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A Cabeça do Santo

A Cabeça do Santo

abr 25, 2017

Em 2006 Gabriel Garcia Márquez voltada à Cuba, para a Escola de Cinema de San Antonio de Los Baños, com o intuito de ministrar mais uma edição da disputadíssima oficina “Como contar um conto” desejada por uma enorme fila de pretendentes, selecionados por fim em um diminuto grupo. Dentre aqueles que desejam participar da ocasião, estava a escritora cearense Socorro Acioli, já experimentada no terreno da literatura infantil e do ensaio biográfico. Porém, mesmo com a experiência na área, não ficou entre os primeiros escolhidos. No entanto, uma vaga aberta mudaria os rumos produtivos da autora. Sendo preenchida pelo próprio Gabriel Garcia Márquez por meio da leitura dos enredos submetidos como critério de avaliação para a oficina. Foi assim que “A Cabeça do Santo” (Companhia das Letras, 2014) começava a ganhar forma, e prestígio, pela chancela de um dos “país” do Realismo Mágico sulamericano.

E não à toa. O romance de estreia da cearense, segundo José Eduardo Agualusa “é uma festa, um divertido exercício de imaginação, partindo de uma ideia que parece roubada aos melhores sonhos de Gabriel Garcia Marquez e desenvolvendo-a até ao final com elegância e mestria.” Todavia, ela vai muito além de uma aproximação criativa, estilística, e conceitual relacionada ao colombiano. O livro chama atenção pela particularidade, acima de tudo. Aliado a uma escrita fluida, enredo interessante, personagens instigantes, e uma ambientação regional digna do sobrenatural cotidiano do gênero cultivado na obra, “A Cabeça do Santo”, revela uma narrativa madura, com personalidade e respeito aos elementos usados para compor o seu todo em termos de narração, personagens, conflitos, e ambientação. Porém, antes de adentrar com mais cuidado nos elementos citados, vamos ao enredo da trama:   

Dizer que o trabalho da Companhia das Letras é bom é pleonasmo

Dizer que o trabalho da Companhia das Letras é bom é pleonasmo

“Pouco antes de morrer, a mãe de Samuel lhe faz um último pedido: que ele vá encontrar a avó e o pai que nunca conheceu. Mesmo contrariado, o rapaz cumpre a promessa e faz a pé o caminho de Juazeiro do Norte até a pequena cidade de Candeia, sofrendo todas as agruras do sol impiedoso do sertão do Ceará. Ao chegar àquela cidade quase fantasma, ele encontra abrigo num lugar curioso: a cabeça oca e gigantesca de uma estátua inacabada de santo Antônio, que jazia separada do resto do corpo. Mas as estranhezas não param aí: Samuel começa a escutar uma confusão de vozes femininas apenas quando está dentro da cabeça. Assustado, se dá conta de que aquilo são as preces que as mulheres fazem ao santo falando de amor.” 

“Seu primeiro contato na cidade será com Francisco, um rapaz de quem logo fica amigo e que resolve ajudá-lo a explorar comercialmente o seu dom da escuta, promovendo casamentos e outras artimanhas amorosas. Antes parada no tempo, a cidade aos poucos volta à vida, à medida que vai sendo tomada por fiéis de todos os cantos, atraídos pelo poder inaudito de Samuel. Em meio a esse tumulto, ele ainda irá se apaixonar por uma voz misteriosa que se destaca entre as tantas outras que ecoam na cabeça do santo.” (Companhia das Letras)

O começo de um história marcante e representativa ao clima nordestino

O começo de um história marcante e representativa ao clima nordestino

Em minha visão o livro encerra em si uma mistura bem dosada, e competente, do Realismo Mágico sulamericano, com o regionalismo fundamentado em nossa literatura pela Geração de 30 (Raquel de Queiróz, Graciliano Ramos, Érico Veríssimo, Guimarães Rosa, etc). Começando pelo cenário e se estabelecendo pelos costumes enraizados no povo interiorano do Nordeste, e muito bem descrito nos personagens da obra. Ora, o drama de Samuel começa com uma promessa feita à mãe, seguida de uma peregrinação sob o sol inclemente do sertão, algo recorrente em enredos regionalistas. Em seguida, os acontecimentos transcorridos na pequena Candeia, representam de maneira precisa aspectos sociais do interior sertanejo como: a religiosidade exacerbada, adoração aos ídolos, crença no pagamento de promessas, sacrifícios em nome da palavra dada ou vínculo com a religião, crença em milagres ou na intervenção divina para a resolução de problemas.

Em termos de cenário, a verossimilhança de Candeia com diversas outras cidades espalhadas pelo sertão nordestino vem da inspiração utilizada pela autora para a composição do ambiente. Para isso, Socorro Acioli usou como inspiração duas cidades do interior do Ceará: Caridade, conhecida por seu forte apelo religioso – assim como Juazeiro, que também aparece no romance -; e Cococi, pequeno vilarejo cearense que foi abandonado há muitos anos, contanto apenas com um punhado de moradores que resistem a solidão do local. Assim, Candeia além de conter em si nuances dois ambientes, representa em essência o teor social, cultural, político e religioso de inúmeras localidades semelhantes espalhadas pela região nordeste. Importante ressaltar essa influência, pois ela cria uma veracidade lírica ao cenário, que cativa o leitor e potencializa a imersão dele naquele ambiente, na maioria das vezes, estranho à ele próprio.

Uma pequena amostra do texto marcante e empático da autora na obra

Uma pequena amostra do texto marcante e empático da autora na obra

Porém, embora o gênero e o cenário sejam elementos marcantes na narrativa, uma moldura que se mescla de forma intrínseca ao contéudo artístico,  não podemos esquecer o rico conteúdo humano presente na obra. Embora o fio condutor do enredo seja o drama de Samuel, uma série de outros destinos trágicos vão se desvelando ao folhear da páginas, imprimindo ali outro viés muito forte no cotidiano sertanejo, o sofrimento inclemente. Antes e depois do nascimento do protagonista, somos apresentados a várias histórias recheadas de desencontros e privações de caráter verossímil e enraizado na vivência do povo interiorano no nordeste. Por isso, a possibilidade de uma felicidade/realização amorosa acaba ganhando força quando interligada ao teor sobrenatural da relação entre Samuel e a cabeça do santo que lhe serve de moradia. 

O livro se torna marcante pela empatia como dialoga com quem lê, mesmo que apresentado um cenário bastante alheio da maioria dos leitores. Os sentimentos de Samuel e daqueles que o cercam propõe uma ligação imediata com a emoção e permanecem entranhados no íntimo de quem se aventura pelo drama do protagonista. Seguindo a tradição literária cearense, não tenho qualquer receio em afirmar que este A Cabeça do Santo já faz parte do cânone de grandes obras de autores de nosso Estado, seguindo seu reconhecimento imediato em termos de Brasil, e conquistando terras estrangeiros pouco tempo após a sua publicação.

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