnologia e mudanças de termos capazes de embasar mais profundamente o cenário ali descrito, privilegiando a imersão do leitor, claro.

Merecido vencedor do concurso do selo Fantasy começou uma nova série no Brasil

Merecido vencedor do concurso do selo Fantasy começou uma nova série no Brasil

Antes de prosseguir com a análise da obra, todavia, necessário evidenciar algo importante, e que deve ser avaliado pelo amigo leitor acerca dos fatos que envolvem a publicação desta obra. Observando o gênero do livro, e sua publicação justamente pelo selo Fantasy – pertencente à editora Leya -, não é de se estranhar que tenham se unido de forma tão perfeita, pois com a publicação da obra de Tavares, o selo justifica sua proposta editorial de publicar novos autores nacionais, e de gêneros pouco explorados pelo mercado; tendo sido dessa forma com Fábio M. Barreto em sua ficção científica “Filhos do Fim do Mundo” (2013), e Affonso Solano com a fantasia ”O Espadachim de Carvão” (2013), ambos estreantes em literatura àquela altura. Por isso, o livro não apenas constitui grata surpresa ao leitores – veremos os motivos à seguir -, mas, também dá esperança no fato de as grandes editoras, mesmo que em seus selos menores, abram mais espaço aos autores nacionais estreantes, e aos gêneros menos oferecidos nas livrarias e demais canais de venda e propagação da leitura.

Partindo para uma analise específica da obra, fica difícil escolher um ponto em particular que mereça maior destaque, pois são muitos os capazes de surpreender por seu reservado cuidado, e trato refinado no que tange a criação estética e retórica do enredo. Porém, como devemos fazê-lo de alguma forma, citarei inicialmente a forma estrutural do texto, apresentado ao leitor por meio de cartas, noitários, depoimentos e gravações feitas por robôs e aparelhos tecnológicos. Embora não seja algo incomum em literatura – estrutura semelhante se faz presente em obras notáveis como em “Drácula” (1897), de Bram Stoker -, a proximidade do estilo de narração aproxima a trama do leitor, imergindo este na história ali descrita de forma pessoal e sentimental. A natureza desse tipo de narração desmembra a importância do protagonista, e torna plural a visão do enredo, ampliando o cenário e dando voz à diversos personagens, dos mais diferentes tons e comportamentos.

Enéias Tavares cultiva ma literatura que orbita entre o clássico e o popular numa narrativa fluida

Enéias Tavares cultiva ma literatura que orbita entre o clássico e o popular numa narrativa fluida

Também é intrínseca à esse tipo de narrativa a quebra da forma linear da trama, tornando o enredo ora cronológico, ora psicológico, embora o enredo como um todo esteja dentro deste segundo por sua estrutura geral. Não menos relevante que a forma escolhida para ditar a estória, é a escrita apurada, e típica da época – entre o final do século XIX, e começo do XX -, aplicada por Enéias Tavares a narração. Fato que denuncia não somente seu conhecimento literário – por ser ele professor de literatura clássica da Universidade Federal de Santa Maria -, mas linguístico também. Contudo, não pense no livro como algo intrincado, ou de difícil compreensão, pelo contrário. O estilo adotado pelo autor desafia a leitura na medida certa, sem maiores preocupações com intransigências do ego, mas com a pura imersão do leitor pela descrição intima do cenário. Como fica bem claro na transcrição abaixo:

Posicionei diante da retina o monóculo tecnostático e deixei que o dispositivo destacasse os padrões discursivos que se repetiam naquela paisagem textual. Expressões como “monstruoso pederasta”, “terrível Diabo”, Mefistófoles tupiniquim”, assombrosa perversão da natureza”, “maníaco estripador”, psicótico pusilânime”, celerado irascível”, depravado hediondo” e “alcaide infernal”, entre outras, vinham à tona com risível insistência. Ao reiterá-las, os jornalistas enfraqueciam seus verdadeiros sentidos, tornando Louison mais um vilão de histórias detetivescas do que um caráter real. Um homem cuja loucura deveria ser estudada e compreendida.

Ressaltados os pontos acima, devo enumerar à nível pessoal um dos aspectos da criação de Tavares que mais me prendeu ao livro, cedendo à ele em minha estima especial atenção. Falo da inclusão no enredo de personagens tirados de clássicos da literatura brasileira, em uma releitura respeitosa, crível em termos líricos, e dotada de uma intertextualidade competente e sincera, capaz apenas à um leitor intimo das obras ali inseridas. Em paralelo à isso, o autor soube criar arquétipos tão interessantes quanto, desfilando trama adentro uma amálgama criativo e respeitoso ao cânone tradicional de nossas letras.

