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A Gigantesca Barba do Mal

A Gigantesca Barba do Mal

abr 12, 2017

Durante a leitura desse fabuloso (nos dois sentidos) “A Gigantesca Barba do Mal” (Nemo, 2016) não pude tirar o seguinte questionamento da mente “Como as pessoas ainda podem achar que quadrinho é coisa apenas para criança?”. Claro, entendo que a ignorância e/ou preconceito ainda mantém uma ideia tão absurda quanto essa na cabeça de muita gente, muito embora, a grande relevância que trabalhos como esse vem conquistando ajudem e muito na desconstrução desse pensamento tão restrito e alheio a realidade da nona arte (sim, eu uso esse termo e não sou pedante, tá?!). Pois bem, a estreia do ilustrador e reconhecido cartunista Stephen Collins no formato novela gráfica (já falei sobre uso de termos pedantes, não?) não apenas demonstrou uma habilidade inata e particular em narrativa, como soube evoluir um tema forte e enraizado na cultura pop da passagem do século XX, ou seja, o ordenamento social dentro de uma estrutura rígida e distante da empatia humana. Finalista do Eisner Award – um dos prêmios mais prestigiados do universo dos quadrinhos -, a publicação de 2013 apenas confirmou a crescente fama de Collins, conquistada com suas tirinhas, e fundamentou uma obra bastante pessoal e capaz de suscitar pensamentos críticos em quem lê, algo essencial a qualquer produção artística.

“Na ilha de Aqui tudo é meticulosamente organizado e certinho. As ruas são asseadas, a grama é bem aparada e os homens são rigorosamente barbeados. Dave não foge à regra. Tem um emprego que lhe permite pôr em prática todo o seu senso de organização, bem como distrair a mente de pensamentos indesejáveis, e encontra paz numa rotina totalmente ordeira.Num dia fatídico, porém, Dave se vê como a raiz de um gigantesco problema: uma barba que irrompe de seus poros e desafia a lógica e a ciência. Logo ela se tornará uma questão de segurança pública e irá abalar as estruturas de Aqui, figurativa e literalmente. Uma fábula arrojada, que faz lembrar Roald Dahl e convida a refletir sobre algumas das questões humanas deste século.” (Nemo, 2016)

Um quadrinho que excede a recomendação superficial

Um quadrinho que excede a recomendação superficial

Para quem possui um pouco mais de conhecimento de mundo, especialmente em relação ao cinema e televisão, não é difícil perceber semelhanças marcantes da sociedade vista em Aqui com as reveladas em “O Show de Truman” (1998), “Matrix” (1999), e “Big Brother” (1999), ou seja, a cidade localizada em uma ilha simetricamente perfeita, segue um código social e estrutural devotado ao ordenamento geométrico e sentimental. Graças a isso, as pessoas se encontram alheias a realidade que os cercam e acabam isolados dentro de seus próprios mundos, representados na narrativa por meio das telas dos celulares.

O apego a ordem torna a vida insossa e cinzenta, tornando Aqui uma distopia centrada na perfeição e falta de empatia humana. A semelhança com os exemplos citados, aparece novamente quando se manifesta o medo pela quebra dessa ordem, e pelo mundo fora da ilha, conhecido como Lá. Os mitos e lendas criados acerca do mar que cerca a localidade e da terra distante do qual nada se sabe, amedronta a vida dissabor dos moradores da cidade. Engraçado perceber que esse medo do desconhecido promove uma mudança estrutural em Aqui, sendo o centro da cidade super valorizado e o litoral tido como o pior lugar para se morar (bem o contrário da realidade em cidades costeiras ou ilhas). Aliás, as casas na beira da praia sequer possuem vista para o mar!

Protagonista e antagonista na mesma pessoa e local...

Protagonista e antagonista na mesma pessoa e local…

A estranheza de Aqui se torna ainda mais evidente quando comparada com o Dave, o protagonista da história. Um homem de meia idade que vive solitário em uma casa no litoral da cidade, ele prefere observar as pessoas que passam na rua (e desenhá-las) a observar o celular ou assistir televisão – algo normal para os demais moradores. Ao som recorrente de “Eternal Flame”, da banda The Bangles, ele passa suas noites em frente a janela captando a expressão das pessoas e os acontecimentos cotidianos da rua. Imerso no cotidiano de Aqui, Dave se destaca por não usar o celular enquanto anda, e por cumprimentar seus colegas de trabalho (algo não retribuído e estranhado). Embora trabalhe ordenando gráficos e os apresentando para impassíveis executivos, ele mantém uma rotina levemente diferente dos demais, mesmo se adequando a monotonia e ordenamento da sociedade onde vive.

Porém, tudo muda quando um único e persistente fio de barba que Dave tem abaixo do nariz se torna uma gigantesca barba, mudando não apenas a passividade dos habitantes de Aqui, mas seus hábitos também. Nesse ponto, a relação intrínseca entre Dave e Aqui se torna indissociável. Rompendo com o asseio exigido com determinação aos moradores da cidade, a enorme barba vai invadindo as ruas e obrigando a sociedade local a sair de sua passividade, fugir da tela dos celulares e questionar não apenas o conflito presente, mas também sua própria vida e relação com a sociedade onde vivem. A insólita barba acaba obrigando as autoridades a tomarem uma medida igualmente desmedida enquanto as pessoas – furiosas com o rompimento de sua ordem -, ganham empatia pelo problema e pessoa por trás dele. Por fim, a importância do desfecho se dá não do destino de Dave, mas no legado deixado por ele (ou pela barba) na cidade e habitantes que nela vivem. 

A barba sendo moldada ao mesmo tem que molda os costumes de Aqui

A barba sendo moldada ao mesmo tem que molda os costumes de Aqui

Além de todos os aspectos tratados acima, é relevante citar a personalidade da arte de Stephen Collins. O tom cinzento das ilustrações reforça o clima árido em termos sentimentais do cenário. Outro ponto relevante diz respeito a pluralidade da narrativa do autor, principalmente, na disposição dos quadros ao longo das páginas. Nesse ponto, a leitura ganha uma fluidez muito interessante, e que desperta a curiosidade do leitor logo no inicio do enredo.

O quadrinho possui o grande mérito de despertar no leitor uma autorreflexão imediata, não apenas sobre o meio onde vive, mas em si mesmo também. Embora a fábula utilize um forte teor fantástico e distópico em sua fórmula, a proximidade com aspectos verossímeis da sociedade contemporânea causa uma observação reflexiva sobre a vivência atual, e como o exagero e busca pela perfeição por mais prejudicar do que ajudar a proximidade entre as pessoas, e o modo como interagem com o meio e entre si.

2 Comentários

  1. DanSeven /

    cara já queria muito ler essa HQ, agora depois da sua resenha essa vontade só aumentou ainda mais, ótima resenha parabéns…

    • Sérgio Magalhães /

      Cara, assim que tiver uma chance leia mesmo. É fantástica :D

      Abraço

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