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A Infância do Brasil

A Infância do Brasil

jul 30, 2017

Dentre os inúmeros problemas verificados no Brasil na atualidade, talvez nenhum deles seja tão arraigado quanto aos relacionados a infância, e como ela vem sendo tratada em âmbito social, político, econômico e cultural no país. Na verdade, observando mais de perto as chagas de nossa sociedade contemporânea, é quase certo que a origem dos males verificados nos âmbitos citados acima começam, justamente, na forma errônea como nossas crianças são formadas, desde sua concepção nos precários hospitais públicos, a sua educação, em escolas cada vez mais sucateadas e sem uma proposta pedagógica digna e inclusiva. Isso para ficarmos apenas nos aspectos mais superficiais do problema, embora constitua um viés fundamental ao entendimento da questão. No mais, é fato que as desastrosas consequências que vemos hoje no país, como ressaltado, são frutos de um desenvolvimento bastante longo, cheio de vícios, e que apenas reflete moléstias surgidas e enraizadas em nosso viés social através dos séculos, e não resultado de algo novo ou contemporâneo, como por vezes querem fazer parecer.

Evidencio a problemática acima, pois é sobre ela que trata o premiado quadrinista José Aguiar (“Coisas de Adornar Paredes”, “Nada com Coisa Alguma”, e “Folheteen”). Em seu trabalho muito bem intitulado como “A Infância do Brasil”, o ganhador dos prêmios Angelo Agostini e HQMIX, promove uma viagem histórica, cultural, e social, sobre como a criança foi tratada ao longo dos anos no país, estabelecendo com isso uma análise também do Brasil enquanto nação jovem, e ainda em desenvolvimento. Dessa forma, por meio de enredos protagonizados por crianças de diferentes épocas, o autor relata também o crescimento do país enquanto organismo vivo, e fruto de suas influências e peculiaridades. A obra, publicada em formato webcomic entre 2015 e 2016, contou com o apoio do Programa de Incentivo à Cultura da Fundação Cultural de Curitiba, incentivo da Caixa Econômica Federal, e chega em 2017 ao mercado de forma impressa publicada pela Avec Editora em parceria com a Quadrinhofilia Produções Artísticas.

Uma publicação essencial para educadores e amantes de uma boa leitura em quadrinhos

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O quadrinho relata a história da infância no Brasil por meio de seis narrativas curtas que ressaltam o momento, e situação social, política, e cultural, dos séculos que compõe a ainda breve cronologia do país, começando no XVI e finalizando na primeira década do XXI. Como ressaltado, cada uma das tramas revela o cenário do período em questão, partindo do tema da infância para desenhar em cores vívidas e marcantes todo um universo apresentado na realidade cotidiano do momento ali descrito. Interessante que cada capítulo, dedicada a um século em específico, e acompanhado por um verbo e citação que revelam muito da mensagem repassada por meio  da aliança fortuita entre texto e imagem, promovida pelas mãos pra lá de habilidosas de José Aguiar. Assim, embora retratem diferentes época, as narrativas inseridas no quadrinho atuam de maneira complementar, e sempre estabelecendo uma bem vinda conexão com o presente, como o vemos na última história apresentada na obra. 

Por exemplo, na primeira trama, passada no século XVI (nascer), vemos o drama de Don Gabriel, um colonizador português que vê-se preocupado com o nascimento de mais um filho, querendo ele que o rebento seja homem para herdar suas conquistas. O parto da criança, que orbita entre a fé católica dos desbravadores lusitanos e as mandingas da terra brasileira, concede um tom bem próximo as descrições históricas do período. Ainda nesse ponto, chama a atenção a vinda das “virgens do Rei”, órfãs enviadas pela coroa portuguesa para garantir a “brancura” do povo vindo ao país, evitando sua prole resultante do envolvimento com as índias. Na segunda história, em pleno século XVII (trocar) acompanhamos a saga dos jesuítas em sua tentativa de conversão dos nativos, por meio da instalação de escolas devotadas ao ensino da “verdadeira fé”. O contato com os índios, e os avanços conquistados pela santa missão desses cristãos, deu o tom do relacionamento infantil na época, embora tenha falhado em alguns pontos, mas sendo uma importante herança para a atuação religiosa e educacional em períodos posteriores do Brasil. 

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Na trama seguinte temos a história de Gabriel (sim, o nome é comum em todas as histórias), um jovem mestiço que vive largado nas ruas, e que sofre em consequência disso. Nesse momento, passado em pleno século XVIII (delegar), o autor evidencia a situação dos mestiços pobres no país, e a ligação do Estado com essas crianças, havendo uma visão delas como parte do meio social, e não apenas responsabilidade de seus país. Já no século XIX (reter), vemos um drama baseado em uma história real, ligada ao julgamento de uma senhora de escravos acusada de maus tratos, e de quebra da lei do Ventre Livre. Graças a um acordo legal injusto, vê-se a impunidade atuando, mas o estabelecimento de uma nova realidade para os filhos da escravidão no país, embora ainda longe da realidade esperada.

No século XX (responsabilizar) outro Gabriel, um jovem vendedor de jornais, nos leva a Era Vargas, quando a situação da criança se equilibrava entre a proteção legal e a necessidade como mão de obra nas recém instaladas fábricas. Em uma oposição clara entre moderno e arcaico, Aguiar retrata por meio da criança e sua família as injustiças pela qual os pequenos ainda eram submetidos no período, mesmo havendo o surgimento de pequenas mudanças nesse quadro. Por fim, temos o século XXI (perpetuar) onde um casal vive a expectativa de seu primeiro filho(a). Em meio a alegria da chegada de uma nova vida, eles percebem de maneira sutil como a realidade que os cerca ainda é cheia de contrastes e heranças dos problemas ligados a infância, vistos nos séculos anteriores.

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Interessante notar como o autor estabelece de forma direta uma relação entre presente e passado, demonstrando de maneira clara como muitos dos problemas que vemos hoje nas grandes cidades brasileiras, são o resultado direto de males enraizados em nossa sociedade como um todo. A relação estabelecida ao final de cada história, finalizada na trama final, compõe de forma coerente e sincera a maneira como o Brasil se desenvolveu nessa e em outras questões, e, de maneira subjetiva, como pode-se mudar essa quadro tão preocupante. E mais, tratado em escala crescente do drama de colonizadores, índios, negros, mestiços, e pobres, Aguiar monta um cenário crível e palpável para qualquer leitor que conheça o mínimo de nossa realidade contemporânea.

Em suma, esse “Infância do Brasil” (Avec Editora, 2017) é uma obra essencial por vários motivos, e não apenas para os apreciadores da nona arte, muito pelo contrário, qualquer leitor irá apreciar o quadrinho por todas as suas qualidades, garanto. Nesse quesito, poderia destacar a arte e narrativa fantástica de José Aguiar, de encher os olhos, no entanto seria injusto destacar somente um aspecto da obra como acima das outras. O conteúdo, assessorado pela doutora em educação e historiadora Claudia Regina B. Moreira (Universidade Federal do Paraná), demonstra com empatia e competência o desenvolvimento do Brasil nessa e outras áreas relacionadas. Por isso, além de conquistar o mercado nacional entre os leitores comuns, deveria estar nas escolas e ser trabalhado com bastante cuidado e carinho na educação, tem muito a acrescentar, não tenho dúvidas disso.

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