Além de um ótimo enredo e texto a edição do livro ficou maravilhosa e imerge quem lê na história

Além de um ótimo enredo e texto a edição do livro ficou maravilhosa e imerge quem lê na história

Assim, Simão Bacamarte, de O Alienista (1882) de Machado de Assis, convive em conflito antagônico com Doutor Louison; Solfieri, de “Noite na Taverna” (1855), Sérgio e Bento, de “O Ateneu” (1888), Vitória Acauã, de “Contos Amazônicos” (1893), convivem em igual destaque na sociedade secreta Parthenon Místico com a escritora Beatriz de Almeida e Souza, o inspetor de polícia Pedro Britto Cândido e Madame de Quental, personagens igualmente atraentes e bem construídos. Mas as referências não param por ai, Rita Baiana e Pombinha, de “O Cortiço” (1890), Isaías Caminha, de “Recordações do Escrivão Isaías Caminha” (1909) e mesmo a famosa criação sobrenatural de Joaquim Manuel de Macedo, em “A Luneta Mágica” (1869), dão as caras nessa verdadeira ode ao romantismo/realismo do Brasil entre séculos. A quem veja na estrutura adotada algo próximo ao feito em “A Liga Extraordinária”, por Allan Moore, o que não discordo inteiramente, embora não veja na proximidade nuance menor, ou sem crédito, pelo contrário, somente beneficies podem sair da ideia trabalhada pelo autor. Eu mesmo tive a curiosidade aguçada para a leitura de algumas das obras de referência ainda não lidas, o que farei muito em breve, certamente.

Mais que um livro com ótimas referências e criação textual apurada, “A Lição de Anatomia do Temível Dr. Louison” (2014) revela-se uma publicação importante para o próprio mercado, demonstrando um amadurecimento providencial de nossa produção literária juvenil, e enaltecimento do gênero ainda pouco divulgado no Brasil. Como já dito, o projeto que envolve a criação da série Brasiliana Steampunk é muito bem trabalhado, e promete surpreender ainda mais quem se atrever à adentrar em seu mundo repleto de serviçais robóticos, geringonças apocalípticas e sociedades místicas.

Além disso, a coragem de Tavares ao tratar de temas delicados, mas presentes na época da exata maneira como é ali descrita, como o racismo e o homossexualismo, enaltece mais a composição do enredo e criação do cenário. O próprio enredo deixa evidente que várias tramas devem aparecer em breve, fato prenunciado pela recente publicação do e-book “Bento Alves e o Assalto ao Templo Positivista”, disponível no site oficial da série. Por tudo isso, óbvio que recomendo muito a leitura, e divulgação desta obra. Sem dúvida algo que merece ser enaltecido não só por sua qualidade intrínseca, mas por sua importância editorial.

8 Comentários

  1. Ariel Lannister /

    Nossa, impressionado de verdade com as qualidades do livro, uma das minhas próximas aquisições, pode contar! Que bom o surgimento de autores como o Enéias, uma renovação válida para nossa literatura, como você bem citou no texto.

    • Adquira mesmo amigo, vai gostar de verdade. Também enalteço muito o surgimento do Enéias, e de outros autores que tem enriquecido muito nosso cânone nacional.

  2. Laura Penteado /

    Uau, que incrível!! Simplesmente adorei a resenha e já estou mega interessada em ler, ai minha conta do cartão. Mas vale, com certeza, parabéns ao autor pelo livro, e à você pela resenha excelente.

  3. Obrigado Laura, pelo elogio e pelos constantes comentários :)

  4. Poxa vida, que crime eu ainda não ter lido esse livro. Acho a proposta dele sensacional e tive o prazer de garantir o meu lá na Bienal, com o próprio autor. Acredito que seja realmente valoroso o conhecimento do Enéias na hora de construir o texto, o que mais me chama a atenção nesse caso. :)

    Beijo!

    • Sérgio Magalhães /

      É realmente muito bom Raquel, faz uma forcinha pra ler o quanto antes, não vai se arrepender. Agora, torcer pra ter a oportunidade de poder autografar o meu volume com o Enéias! Quem sabe na Bienal desse ano :)

  5. Sérgio, acabo de ler sua resenha e achei excelente [para dizer o mínimo]. Também fiquei com toda a curiosidade para ler o trabalho analisado. Vamos ver se o faço, irmão de terras alencarinas.
    Abraços.

    • Recomendo demais a leitura amigo Inácio! Há uma qualidade na escrita e concepção raras em nosso cânone atual.

Citações

  1. Le Chevalier e a Exposição Universal - […] na incidência mais recorrente de obras publicadas nos últimos tempos em nosso mercado, vide A Lição de Anatomia do Temível …

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