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A Bandeira do Elefante e da Arara

A Bandeira do Elefante e da Arara

set 20, 2017

E finalmente consegui ler um dos livros que mais despertou minha curiosidade nos últimos tempos, falo de “A Bandeira do Elefante e da Arara” (Devir, 2016) do autor Christopher Kastensmidt. Para quem não conhece, a obra relata as aventuras do holandês Gerard Van Oost e seu companheiro, o iorubá Oludara, pelas matas brasileiras combatendo criaturas monstruosas, e desafiando a ira e ganância dos colonizadores e piratas que pretendiam fazer fortuna em uma colônia ainda desconhecida em seus mistérios e perigos. Para mim, a mistura muito bem dosada entre nossa história, seus elementos folclóricos e/ou mitológicos, e aspectos sociais e culturais dos povos que formaram essa origem étnica da população brasileira nas épocas posteriores, já constitui motivo suficiente para me instigar a leitura do livro. Afinal, mesmo havendo certa distância entre as obras, títulos como “Viagens ao Brasil” (1557), “Caramuru” (1781), e a famigerada “Carta de Pero Vaz de Caminha” (1817), sempre despertaram minha curiosidade por relatarem fatos – verídicos e ficcionais -, de um período pouco conhecido, e valorizado, de nossa cronologia histórica.

No entanto, não tome essas referências como um parâmetro de comparação com a criação do autor, muito pelo contrário. Mesmo havendo uma coerência e respeito muito grande em relação aos costumes e mitos daquele momento, Kastensmidt soube desenvolver um universo só seu, onde valores e feitos da época acabam confrontados pela visão de seus protagonistas que fogem do padrão dos colonizadores vistos no Brasil naquele período, ou seja, portugueses desterrados para a colônia e piratas franceses/holandeses em busca de territórios na próspera terra de domínio lusitano. Assim, um dos grandes méritos do livro foi construir para si um tom particular e linguagem fluida e envolvente, capaz de imergir sem demora o leitor nas sagas aventurescas da Bandeira do Elefante e da Arara pelas florestas brasileiras.

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Em suma, o livro apresenta uma série de capítulos que narram – em uma sequência linear de tempo -, como se conheceram o explorador holandês e o sagaz africano iorubá. Juntos, eles foram uma bandeira de apenas dois componentes e partem em busca de aventura e fama, enfrentando criaturas monstruosas que aterrorizam nativos e colonizadores ao longo do litoral brasileiro. A história começa em 1575 em Salvador, e passa por Olinda, Rio de Janeiro, e volta para o início a fim de enfrentar um desafio improvável de ser vencido. Logo de início, Gerard liberta Oludara, graças a um plano envolvendo a captura do Saci Pererê, e eles fazem um pacto de permaneceram por 5 anos como companheiros de aventuras. Por fim, o africano pretendia voltar a sua terra e honrar a memória de seus ancestrais. Importante salientar esse pacto inicial, pois ele ecoa por todos os capítulos do livro, dando direcionamento ao desfecho da obra, abrindo uma interessante possibilidade para uma sequência (tomara).

Outro ponto relevante quanto a narrativa, diz respeito a origem distinta deles, um recurso muito poderoso na história. Ora, sendo um escravo africano, e um explorador holandês, a visão deles permite quem lê apreciar um vislumbre social, cultural e histórico diferente da perspectiva portuguesa (mais comum nessa narrativa) ou indígena (fruto da violência inicial da exploração colonial). E mais, protestante em um país de católicos, Gerard enfrenta uma série de preconceitos – um deles ser impedido de entrar em uma bandeira -, e dilemas morais internos, perante os costumes diferentes com os quais tem contato, especialmente, durante a estadia deles em uma tribo de tupinambás. 

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Sobre o tom usado no livro para desenvolver a narrativa, o autor usou bem os recursos do subgênero capa e espada, que tem na fantasia sua âncora mais referencial. Um dos pontos mais evidentes disso, está no comportamento dos personagens – que correm em direção ao perigo ao invés de serem jogados nele de forma ocasional -, desejando enfrentar o desconhecido para ajudar os outros, e conquistar fama e fortuna. Ainda nesse sentido, os capítulos do livro se fecham em torno de acontecimentos específicos da narrativa, em que os bandeirantes enfrentam um (ou mais) criaturas em cada um deles, e, embora sejam factuais por si, formam uma história completa e interligada no fim. Prova disso está na passagem de tempo entre uma aventura e outra, demonstrando ao leitor que o objetivo ali é desenvolver a ação em primeiro plano, e não o ambiente descrito. 

E o que falar dos monstros e criaturas enfrentadas por Gerard e Oludara? Incrível como, mesmo sendo brasileiro e interessado por essa cultura, ainda há muito de desconhecido sobre esses seres para mim, um recurso poderoso ao texto como elemento surpresa e instigante para quem lê. Para nós, mais acostumados ao folclore europeu, é fácil saber que um dragão cospe fogo, mas o que faz o Capelobo? A Iara? O Boitatá? Esse desconhecimento imerge ainda mais o leitor na trama, pois você compartilha da insegurança e ignorância dos bandeirantes em relação aos monstros enfrentados, algo raro hoje em dia. Nesse quesito, a coragem de Gerard e sagacidade de Oludara ganham um destaque ainda maior. Interessante notar que o desafio mais recorrente e mortal aos parceiros de aventuras é um homem, Antônio Dias Caldas, dono da maior bandeira de Salvador naquele período. 

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Ao longo do livro, o autor além de demonstrar elementos de uma pesquisa apurada e precisa sobre o país da época, inseridos no enredo de maneira coesa ao ritmo de linguagem empregados, ainda expõe problemáticas da época, como a escravização dos índios pelas bandeiras para trabalho nos engenhos de cana de açúcar, e a invasão de outros países aos núcleos de colonização portuguesa. Nesse sentido, também descreve os costumes diferentes das tribos nativas, e a atuação dos jesuítas no sentido de cristianizar os habitantes originais do país. Óbvio, tudo isso em um cenário que mescla ficção e fantasia, mesmo embasado em um marcante fundo histórico.

Por fim, é relevante dizer que o livro é divertido, acima de tudo, e vem preencher no Brasil duas lacunas ainda muito carentes em nossa literatura: o trato com nuances de nosso folclore/cultura; e fantasias baseadas no subgênero capa e espada. Quando esse espaço é preenchido de maneira tão competente e instigante, é difícil não ressaltar de maneira apaixonada. Desta forma, é impossível que eu não relate minha grande satisfação ao final da leitura. Embora tivesse uma expectativa grande em relação a obra, posso dizer que elas foram superadas pelo trabalho do Christopher Kastensmidt. Assim, o que mais eu posso falar? Leia, e mergulhe nesse universo fantástico, e tão nosso!

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