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5 Livros ‘Steampunk’ Nacionais que Você Precisa Ler

5 Livros ‘Steampunk’ Nacionais que Você Precisa Ler

out 10, 2017

Embora não seja um estilo tão difundido quanto a fantasia em literatura, existe um todo um charme no steampunk capaz de atrair inúmeros leitores para dentro de seus mundos adornados por tecnologias a vapor. A riqueza e originalidade emitida por essa produção literária, como bem expomos no artigo As Engrenagens do Steampunk acaba não apenas cativando quem lê de maneira surpreendente e empática, como invade outros subgêneros, dado o seu apelo estético e narrativo dessa literatura que tem suas raízes criativas nas obra similar de Júlio Verne. No Brasil, seguindo de maneira proporcional mercados maiores como o americano e o europeu, esse tipo de literatura ainda é bastante pontual, infelizmente. Todavia, ainda da mesma forma que nas referências editoriais citadas, essas obras acabam consistindo não apenas em marcos para o estilo, mas referências para leitores e futuros autores que pretendem dedicar sua leitura e/ou escrita a esse tipo de cenário. Até porque, em um cenário ainda carente desse tipo de literatura, cada novo livro que surge aparece como um sopro renovador e consistente para a formação de um cânone nacional maior e mais relevante para o steampunk no país.

Agora, se você ainda não conhece nada desse subgênero, ou apenas uma obra ou outra, vamos lhe dar algumas opções de autores nacionais que irão abrir os seus olhos para essa produção aqui no Brasil. Em nossa experiência, qualquer um deles escolhido como primeira leitura, irá lhe proporcionar uma excelente estreia no estilo, sendo a porta de entrada para um universo rico, fascinante, e recheado de perigos e desafios. Vamos lá…

Fala sério, só essas capas já dão vontade de comprar os livros, antes de ler o texto

Fala sério, só essas capas já dão vontade de comprar os livros antes mesmo de ler o texto

O Baronato de Shoah (Editora Draco, 2011), é considerado um dos primeiros livros com a temática steampunk no Brasil – talvez o primeiro. Publicado na primeira década do século XXI, ele surgiu nas livrarias quando a estética do subgênero era apenas um resquício produtivo em obras de fantasia mais tradicionais, ou em parcos títulos estrangeiros trazidos ao país de maneira ainda tímida pelas editoras. A originalidade do cenário, aliado a atuação ferrenha do autor José Roberto Vieira, como divulgador não apenas de sua obra, mas do estilo, concederam um breve vislumbre do steampunk à vários leitores carentes desse tipo de literatura por aqui. Por muito tempo O Baronato de Shoah – A Canção do Silêncio, livro de estreia do escritor, foi uma referência no país desse tipo de produção artística, e, sem dúvidas, abriu muitas portas para livros que viriam depois. Entre os leitores, a obra chamou a atenção pelo apego ao estilo steampunk, óbvio, mas pela qualidade da escrita e relação intrínseca com inúmeras referências a animações, quadrinhos, RPG, e videogames. Além disso, a adoção de seres mitológicos aliado aos grandes inventos tecnológicos daquele cenário, concederam uma abertura fantástica a quem ainda desconhecia a magia envolvente do subgênero no Brasil. 

Conforme aponta a sinope oficial da obra “Desde o nascimento os Bnei Shoah são treinados para fazerem parte da Kabalah, a elite do exército do Quinto Império. Sacerdotes, Profetas, Guerreiros, Amaldiçoados, eles não conhecem outros caminhos, apenas a implacável luta pela manutenção da ordem estabelecida. Depois de dois anos servindo o exército, Sehn Hadjakkis finalmente tem a chance de voltar para casa e cumprir uma promessa feita na infância: casar-se com seu primeiro e verdadeiro amor.” Tendo um cenário rico, amplo, e instigante, a leitura do livro revela, também, o retrato de um período em que a literatura fantástica ainda não dominava as prateleiras e listas de mais vendidos país afora. Assim constitui essa produção de José Roberto Vieira um marco do estilo, e uma possibilidade valiosa de conhecer-se a raiz do steampunk em seus primeiros passos por aqui.

Um livro que apresenta um legado da literatura nacional com qualidade contemporânea

Um livro que apresenta um legado da literatura nacional com qualidade contemporânea

 A Lição de Anatomia do Temível Dr. Louison (Leya, 2014), foi publicado devido a vitória de seu autor, Enéias Tavares, em um concurso publicado pelo selo Fantasy – Casa da Palavra que pretendia revelar um novo escritor de literatura fantástica nacional. Professor de literatura clássica pela Universidade Federal de Santa Maria (RS), Tavares nos brindou então com um obra de grande qualidade e relevância não apenas para o steampunk, mas para o gênero como um todo. Ora, promovendo uma fortuita ligação entre  o fantástico, traços da literatura brasileira, e nossa própria história do Brasil, o livro de estreia do autor gaúcho já chegou demonstrando uma maturidade rara nesse sentido, e um enredo e cenário dignos de nota. O romance se passa em 1911, em uma Porto Alegre  dominada por dirigíveis gigantescos e o vapor cinzento dos bondes, das fábricas e dos estaleiros ao redor, somando-se à fumaça dos charutos, dos cachimbos e das cigarrilhas. Vozes robóticas, barulho de hélices e maquinários misturam-se ao alarido do povo. Nesse instigante cenário, desembarca Isaías Caminha, um jornalista carioca enviado à cidade para escrever uma matéria sobre o assassino em série Antoine Louison, que há poucos dias assombrava o local com um verdadeiro show de horrores: a exposição dos órgãos de suas vítimas.

