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A Fantasia e Ficção Científica Singular de Ursula K. Le Guin

A Fantasia e Ficção Científica Singular de Ursula K. Le Guin

abr 5, 2017

Dentre a miríade de grandes nomes do gênero fantasia e ficção científica surgidos ao longo dos tempos em literatura, sem dúvidas a estrela destinada a presença de Ursula K. Le Guin nesse cenário é uma das mais brilhantes, particulares, e diferenciadas. Ícone não apenas da produção literária ressaltada acima, mas uma escritora capaz de romper com as amarras narrativas, produtivas, e conceituais dos estilos trabalhados em suas obras, soube reinventar enredos, personagens, e temas, mesmo sendo contemporânea de figuras clássicas dentro dos gêneros onde escolheu orbitar com todo o seu talento e inventividade. Hoje, consolidada como uma das lendas vivas da literatura universal, Le Guin continua chamando atenção pela coragem de romper com as amarras estilísticas tão bem formuladas por escritores que a antecederam, como também introduziu na fantasia e ficção científica o trato de assunto e ideias alheias a obra citada de uma maneira única, enfática, e conduzida com a graça e empatia de uma figura talentosa e consciente de seu papel alheio à essência artística, caindo no âmbito social da questão.

Portanto, para entender o mínimo que seja da verdadeira importância da autora dentro da literatura que produziu, é intrínseco um olhar bastante aguçado sobre sua vida, influências, produção, e sentimentos. Sem uma relação profunda entre os aspectos ressaltados, apenas um pequeno e injusto vislumbre de toda a riqueza lírica e social de sua obra seriam revelados, não totalizando nem de perto toda a alma e emoção transmitida ao leitor capaz de aventurar-se pelas páginas fantásticas de Le Guin, seja em qualquer um de seus livros.

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A serenidade no olhar de que sabe ter marcado a literatura fantástica

O primeiro grande marco para entender a criação e desenvolvimento da narrativa da autora é sua própria infância. Nascida em Berkeley, Califórnia (21 de Outubro de 1929), teve como pais o antropólogo Alfred Kroeber e a escritora Theodora Kroeber. Fiz questão de ressaltar a profissão dos pais, pois fizeram grande diferença na formação, e posterior produção artística, de Le Guin. Por parte do pai, soube aprofundar-se nas questão humanas, sociais e culturais, sobretudo, formando desde cedo uma visão política relacionada a esses aspectos que seria um enorme diferencial em sua obra. Da mãe, herdou o gosto pela leitura de ficção. Ora, criada em um ambiente cercado de livros e arte, conviveu desde cedo com narrativas, em especial, de lendas e mitos. O apego aos livros, leitura, e literatura, se sobressaltou quando aos 11 anos escreveu seu primeiro conto e submeteu a uma revista para publicação. Sobre essa fase de sua infância, afirmou em entrevista certa vez que: 

“Assim que aprendi a ler, eu li de tudo. Eu li todas as fantasias famosas – Alice no País das Maravilhas e O Vento nos Salgueiros e Kipling. Eu amava o Livro da Selva. E, então, quando fiquei mais velha, descori Lord Dunsany. Ele abriu um novo mundo para mim – o mundo da pura fantasia. E… o livro Worm Ouroboros. Novamente, pura fantasia. Muito, muito nutritivo. Daí, meu irmão e eu tropeçamos na ficção científica quando eu tinha 11 ou 12 anos. As primeiras obras de Asimov, coisas desse tipo. Mas isso não teve muito efeito sobre mim. Não foi até quando eu retornei à ficção científica e descobri Sturgeon – mas, especialmente, Cordwainer Smith. …Eu li a história “Alpha Ralpha Boulevard”, e ela me fez pensar “Uau! Isso é tão belo, e tão estranho, e eu quero fazer algo assim.”

Quer dizer que você ainda não leu nenhum dos meus livros?!

Embora, como já ressaltado, tenha começado a escrever ainda enquanto criança, teria seus primeiros livros publicados somente na década de 1960, entrando de maneira singular no gênero fantasia, e usando seu conjunto particular de influências para desenvolver algo próprio, marcante, e necessário para o estilo produzido. Como autora de fantasia, era óbvia sua predileção por J.R.R. Tolkien (1892-1973), que leu com afinco pouco depois do lançamento de suas principais obras: O Hobbit (1937) e O Senhor dos Anéis (1954-1955).  Porém, leitora precoce e ávida, mergulhou por diversos estilos e nacionalidades, formando uma percepção criativa plural e enriquecedora. Da infância a adolescência folheou nomes como Tolstói, Virgílio, Irmãs Bronte, Lewis Carrol, Rudyard Kliping, dentre outros. No entanto, teria grande impacto em sua vida a leitura de Philip K Dick, em relação a Ficção Científica, e Virginia Woolf, enquanto cultivadora do feminismo em literatura. 