De acordo com a sinopse do livro “A aventura começa depois que o Dr. Louison, finalmente capturado e preso no hospício, desaparece misteriosamente de sua cela de segurança máxima sem deixar vestígios. Nesta busca pelo paradeiro do assassino, Isaías e um grupo de investigadores ainda vão topar com conhecidos do Dr. Louison, pertencentes a uma sociedade secreta de intelectuais, chamada Parthenon Místico, que estão dispostos a tudo para defendê-lo e desmascarar os criminosos. Esses amigos de Louison são alguns aclamados personagens da literatura brasileira, em brilhante reinvenção: Rita Baiana e Pombinha, de Aluísio Azevedo, Simão Bacamarte, de Machado de Assis, Solfieri, de Álvares de Azevedo, entre outros.” A relação com os personagens da literatura brasileiro constitui um ponto alto do livro, sem dúvidas. Porém, a escrita, ritmo, cenário, tom, e descrição, revelam um todo muito maior e mais envolvente nessa obra, sendo ela uma necessidade para quem gosta do presente, sem esquecer da qualidade do passado de nossas letras.

Um cardápio de grandes livros para quem deseja conhecer o subgênero mais estiloso do fantástico

Um cardápio de grandes livros para quem deseja conhecer o subgênero mais estiloso do fantástico

Le Chevalier e a Exposição Universal (Avec Editora, 2014) do também gaúcho A.Z. Cordenonsi, leva o estilo para mais próximo de sua origens, ou seja, a França da segunda metade do século XIX, durante a Exposição Universal, um evento de caráter global que visa a reunião de tecnologias do mundo inteiro, reafirmando aquele momento histórico como um marco do mundo moderno. Como ressalta a sinopse da obra “O ano é o de 1867 e Paris prepara-se para celebrar a Exposição Universal, consolidando-se como a capital do mundo moderno! Impulsionada pela tecnologia a vapor do professeur Verne, Paris se tornou o epicentro de uma renovada Europa. Ferro, fumaça e óleo lubrificam o caminho do Império Francês enquanto drozdes mecânicos saltitam entre a multidão. Mas uma ameaça paira sobre a cabeça de Napoleão! Em uma guerra de apenas sete semanas, a Prússia derrota a Áustria e lança seus olhos cobiçosos sobre a rica e aristocrática França. Dos campos de batalha para os becos sujos da capital, dos jantares nababescos a catacumbas infestadas de ratos, assassinos e chantagistas se espalham no submundo da espionagem internacional.”

A escrita apurada e instigante do autor trabalha muito bem com um dos aspectos mais envolventes do estilo, a trama policial. E, seguindo um traço intrínseco de várias obra deste subgênero, Cordenonsi expõe o seu cenário e enredo sempre com uma ligação essencial com a história e a literatura da época, pondo o seu protagonista, Le Chevalier, em contato com personagens reais, e da ficção, ao mesmo tempo que desvenda segredos e enfrenta conflitos em uma França oscilante entre o verossímil e o fantástico. Por isso, o livro é uma escolha certa para quem deseja conhecer o steampunk através de uma produção rápida, envolvente, e cheia de aventura e drama.

Homens e Monstros – A Guerra Fria vitoriana (Editora Draco, 2014) romance do elogiado autor de ficção científica Flávio Medeiros Jr, promove um tipo de produção mais apegada ao histórico como pano de fundo para sua abordagem fantástica. Em suma, o cenário do livro se passa “Em um mundo steampunk, a história da Europa vitoriana não aconteceu como conhecemos. Após tensões com os colonizadores espanhóis, o Império Asteca torna-se parte do poderoso Império Britânico. Mas os ingleses não são os únicos protagonistas e disputam com os históricos rivais franceses pela hegemonia nesse novo panorama. Assim, o século XX começa com uma verdadeira Guerra Fria entre essas duas grandes potências mundiais. Jules Verne, Ministro da Ciência francês, comanda os agentes do serviço secreto contra os enviados de seu nêmese, H.G. Wells, Ministro da Ciência da Inglaterra. Motivados por uma imaginação sem limites, o embate dos dois ministros levará a humanidade a incríveis realizações.”

O grande destaque de produções como esta diz respeito a possibilidade de vislumbrar um futuro alternativo, onde as relações pessoais e políticas são redefinidas por poderes insólitos e tecnologias não existentes no mundo real. Abordando esse aspecto dentro de um cenário de guerra, aproximando sua escrita dos conflitos e relações da ficção científica militarista, Medeiros Jr. insere tipos célebres como o Almirante Nemo, Axel Lidenbrock, Dr. Jekyll e outros personagens célebres da literatura fantástica vitoriana em um contexto diferente das obras originais, no sentido de dar maior embasamento e profundidade ao seu cenário e enredo, ao mesmo tempo criando uma relação referêncial e empática do leitor com as obras dos autores que criaram essas figuras lendárias do século XIX, onde aflora a produção steampunk em termos de ambientação. Dessa forma, ele aproveita para trabalhar questionamentos como Existe um sentido para a ética na guerra? Como ela transforma os homens? Se os converte em monstros ou apenas liberta o que guardam dentro de si, só há um jeito de saber. Engrene-se nas histórias que formam essa realidade steampunk extraordinária.

Uma obra que mescla o steampunk com horror, romance policial, e misticismo

Uma obra que mescla o steampunk com horror, romance policial, e misticismo

Guanabara Real: A Alcova da Morte (Avec Editora, 2017) consiste na união de três autores dessa nova e renovadora geração de autores fantásticos nacionais: Enéias Tavares, A.Z. Cordenonsi, e Nikelen Witter, todos gaúchos, da prolífica cena literária de Santa Maria, interior do Rio Grande do Sul. O livro traz a temática steampunk para a corte brasileira, em pleno século XIX, quando um estranho assassinato dá início a uma trama recheada de intriga, mistério, e misticismo. Sobre o cenário e enredo, é preciso enaltecer ainda que ele se passa mais precisamente no “Brasil, 1892. Durante a noite de inauguração da estátua do Corcovado, um horrendo crime toma de assalto a alta sociedade carioca. Para resolver o mistério, a investigadora particular Maria Tereza Floresta, o engenheiro positivista Firmino Boaventura e o dândi místico Remy Rudá terão de se embrenhar numa perigosa trama de poder e corrupção. O que parece mais um caso, aos poucos se revela um plano que põe em risco o futuro de todo país e para impedi-lo, a agência de detetives Guanabara Real terá de usar toda a sua perícia para solucionar os enigmas tecnológicos e os mistérios arcanos da sangrenta Alcova da Morte!

Tendo capítulos que intercalam a visão dos três protagonistas (um para cada autor), o enredo ainda é recheado de elementos de horror sobrenatural (ao melhor estilo H.P. Lovecraft), Ficção Científica, e investigação criminal (nos moldes do mestre Edgar Alan Poe), tudo isso dentro de uma escrita cativante e cercada de enigmas da melhor qualidade. O grande mérito do livro, entre tantos, está na mistura do steampunk com outros (sub)gêneros, demonstrando que a estética do estilo não é fechada em suas próprias delimitações, muito pelo contrário. Tavares, Cordenonsi e Witter apenas revelam que esse subgênero tem suas fronteiras marcadas apenas pelo talento e influências de seus autores.

O Baronato de Shoah – A Máquina do Mundo (Editora Draco) é o segundo romance da série fantástica de José Roberto Vieira, a aventura épica continua em um clima de dor e desolação. Duzentos anos se passaram e muitos heróis surgiram e deram as suas vidas por esse propósito. Sehn Hadjakkis é um desses bravos guerreiros e lidera a Canção do Silêncio, grupo de elite que defendeu a capital imperial de uma terrível invasão em O Baronato de Shoah – A Canção do Silêncio. Agora o desafio é um dilema que não pode ser resolvido com armas ou violência. Protegidos da Kabalah, o povo-livre cansou-se dos duelos que põem em risco suas vidas e as de suas famílias. Anseiam pela liberdade e igualdade, mas acima de tudo pela paz. Para atingir seus objetivos, o povo-livre está disposto a qualquer coisa, inclusive pegar em armas contra aqueles que juraram protegê-los. A Kabalah nasceu para proteger a humanidade da ameaça de seres conhecidos como Titãs, criaturas de imenso poder que dominaram o mundo de Nordara até serem derrotadas por Shoah e seus seguidores.

Seguindo o estilo, cenário, e escrita desenvolvida no primeiro livro. O autor amplia ainda mais sua criação e supre a necessidade dos leitores com um enredo mais profundo nos conflitos do ambiente desenvolvido por ele. Ao contrário de outras produções, esta se apega mais a criação de um mundo novo e ditado por suas próprias regras, se afastando do apego ao verossímil e estabelecendo uma proximidade bem vinda com a alta fantasia, diga-se de passagem. Por isso, talvez a obra de José Roberto Vieira seja a que melhor constrói uma ponta entre a fantasia e o steampunk, podendo ser mais acolhedora aos fãs do primeiro gênero. 

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