Ao publicar o primeiro volume do Ciclo de Terramar (Earthsea, no original)  O Feiticeiro de Terramar (1968) conquistou grande notoriedade no mercado, embora já chamasse atenção por seus contos e poemas que surgiam de maneira esporádica em diversas folhetins. Seguido pelos livros: Os Túmulos de Atuan (1971), A Praia Longínqua (1972), Tehanu, O Nome da Estrela (1990), e, Num Vento Diferente (2001), a série tornou-se um clássico da fantasia, e alçou o nome de Le Guin como um dos pilares do gênero no mundo inteiro. Entretanto, seu grande sucesso veio com “A Mão Esquerda de Escuridão” (1970), obra de ficção científica que ressaltava de uma maneira bastante peculiar uma sociedade onde o gênero dos habitantes de um planeta não eram definidos. A natureza social e política da obra chamou bastante atenção e alçou a autora à evidencia da Ficção Científica de seu tempo. De acordo com a própria autora, sobre sua visão a respeito do gênero cultivado:

” … o trabalho da ficção científica não é prever o futuro. Ao invés disso, ela contempla possíveis futuros. Escritores podem achar o futuro atraente precisamente por ele não poder ser conhecido, uma caixa preta na qual pode-se dizer que qualquer coisa é passível de acontecer, sem medo da contradição de um nativo. O futuro é um laboratório seguro e estéril para testar ideias, um meio de pensar acerca da realidade, um método.”

O Feiticeiro de Terramar desafia inimigos bem mais complexos em sua trama

No caso da fantasia, por exemplo, o já citado “Feiticeiro de Terramar” embora pertencente ao movimento iniciado por Tolkien em relação ao estabelecimento moderno no gênero – tendo como referencial temático as lendas e mitos da antiguidade -, soube fugir das questões recorrentes, e voltou-se ao desenvolvimento do personagem enquanto ser em conflito com suas próprias qualidade e defeitos. Seu protagonista, Ged (também conhecido como Gavião), não trava uma batalha épica e militar contra seus inimigos, muito pelo contrário, seu maior adversário é sua própria ambição e falta de conhecimento. Desta forma, Le Guin adota a fantasia de uma perspectiva diferente, mesmo respeitando os elementos narrativos estabelecidos pelo autor de “O Senhor dos Anéis” e daqueles que o tinham como guia artístico. 

Ganhadora dos prêmios mais prestigiados da fantasia e ficção científica – Hugo, Nebula, Locus, Asimov, Lewis Carrols, Shelf, e, World Fantasy -, conquistou seu renome nos gêneros citados pela mudança de perspectiva tratada em seus textos, mesmo quando dentro de um estilo já consagrado. Ora, é comum o debate de questões relacionadas a sociologia, psicologia, feminismo, etnocracia, e anarquismo, em suas obras. Desta forma, aplicou com propriedade suas inúmeras influências de maneira prática e fluente em literatura, relacionando os termos com observações sociais, culturais, e políticas, bastante apuradas e oportunas ao contexto revelado em seus enredos. Como afirmou em entrevista sobre esse aspecto de sua escrita:

“Eu vi os elementos sociais e políticos dos meus romances e histórias surgirem enquanto eles se apresentavam na época. Eu certamente não fui clarividente! Apenas posso dizer que lamento que tantas dessas questões urgentes estão não apenas ainda relevantes, mas mais urgentes do que eram quando eu escrevi sobre elas”

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Ursula Le Guin sem medo de assumir o papel e responsabilidade de autora

Ou seja, embora tenha caminhado sempre no terreno da ficção especulativa, Le Guin soube trazer para dentro dos elementos insólitos dos gêneros sobre os quais orbitou uma dose generosa de realidade sócio-cultural, fazendo o leitor perceber questões alheias a fantasia e ficção científica de uma maneira sagaz, coerente, e digna de uma produção artística de suma relevância. Não à toa, permanece ainda hoje como um símbolo de presença de espírito e particularidade em relação a escrita literária, revelando a obrigado do autor enquanto construtor de um pensamento humano e questionador mais apurado e crítico. E isso, além da evidente fruição de suas obras, consiste numa riqueza lírica que merece ser conhecida, e compreendida, por qualquer leitor.

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